"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

OBJETOS... malignos?! Como assim?!




Chegando ontem à área de serviço em meio a tarefas domésticas senti forte cheiro de incenso que vinha do andar de baixo e então, dando aquela paradinha básica, deliciando-me ao inspirar calmamente aquele aroma tão agradável, me veio à memória uma fase da minha vida em que eu o comprava com certa freqüência e apenas porque eu gostava daquelas fragrâncias por mim escolhidas exalando pelos espaços da minha casa.

Somente por isso e para isso.

Essa substância resinosa - inclusive com poderes antissépticos - é utilizada desde a antiguidade fazendo parte do ritual mosaico nos sacrifícios para disfarçar os cheiros característicos das ofertas ao Senhor. Da mesma maneira que é usado para “energizar” pessoas e ambientes, como também em diversos rituais conforme as mais variadas crenças.

Não vou me estender sobre o uso do mesmo, querendo apenas aproveitar a “lembrança olfativa” que tive para ressaltar que o incenso EM SI, não carrega nenhum malefício.

Como muitas outras coisas. Aliás, como qualquer objeto.

Veja a simples VELA, por exemplo.

Dias atrás faltou energia elétrica por aqui no início da noite e eu procurei uma vela.
Não encontrando, resolvi relaxar.
Do alto do andar que moro e sentada no sofá decidi ficar com os reflexos de luz que vinham da rua e de uma claridade espetacular que a lua estava proporcionando, daquelas que a gente só percebe quando acontece esse tipo de coisa mesmo ou então quando se mora na roça.

Fiquei ali experimentando aquele acaso de Deus naquela lua cheia...
Bom, mas o que provocou mesmo as tais projeções mnemônicas com toda aquela luminosidade diferente do cotidiano foi a história da vela quando aconteceu algo interessante logo que me casei e fui morar no interior do Rio Grande do Norte, onde lá tudo era muito novo para mim, novos amigos, novos costumes.

Ainda muito jovem e inexperiente, morando longe de casa, fiz amizade com uma “crente”, esposa de um colega de meu marido, recém-formada em Psicologia, com familiares também em Recife, estando lá as duas pelo mesmo motivo: transferência de marido.
Logo nos identificamos e ficamos amigas.
Com todas as nossas diferenças, claro - foi meu primeiro contato de terceiro grau com uma amiga evangélica - porém com a convivência quase obrigatória fomos cultivando uma amizade legal, quando certo dia uma dessas diferenças me soou meio indigesta pra eu engolir assim na boa. Estávamos lá em sua casa e faltou energia (no interior faltava energia demais, afe!). Quando a empregada cogitou comprar umas velinhas básicas ali na vendinha próxima, ela deu um salto dizendo alarmada coisas do tipo “que na minha casa mesmo não, que não entra vela, mas de jeito nenhum”!

Eu fiquei assim meio com cara de parede, sufocando um “hã?!” que escondia minha expressão de incredulidade naquele breu. Como assim?! Nem precisei perguntar-lhe, já que em seguida ela dá uma rápida e nervosa explicação teológica/hermenêutica/exegética/herética acerca de vela. Porque não se acende vela. E luz, minha filha, só mesmo Deus!
Ora, se Ele já é a Luz pra que usar outra?

Confesso que quis rir daquela cena patética ao mesmo tempo em que me intrigava ver uma garota tão bem informada dizendo aquelas asneiras, quando assim que a conheci fiquei admirando-a só porque ao entrar em uma igreja católica para assistir a um evento social - um casamento, não lembro - alguém estranhou sua presença e ela disse com toda naturalidade
– Por que não? Fui convidada, ué!
Porque - convenhamos - principalmente em cidades pequenas, e mais provincianas, sempre tinha (?) alguém inconveniente e preconceituosa fazendo essas perguntas cretinas só para constranger mesmo, criar aquele clima chato. No entanto, ela não saiu do salto.

