"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Justa Homenagem




No Dia Internacional do Livro eu gostaria de render uma justa homenagem a uma pessoa muito querida: minha irmã mais velha, Auri - como chamamos na intimidade.

Hoje, já no final do dia quando fui lembrada da importância dessa data, ela foi a primeira pessoa que me veio à mente. Não conheço uma pessoa que devore mais livro do que ela! Se alguém chegar à casa dela, seja em que horário for, verá que em seu quarto as mesinhas de cabeceira - e outras mais que estiverem ao redor – estão cheias de livros empilhados. E não pense que são livros velhos e empoeirados, pois o interessante é que são novinhos em folha e ela lê vários, simultaneamente. Isso com uma graciosidade e leveza incríveis sem qualquer ar de intelectualóide!

E esse hábito é antigo...

Vem lá da pré-adolescência. Pois não é que ela já lia de tudo quando ainda cheirava a leite? Se bem que todos nós fomos criados lendo por obrigação, já que nossos pais eram educadores/donos de escola primária, numa época em que o ato de ser professor não era apenas “ensinar” e sim educar de forma bastante ampla. Inclusive já falei um pouco a esse respeito quando postei um texto no dia do aniversário do meu pai.

Mas ela se destacava. Se bem que, em se falando desse tipo de recorde na precocidade, eu tenho outra irmã, a Duda, que aos nove anos de idade já tinha lido toda a literatura infanto-juvenil da biblioteca do meu pai, sendo que esse seu afã foi mais nessa fase da vida mesmo. O certo é que hoje em dia, uns em mais intensidade e outros em menos, todos nós ainda conservamos o velho hábito de uma boa leitura.

Lembro-me que quando minha mãe “alugava” a mim e às outras mais novas em alguma eventual tarefa doméstica, eu sempre questionava (Sempre fui questionadora he he he) porque ela nunca era solicitada e a resposta era sempre a mesma: deixa Auricélia em paz, ela está lendo. Eu, cá com os meus botões, achava que era porque ela era a mais velha. Essa suspeita rola até os dias de hoje... Mas eu já fiz terapia rss

À época, final dos anos 70, ainda morávamos no interior, mas os mais velhos (euzinha incluída, saí de casa aos 15!) estudávamos fora e sempre que voltávamos nas férias ou feriado mais prolongado, o prazer dela era fazer a busca por novos livros e eu me lembro de um episódio interessante em que meu pai não tinha um só que ela não tivesse lido e ele logo tratou de se empenhar para encontrar alguém que tivesse bilbioteca, já que naquele tempo poucas pessoas dispunham de biblioteca vasta em casa. Foram em alguns lugares, inclusive na bilbioteca pública, mas não havia um que ela não tivesse lido! Foi então que ele lembrou-se de levá-la à casa de um amigo também forasteiro, gerente do Banco do Brasil, ainda lembro o seu nome incomum, João de Deus. Lá, não tinha erro!  - Imagino que meu pai assim pensou.

Reza a lenda rs que, chegando lá, enquanto os dois trocavam figurinhas ela já foi adentrando naquele ambiente cheio de prateleiras enormes que lhe eram tão familiares, não pelo espaço físico, mas pelo que ele comportava: livros e mais livros. E pasme: não havia um só que ela não tivesse lido! Havia um tal de A.J.Cronin que ela já tinha passado tudo dele! Era uma coleção imensa, mas ela simplesmente a esnobou assim como o fez com tantas outras. Só fazia abaixar a cabeça e dizer: esse eu já li , esse eu já li, aquele também - à medida que discorria a vista e os dedos em cada uma daquelas luxuosas coleções. Ela tinha seus dezoito anos, se não me falha a memória, mas aos 14, 15, já se definia como leitora voraz, tanto que ninguém nem ousasse chamá-la para nada, como falei antes. Por isso, ainda hoje, ninguém conte com ela nem pra coar um café porque ela não sabe ( Ui, ela vai comer meu fígado, tô ferrada!) Ora, a espaçosa  dispõe de empregada doméstica até para o domingo! Pronto, falei! Vingança maligna! :)

Ultimamente até que tem sido menos frequente, mas quando ela vem de Maceió pra Recife (ela reside lá já tem uns vinte anos, creio eu) logo me telefona e eu já penso: Já sei, Livraria Cultura, bora rss

Minha irmã, amo você. Do fundo do meu coração!

RF

Como ensinar SOLIDARIEDADE?



“O menino me olhou com olhos suplicantes. 

E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes...”.

Há coisas que não podem ser ensinadas. Há coisas que estão além das palavras. Os cientistas, os filósofos e os professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas. Coisas que são ensinadas são aquelas que podem ser ditas.

Sobre a solidariedade muitas coisas até podem ser ditas...

Por exemplo: eu acho possível desenvolver uma psicologia da solidariedade. Acho também possível desenvolver uma sociologia da solidariedade. E, filosoficamente, uma ética da solidariedade... Mas os saberes científicos e filosóficos da solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como a crítica da música e da pintura não ensina às pessoas a beleza da música e da pintura.

A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.

Palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Os saberes, todos eles, são pássaros engaiolados. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Ela pertence a uma classe de pássaros que só existem em vôo. Engaiolados, esses pássaros morrem.

O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras. Mas há coisas que não estão do lado de fora. Coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera...

Imagine o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes – lembre-se da história da Bela Adormecida! Elas poderão acordar, brotar. Mas poderão também não brotar. Tudo depende... As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas... De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões...

Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente...

Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.

A solidariedade é como um ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!”. A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam... Da mesma forma como o poema é um transbordamento da alma do poeta e a canção, um transbordamento da alma do compositor...
A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. É um sentimento estranho, que perturba nossos próprios sentimentos

Acontece assim:

Eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho de suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável esse sentimento imaginado se aloja junto aos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são mais meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse é o sentido do dito de Jesus de que temos de amar o próximo como amamos a nós mesmos. A solidariedade é uma forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade, meu corpo passa a ser morada de outro.

É assim que acontece a bondade.

Adaptado de texto extraído de RECORTES 

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TATUAGEM



Fora os que me conhecem na intimidade, talvez muita gente estranhe e alguns até se escandalizem, outros mais preconceituosos e bitolados podem achar que é coisa de adolescente, enfim, como sempre dou a cara pra bater contando causos pessoais, deu na telha de falar sobre isso hoje: tatuagem.

Tem um programa de TV que eu assistia com bastante frequência, até bem poucos dias chamado Miami Ink e que era exibido por um canal pago. Achava legal, curtia assistir porque era um programa leve e divertido que se passava em um estúdio de tatuagem e à medida que a arte ia sendo executada, ficávamos sabendo um bocado da história daquelas pessoas, principalmente na parte em que as levam a escolher determinado desenho. Isso sem falar dos equipamentos utilizados e aquelas incríveis e variadas obras de arte em movimento que dali saiam a todo instante. É uma espécie de reality show que nem mesmo os tatuadores escapam dessa exposição de suas vidas.

Outra coisa que acho muito legal também e que muito me prendia a atenção é que cada um dos profissionais tem um estilo próprio e uma história de vida bem interessante, conservando a humildade e o profissionalismo, pois mesmo estando entre os melhores tatuadores, e até de muitas celebridades, fazem seu trabalho com a mesma dedicação em pessoas comuns.

E eu, pra variar vou confessar porque curto o programa: sou apreciadora dessa arte!

E vou além, pois não sou apenas apreciadora... Um dia ainda faço uma!

Bem, não estou fazendo nenhuma apologia à tatuagem rss, só falando de gostos pessoais. Tudo bem, quem não curte... Afinal, tem muito costume estranho por aí que eu não concordo, não sigo, acho esquisito, aliás, tem uns até "em nome de Deus". E quer saber? Eu não concordo mesmo é quando radicalizam sobre tatuagem e falam de coisas que não entendem. E o PREconceito surge exatamente daí, pois ao ser apresentada a uma situação assim, a pessoa já vem armada, de nariz torcido, porque foi formado um conceito antes, geralmente carregado de informação superficial e distorcida e sempre generalizada.