Por causa disso, achei que ela tinha cabeça aberta como se dizia naqueles anos oitenta - até porque ela era minha amiga e de certa forma me servia como parâmetro em relação a familiares meus que haviam ingressado recentemente em denominação religiosa extremamente rígida, onde o cumprimento rigoroso do não pode isso e não pode aquilo era uma espécie de ingresso para entrar no céu.

E falando em “NÃO PODE”, já que estamos tratando de coisas que metem medo por carregarem supostos malefícios, lembro de uma enorme carranca que decorava minha sala de estar.

Um belo dia chega uma irmã minha, do tipo crente fundamentalista - dessas assustadas que veem macumba em tudo, que veem desgraça em coisas, que atribuem o mal ao que se vê e se pega - disposta a tirar o mal de dentro da minha casa.
Ela sempre me visitava, mas nesse dia parece até que ela foi com um propósito: o de dar um fim ao meu objeto decorativo, mas o pior mesmo foi a explicação dela. Que aquilo estava me atrapalhando a vida, que as coisas ruins que eu vinha experimentando era aquela carranca que trazia pra dentro da minha casa e blá blá blá.
Eu olhava pra ela incrédula e imaginando se meu pai estivesse ali presente o que lhe diria. Ele que abominava qualquer coisa que diz respeito a superstição, crendices, mitos, fábulas e coisas afins.
E ela falava e quase implorava para eu deixar ela mesma carregá-la enquanto ela ia levando sem esperar minha decisão, já que eu fiquei sem palavras diante daquela agonia toda que ela experimentava. Findou ela levando a tal tinhosa pelos braços em direção à área de serviço, indo colocá-la no elevador de serviço, para em seguida me forçar a dar destino imediato à coisa. Foi quando eu ainda surpresa e travada com todo aquele afã, tive a idéia de interfonar para a portaria e dizer que retirasse do elevador aquela peça (in)suspeita, colocando-a no lixo mesmo.

Como eu vinha atravessando um deserto terrível, não conhecia ainda ao Cristo que morreu por mim na Cruz e, como muitos, sabendo apenas acerca do Cristo histórico, me deixei levar pela “viagem” dela.
Afinal, eu até podia não concordar com os argumentos dela...
Mas como discordar se eu não tinha uma contra-argumentação abalizada? Aliás, diga-se de passagem que eu não tinha nenhuma, abalizada ou não.

Como diria o sábio pregador, sem a Rocha da Realidade que é a Palavra Revelada, todos nós de um modo ou outro vivemos em “viagens”.


Na verdade, eu me deixei levar, não pelos argumentos rasos e angustiados dela, mas pela própria angústia em si, pelo medo supersticioso estampado em seu rosto.
O mesmo medo que vi na expressão angustiada da amiga avessa à vela.

Eu não tinha nem mesmo o conhecimento da Palavra de Deus, como está lá em Jeremias 10.5 como refutação simples, clara e enxuta para aquela agonia toda, mas por outro lado, mesmo cedendo àquele sumário exorcismo não entrei na viagem do rigor ascético dela, em acreditar que aquela obra de arte seria responsável pelas dificuldades que eu experimentei à época.

Meu próprio temperamento já era desde cedo voltado para um estilo questionador e
resistente a certas paranóias, sempre com o cuidado de buscar informações para manter minha mente sadia e tendo a sorte de absorver com toda força essa coisa pulsante que meu pai trazia em suas veias de derrubar mitos, de questionar, de não me deixar levar por qualquer explicação.

Enfim...

Incensos, velas, carrancas...

Objetos que não têm poder de fazer bem... nem mal.

Sabe...

Às vezes eu vejo com certa tristeza a gritante incoerência no emprego de algumas normas contidas em cartas do NT, totalmente fora do seu contexto e que só segregam, isolam, separam... Enquanto nessas mesmas cartas há tanto de vida prática saudável a se seguir pra ser feliz, leve e sem o peso da obrigatoriedade.
Até porque, quem vive na GRAÇA não precisar do peso da norma.
Tudo flui NATURALMENTE.