E a tatuagem não foge à regra. O que eu já ouvi por aí sobre os supostos malefícios da mesma que vão desde danos físicos a espirituais, chega a ser engraçado. Quantas vezes já ouvi: aquele cara fuma maconha, olha lá o tamanho da tatuagem dele. (Tanta gente que curte a erva e não tem uma tatuagenzinha sequer... )

Em outras situações a pessoa sofre eterna discriminação apenas pelo tipo de desenho escolhido; tem quem leva até nome de marginal talvez devido ao seu uso estar associado ao fato de, no final do século 19, a Inglaterra ter adotado esse procedimento para identificar criminosos; e ainda tem aquele que, só pra discordar, pergunta como vai ser quando o cara ficar velho rss.

Mas pra mim, uso de tatuagem está mais ligado a estilo pessoal, a comportamento, pois observe-se que numa mesma família onde os filhos são esclarecidos corretamente, sem neuras, sem religiosidade, sem proibições, tem os que curtem e os que não curtem tatuagem e essa é a grande sacada: a liberdade de escolha.

E esse lance de que Deus proíbe, é outra coisa que precisa ser revista no Código Divino, como comentamos dias atrás sobre isso lá no blog do Tiago.(Risos)

Ora, quando me vêm com passagem em Levítico 19.28 simplesmente digo que lá está bem claro: PELOS MORTOS não ferireis a vossa carne - em referência aos que faziam lacerações no corpo, imprimindo marcas em sacrifício aos ídolos mortos cultuados.

Outra coisa neurótica e extremista é dizer ainda que a tatuagem pode ser sinal de pacto sobrenatural, sinal de rebeldia e ainda que serve para identificar determinados grupos. Ora, pode até haver, eu não duvido de nada rss, mas isso é generalizar, pois há tatuagens e tatuagens, formas e formas, motivos e motivos. E da mesma maneira que existe esse tipo de tatuagem mal vista, existem outros sinais que não estão gravados e que também servem para esse tipo de identificação e nem têm marca visível e MESMO ASSIM, o pacto está ali, tatuado no coração, sabe Deus com o quê ou com quem.

A argumentação mais rasa é a do “templo do espírito”, que os religiosos usam em relação ao que diz Paulo ao povo de Corinto quando este lhes puxa a orelha ao falar sobre prostituição e atividade sexual fora do contexto conjugal. (Ver 1Co 6.19) O mesmo Paulo que, aos rigorosos, insensatos e inflexíveis gálatas - que defendiam a justificação pela lei insistindo em cortar um pedaço de pele - ele lhes diz que então cumpram rigorosamente a lei. (E é claro que há um quê de indignação, ironia e desafio, afinal quem é capaz de cumprir normas rigorosamente e todo o tempo?) E acrescenta: porque, em Cristo, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, MAS A FÉ QUE ATUA PELO AMOR.(Ver Gálatas 5.6)

Enfim, as minhas restrições estão ligadas apenas aos cuidados com infecção da pele, portanto quando for fazer a minha, certamente vou procurar um profissional devidamente qualificado, pode até ser o Chris Garver (foto) que eu não me farei de rogada rss


RF.




terça-feira, 20 de abril de 2010

Vai e procede tu de igual modo


Um crente, daqueles de terno e gravata, em dia quente, bíblia surrada debaixo do braço, sujeito sincero em sua fé, temente a Deus, buscando cumprir a risca sua cartilha. Sempre na busca de não dar um mau testemunho, de não fazer tropeçar os que, por exemplo, tem sua vida reta como referencial de cristão.

O percurso de sua casa até a igreja passava por um prostíbulo, também conhecida como zona.

Se tem uma coisa que este crente não pode ser acusado era ser fraco nesta área. Jamais cedeu ao apelo sexual das meninas que expunham seus corpos para a prostituição de sua forma mais tradicional.

Tão firme era ele que, um dia, duas prostitutas o cercaram. Queriam a todo custo se aproximar do crente. Elas, não tão novas, estavam cobertas de maquiagem e um forte perfume. No interesse de detê-lo em seu caminho, tentaram até pegá-lo pelo braço, mas ele se esquivou. Faltou pouco para que ele voltasse de sua fuga, e com o dedo em riste, repreender aquela tentativa – desagradável, inapropriada, não condizente, inoportuna.

Mas ainda era sábado: Havia um domingo pela frente. O culto daquele sábado trouxe um crente orgulhoso em sua postura correta. O de domingo traria outra história.
Na ida do culto, o velho puteiro já estava em pleno funcionamento. O crente, como sempre, fez seu trajeto obrigatório, mas agora só uma das prostitutas do dia anterior estava ali. Vestida com o mesmo shorts curtíssimo, chorava sentada a calçada, o que chamou a atenção daquele cidadão tão devoto:

- O que acontece? Por que chora tanto?

- Minha amiga... - falou a puta, só então olhando no rosto de quem a questionava.

Os olhos inchados e vermelhos não iam ajudar a ter muitos clientes naquela noite. Após uma breve pausa, questionou:

- Não foi você que passou por aqui ontem?

- Sim... - recuou ele.

- Minha amiga estava desesperada, ela queria sair desta vida. Nessa vida de prostituta, só crente não põe o pé. Ela acreditava que os crentes poderiam ter a resposta...
O homem ouvia aquilo e um sentimento de vergonha e orgulho se confundiam.

- Onde está ela? - perguntou ele, se preparando para dar as respostas necessárias.

- Ela se matou...


História verídica - Texto original ---> O CRENTE E A ZONA
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Estabelecendo o paralelo entre as histórias de "passar ao largo" lamentavelmente o fato se repete e esses políticos espirituais de colarinho branco roubam o que há de mais precioso: a vida.


E a mesma história se repete ironicamente todos os dias e das mais diversas maneiras, na mesma proporção em que cresce o número de templos (dos mais suntuosos aos clubinhos particulares) porque somos vaidosos, pretensiosos, e, acima de tudo, resistentes em não obedecermos ao mandamento "Vai e procede tu de igual modo"(Lc 10:25.37) determinado pelo próprio Redentor.

Vai tu <- modo imperativo- A gente quer o Redentor 100% mas não quer o Senhor na íntegra, parafraseando meu amigo João Carlos.

Ora, Jesus não perguntou se a gente acha boa essa idéia de dar a mão ao necessitado, até porque ao propôr a parábola, Ele revigora a memória do intérprete da Lei, que tem o mandamento só no papel e NÃO APLICA na vida real. O mandamento que, no final das contas, engloba TODOS os outros:

"Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento;

e:

Amarás o teu próximo COMO A TI MESMO".

Simples assim!

Mas é justamente aí que o bicho pega, pois é simples mas não é fácil, já que ele teria que sair do mundinho pré-estabelecido, acomodado, egoista, perniciosamente religioso, e que gira em volta do próprio umbigo, digo, da própria "igreja".

Então, é mais fácil colocar um terno (e comprar uma bíblinha melhorzinha rss <--riso amarelo) pra poder sair bem na fita lá na igreja do meu pastor Sr fulano de tal, que me deu uma cartilha pra eu seguir. Seguir feito rolo compressor, passando por cima do irmãozinho.

Ou da irmãzinha... :(

E assim caminha a humanidade...

RF.


domingo, 18 de abril de 2010

QUERES SER CURADO?




De vez em quando – e conforme o que eu vivencio no cotidiano -  me vêm à lembrança, de maneira muito forte, certas passagens bíblicas. Hoje se trata de uma passagem que eu desconfio até que já escrevi algo relacionado a ela, mas esse é um assunto tão incrível, tão denso, tão rico, que eu insisto em repetir.

Conta-nos a história que em Jerusalém, havia uma das entradas cujo nome era Porta das Ovelhas, onde se localizavam imensos reservatórios de água escavados na rocha e coletados também da chuva para o consumo. Um deles - o tanque de Betesda - era conhecido por ter uma água milagrosa, curando aquele que ali estivesse no exato instante em que a água era chacoalhada por um anjo que surgia periodicamente justamente para esse fim. (João 5.4)

A história diz que qualquer doença era curada imediatamente e por isso ali se reuniam aos milhares não só os aleijados como todo tipo de doente que havia. E foi ali que um homem enfermo havia 38 anos (Eu disse trinta e oito!) travou um breve e contundente diálogo com alguém que ele jamais imaginaria quem fosse. Afinal, este não portava nenhum crachá nem plaquinha de nome de igreja nem chegou dizendo que pertencia a essa ou aquela denominação religiosa, primeiro porque ele não possuía tais “referenciais” e depois por estar/ser focado única e exclusivamente na necessidade do outro.