Como diria Paulo aos gálatas, em outras palavras: ou a lei ou a graça.
“Não anulo a graça de Deus; pois se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão”.

Ora, sejamos SENSATOS, pois o mesmo Paulo que estabelece medidas disciplinares severas à igreja que se formava em Corinto é o mesmo Paulo que diz claramente aos colossenses:
“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por quê, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques naquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens?”

7 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Cara Regina,

Conheci o seu blog através de um comentário seu feito no "Renato Vargens". E gostei - sobremaneira.
O texto foi muito válido, pois estou às voltas com algumas crendices, fábulas, heresias e modismos na minha igreja. A luta tem sido difícil. Às vezes nos falta poder de persuasão (ele vem de Deus e não de nós).
Enfim, gostei muito do seu texto, pretendo vir aqui muitas vezes. E já estou seguindo o seu blog. Aproveito para te convidar a vir ao meu.

Em Cristo, o nosso Redentor!

Ricardo

Roselee Salles disse...

Olá Regina
Gostei muito do seu blog, e em especial dessa postagem "objetos".
Eu também já fui vitima dessas superstições: coleciono miniaturas de corujas, e vez por outra tenho que me justificar... mas a pior situação foi quando morava na BA e decorava a minha varanda com cactos, o Pr disse-me que aquelas espécimes eram usadas para afugentar a má sorte. Não ficavam bem em casa de crente...

Regina Farias disse...

Rose
Fique à vontade, também amei o seu e já postei por lá :)
E quanto a coisas que "crente não deve ter", lembro-me que ganhei em das amigas do Rotary em meu niver há muito tempo, três elefantes de cristal tão fofinhos, a coisa mais linda! Nunca fui esotérica antes de ser crente e mesmo assim amei como decoração, daí muito tempo depois já crente, teve gente que estranhou e comentou rsss
Achei foi graça. Hoje não existe mais nenhum porque foram se quebrando com o tempo, só por isso. Mas nunca tive superstição de botar em lugar estratégico com rabinho pra fora, esse tipo de coisa rss
Abs...

Roselee Salles disse...

Olá Regina
Obrigada pela visita.Agora estou "seguindo" o teu blog. E olha só, sou a seguidora nº 13!!!!! Devo lhe dar muita soooorrrte, ou será que a sorte é minha?. Háhahahahahahahahá...
Abraços fraternos
PS. Visites também o Belleza-pura (temos muito em comum)

Roselee

João Carlos disse...

Eis-me aqui varoa!

Meu Deuzinho do Céu é testemunha que ontem pela manhã eu deixei no rascunho do meu PC a idéia de escrever um texto sobre tudo o que o 'crente' vai ter que deixar de lado caso ele comece a crer que o coitado do capeta é dono...

Tipo vai ter que parar de comer galinha, frango, pipoca... coisinhas assim.

E vou postar, pois sei que vc sabe (sabe?) que eu num tô inventando causo não.

É mulé, acho que esta parada do 'vamo quebrá tudo' gospel faz parte do processo, você também não ficou imune ;)

Well, deixa eu começá a rabiscá minha lista do proibido...

Beijos e sua bênça bispa!

JC

Regina Farias disse...

JC

Eu vi a "prova" que vc mandou aff

Sei bem comekié, tb acontece isso comigo (quase) diariamente, de uma forma ou de outra.

O coitado do capeta foi o ó ah ah ah sim, pq termina sobrando pra "quem não tem nada a ver" com as neuroses religiosas.

abs

R.

Erica Serpa disse...

Como já "pastamos" por causa destas coisas aqui em casa... Meus pais são uma benção - e, em um caso, realmente, falaram certo - a história do boneco fofão, que tinha uma cruz e uma espada de são jorge dentro...hehe.

Mas nossos discos seculares, livros, e outras bonecas dançaram nessa limpeza espiritual que se fez aqui em casa.

Pensei que essa 'moda' havia passado, mas ela sempre vem com uma roupagem nova.

Regina, saudade de trocar ideia contigo. Mas to chata. =/

Beijocas