Impressiona-me porque ali mesmo, em poucas palavras, o homem foi curado. E, particularmente, essa história de cura simplesmente me fascina, porque ela se dá na alma, vai ao cerne da questão, na raiz do mal que consumia aquele homem que, de tão minadas as energias, já vivia em cima de uma cama há muito tempo.

E aí... É curado “milagrosamente”!

Então eu me lembro de que disse uma vez um psicólogo que quando estamos com uma tristeza muito grande, no limiar de uma depressão, o primeiro impulso é o de não sair mais da cama. As forças vão se esvaindo e a pessoa se deixa levar por um desânimo que gradativamente vai tomando posse do ser. E é nessa hora que o outro entra em cena. (Ou deveria...) Nesse momento percebemos como precisamos do outro.

“Melhor é serem dois do que um”. - diria o pregador de Eclesiastes.

Às vezes, munida de compaixão, uma única pessoa para dar injetada de ânimo é suficiente. Outras vezes somos mais sortudos e o grupo à nossa disposição é maior. E às vezes também esse grupo pode se colocar à disposição, MAS se não quisermos de nada adianta tanto empenho. Por isso eu vejo que mesmo tendo pessoas ao nosso redor, em alguns momentos na vida as mudanças só acontecem pela nossa própria decisão, nossa escolha, nossa vontade; que as pessoas são usadas como instrumento de Deus para nos encorajar, mas que precisamos ter vontade para mudar o rumo da situação em que nos encontramos.

E compaixão é justamente sentir com, ter a mesma paixão, o mesmo sentimento, tipo “tô contigo nessa parada”! Porém, tem hora que mesmo estando cercados por um staff  não conseguimos enxergar de tanto que estamos atolados em autopiedade, puxando o velho freio de mão que nos impede de aceitar de bom grado a ajuda que precisamos, simplesmente porque nos acostumamos a ter pena de nós mesmos. Ficamos calejados e então perdemos a sensibilidade, anestesiados pela força do hábito, muitas vezes traduzida como cinismo. Quantos conhecemos que no meio do processo de um novo aprendizado dizem ah eu vou voltar pra tal condição, vou voltar pra tal lugar, porque lá eu era livre... (Na ilusão de que aquele rei da Passárgada do seu passado era seu amigo fiel e verdadeiro).

A história daquele paralítico eu não sei qual era, mas sei que ele também não fazia nenhum esforço para alcançar (vontade -> ação) a água que curava, porque estava desesperançoso. Permanecia junto aos demais, sabia que a água curava, via os outros sendo curados por aquela água remexida ali tão próxima, mas sua letargia o impedia de alcançá-la, de tão paralizada que estava sua alma.

Até que um dia, esse Alguém que o observava aproximou-se e indagou-lhe:

- QUERES ser curado?

Ele perguntou em outras palavras:

- Você se importa com o seu problema o suficiente para fazer alguma coisa a respeito, ainda que isso exija certo esforço, alguma ação?

- “Levanta-te, toma o teu leito e anda"

E ele se foi...
E eu imagino que essa abordagem teve efeito imediato, tipo um tratamento de choque, por causa do AMOR como aquele homem falara com ele. E funcionou não por ser uma demonstração de “amor” pseudo-piedoso, complacente, lerdo, mas pela maneira bem especial de demonstrar real interesse pelo problema sem sentir aquela peninha inútil que certamente o doente capta e que, em círculo vicioso, só realimenta o mal.

Eu não tenho nenhuma dúvida: o paralítico foi curado pelo amor.

A fé e a esperança são importantes, mas o mais importante é o AMOR.

Ora, esperança ele não tinha: “-Não tenho ninguém...”

Em outras palavras:

- Ninguém me ama ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor, a vida passa e eu sem ninguém, ninguém me abraça nem me quer bem...

Fé... Menos ainda! O próprio tempo denuncia isso. E mais: para o paralítico ali estava certamente a única pessoa  que dele se compadeceu dando-lhe a atenção e as palavras que ele precisava.

E mais tarde quando Jesus se encontra com ele no templo, ainda o adverte, pois sabendo que seu pecado era a desesperança que o havia deixado preso na alma durante 38 anos, esse era seu cuidado: que ele não perdesse mais a esperança!

E sem qualquer plaquinha de identificação ou currículo religioso à mão, deu o toque:

- Olha que já estás curado; não peques mais para que não te suceda coisa pior. (E ainda tem gente que acha que isso era Jesus ameaçando). Aos que pensam assim, Jesus diz: - Eu vim para curar e não para julgar ou condenar.

Jesus sabe que o paralítico na alma racionaliza tudo, é teimoso e resiste em romper seus limites, e ainda tenta se justificar, tendo explicações na ponta da língua para o seu caso “sem solução”. Uns são reclamões, outros são mais sutis, e há ainda os silenciosos.

Em alguns, a autocomiseração é inteligente e a chantagem, explícita:

-Ninguém me entende... -

Mas Jesus ignora todas essas nossas emoções negativas porque conhece as nossas potencialidades e espera que as usemos, numa sequência que nos leva a atitudes práticas. A interação entre os aspectos mental, espiritual e físico é algo puramente bíblico e essa visão holística do homem não é creditada a nenhum outro psicoterapeuta senão ao maior psicólogo de todos os tempos cuja proposta é que tenhamos uma vida saudável em todos os aspectos de modo que possamos viver com plenitude, uma vida em constante transformação e que começa pela saúde da mente.

Daí quando Ele diz para termos bom ânimo perante as aflições que certamente enfrentaríamos, ele nos incentiva a superar as adversidades, sejam quais forem, para experimentarmos, aqui mesmo, as Suas bênçãos! Porque, afinal, somos peregrinos que almejamos felicidade eterna, mas também felicidade aqui e agora!

Portanto, paremos de choramingar, de nos lamentarmos, poupemo-nos de filosofias vãs, de tanto blá blá blá.

- Pega tua cama e segue em frente! Sem medo de ser feliz!




"Perguntaram-lhe eles:
Quem é o homem que te disse:
Toma o teu leito e anda?
Mas o que fora curado não sabia quem era."
(João 5: 12.13a)





RF

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TEM PÃO VELHO?



Vou contar um fato corriqueiro que, inesperadamente, me trouxe uma grande lição de vida.

Era um fim de tarde de sábado.

Eu estava molhando o jardim da minha casa, quando fui interpelado por um garotinho com pouco mais de 9 anos, dizendo:

- Senhor, tem pão velho?

Essa coisa de pedir pão velho sempre me incomodou desde criança.

Olhei para aquele menino tão nostálgico e perguntei:

- Onde você mora?

- Depois do zoológico.

- Bem longe, hein?

- É… mas eu tenho que pedir as coisas para comer.

- Você está na escola?

- Não. Minha mãe não pode comprar material.

- Seu pai mora com vocês?

- Ele sumiu.

E o papo prosseguiu, até que eu disse:

- Vou buscar o pão. Serve pão novo?

- Não precisa, não. O senhor já conversou comigo, isso é suficiente.

Esta resposta caiu em mim como um raio. Tive a sensação de ter absorvido toda a solidão e a falta de amor daquela criança, daquele menino de apenas 9 anos, já sem sonhos, sem brinquedos, sem comida, sem escola e tão necessitado de um papo, de uma conversa amiga.

Caros amigos, quantas lições podemos tirar desta resposta:

"Não precisa, não. O senhor já conversou comigo, isso é suficiente!"

Que poder mágico tem o gesto de falar e ouvir com amor!

Alguns anos já se passaram e continuam pedindo "pão velho" na minha casa...

E eu dando "pão novo", mas procurando antes compartilhar o pão das pequenas conversas, o pão dos gestos que acolhem e promovem.

Este pão de amor não fica velho, porque é fabricado no coração de quem acredita Naquele que disse:

"Eu sou o pão da vida!"

Verifique quantas pessoas talvez estejam esperando uma só palavra sua.

- Tem pão velho?


(Texto recebido por e-mail)


RF

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quem está no controle?




A fé em Jesus não se abrigou em nenhum 'templo' até o quarto século. E por mais de trezentos anos os cristãos não tiveram nenhum templo nem sentiram falta de nada.
 
E mais: foi o tempo mais feliz que a Igreja já experimentou na História, apesar das muitas perseguições.

Hoje, pelo menos 85% das 'igrejas' estão assim: umas, doentes de algo tão grotesco que não dá nem pra passar na porta. Outras sofrem desses males intervencionistas, fruto do desejo de poder e controle.

Algo corrompeu a alma pastoral da maioria e, por conseguinte, também da comunidade.


Tenho um amigo muito amado e muito cristão que disse outro dia, que não leva mais as filhas a nenhuma 'igreja',a fim de que as meninas, adolescentes e críticas, não percam a fé.

Meu dilema nos últimos 30 anos sempre foi esse.

Pregava para milhões na televisão, no rádio, nos estádios lotados, em teatros, por meio de meus livros, revista, fitas, vídeos etc.; milhares se convertiam, pediam recomendação de uma igreja, eu indicava, alguns poucos se davam bem, mas a maioria dizia:

- Quero saber onde é que pregam a Palavra, conforme ouço você pregar, porque onde estou, é 'outro evangelho'.

Naquele tempo — até cerca de dez anos — ainda havia igrejas recomendáveis.

Hoje está brabo, como nunca esteve antes.

Até muitas das igrejas históricas entraram no esquema de controle de almas humanas.

É um inferno.

O Diabo agradece!
Mas lembre-se:


 
Você não se converteu a uma 'igreja'.

 
Você conheceu Jesus, e, por esse simples fato, se tornou Igreja.

Portanto, crie sua própria comunhão de irmãos.

Reúna-os para lerem a Palavra e orar.

Faça como Jesus e Paulo: passavam pela sinagoga; se bem recebidos, ficavam; se não, passavam adiante.

Nosso negócio é com gente, e não com xerifes adoecidos e auto-intitulados de pastores.

Não desanime.

O amor de Cristo é maior que a doença da “igreja”.

          Pregue a Palavra da Graça de Deus.

          Igreja é quem crê no Evangelho da Graça.

Deles é o direito de primogenitura espiritual sobre essa Incomparável Confissão de Fé.

(Grifos e negritos meus - RF)


(De um pastor a certo jovem. Texto na íntegra AQUI)





domingo, 4 de abril de 2010

Semana Santa





"Perguntou-lhe Jesus:

Mulher, por que choras?

A quem procuras"?

(João 20.15)











Inevitavelmente me vêm lembranças estranhas nesse feriadão...

Nascida em lar católico e estudando em colégio de freiras, quando criança e adolescente esses eram os dias mais tristes da minha vida, enquanto coadjuvante de uma verdadeira comoção coletiva, vindo à tona de maneira muito deprimente a história do sofrimento pessoal e da perseguição política que Jesus sofreu em seus últimos dias terrenos.


A igreja que frequentávamos e a capela do colégio ficavam mais sinistras ainda do que os meus olhos costumavam ver, com todas aquelas imagens enormes vestidas de cima a baixo com mantos roxos que me davam medo. (Ainda hoje tenho certa reserva pela cor roxa tão na moda atualmente)


Para completar todo aquele ambiente baixo-astral, havia as tradicionais procissões que, em apelo contagiante, carregavam grande conteúdo dramático com uma tremenda carga emocional que nos imputava enorme sentimento de culpa e de pena. Eu me sentia muito mal e o coração apertado me silenciava. E me silenciou durante muito tempo. (Sem contar quantas vezes fui queimada com aquela vela que eu tinha que carregar.)

 
E assim fui crescendo e vivendo em meio a essa tradição que dentro do contexto histórico-cultural e religioso nos primeiros séculos era um recolhimento natural em rememoração aos últimos dias de Jesus e que, com o passar do tempo- inclusive para o catolicismo que adora um cerimonialismo - foi se tornando obrigatório, enfatizando-se até o que se deve e o que não se deve comer, recheado com suas famosas regras e religiosidades. Aliás, como de fato ocorre em todos os tradicionalismos adotados pelo homem e que findam por desvirtuar o real sentido das coisas através dos tempos.

 
Por outro lado, não sou contra festividades religiosas, principalmente como essas duas tão significativas: na passagem do AT, o povo de Deus foi liberto da escravidão egípcia; na passagem do NT, o povo de Deus é liberto pelo eterno sacrifício da Cruz. Essas duas Alianças de Deus com o seu povo marcaram mudanças radicais e assim como os judeus comemoravam a libertação do seu povo, a nossa libertação pelo sacrifício na Cruz também "merece" comemoração. E muito mais, já que se trata da Eterna Aliança. E todos os dias, posto que é a celebração pela Vida!

 
Para mim, entretanto, a grande questão é o tradicionalismo como obrigação constituindo-se um risco quando se preserva o que foi determinado pelo homem, tornando-se inevitável o fato da tradição ser utilizada como máscara de santidade. Esse é o risco. Bem enfatizou o autor de Hebreus que a experiência espiritual cristã é dinâmica, justamente ao povo escolhido que estava desistindo da fé na Graça de Deus, em Cristo, anulando o sacrifício da Cruz. Voltando a velhos ritos, práticas e crenças legalistas, devido a toda sorte de opressão, foram perdendo o sentido da palavra hebreu que é fruto da desinstalação, da capacidade de andar para adiante, de cruzar fronteiras. (A raiz semítica da palavra “hebreu” determina estado constante de progressão).

Quantos de nós, cristãos, anulamos hoje em dia o sacrifício da Cruz com práticas, crenças, normas e regras inúteis, desnecessárias e ineficazes!Quantos de nós, ainda não entenderam que a relação conflituosa de Deus com os homens nada tem a ver com regras! Inclusive, diga-se de passagem, que os únicos sacrifícios que a Ele importam são o louvor a Ele e a cooperação entre os homens.

 
Não sou teóloga nem falo em nome de nenhuma denominação, mas leio, pesquiso e particularmente, observo com certa curiosidade, mudanças de hábitos até mesmo em instituições religiosas que adotam a abstinência de carne, como por exemplo, quando um tempo atrás um sábio arcebispo em Porto Alegre, considerando os apegos modernos, surpreendeu os católicos afirmando que ingerir carne não se constituía em pecado, não havendo nenhuma proibição e sim uma tradição, sugerindo inclusive outros tipos de penitências, já que hoje em dia os excessos são outros e as pessoas não se regalam tanto em alimentos, principalmente a carne vermelha abastada, que era a tônica nas festas antigas, juntamente com a bebida. Hoje em dia a própria lei seca já reprime a prática dessa última, o que nos diz claramente que a tradição se perde conforme o contexto histórico em que se vive.

 
Não poderia, entretanto, deixar de citar a analogia da carne vermelha que, segundo os adeptos, estaria fortemente associada à Paixão, já que durante o Seu martírio, Jesus havia perdido todo o conteúdo de sangue em seu corpo; eu até entendo que, certamente é como se toda aquela forte lembrança associada impregnasse certa repugnância ao cardápio em questão. Porém, o que se percebe é que muitas pessoas comemoram toda essa passagem, seguindo rigorosamente as regras e cerimonialismos de forma mecânica e coletiva, deixando de lado o que mais importa: o exame diário dos nossos pensamentos, das nossas palavras e das nossas ações em relação ao próximo, sem perceber que o resto é prática inútil.

 
Ora, se eu morri com Cristo, sujeitar-me às ordenanças do mundo é um contra-senso, uma infantilidade espiritual; ou seja, por que renunciar comer ou beber isso ou aquilo em determinado dia, já que podemos comer isso ou aquilo em qualquer dia, desde que seja com bom senso e moderação? (Cf Cl 2: 20,23)

 
Enfim, nada disso tem a ver com pecado, rituais e muito menos com oferenda a deuses como sugerem desavisados denominacionais em extremo oposto, que associam erroneamente essa data a eventos pagãos, quando na verdade esse evento ocorreu justamente no Pessach, data em que os judeus comemoram a fuga e libertação de seu povo escravizado no Egito.

(O próprio Evangelho de João – este foi o evangelista que viveu mais próximo de Jesus - propõe uma cronologia que aponta a última ceia de Jesus para a data dessas festividades judaicas.)

 
E principalmente, porque a Paixão de Cristo nada tem a ver com tradições, paganismos, comida e bebida, e sim com o cumprimento das Escrituras de maneira que Deus se reconciliasse com a sua criação, tornando ineficaz qualquer sacrifício que tente aperfeiçoar ao que Lhe preste culto.

 
Por isso, no momento que Jesus morreu imediatamente o Véu do Santuário foi rasgado de cima a baixo numa clara demonstração do livre acesso a Deus, que nada tem a ver com questões morais e sim, relacionais.

 
O véu do templo era uma cortina pesada ficando entre o Lugar Santo e o Santo dos Santos e sua presença era uma lembrança constante da separação entre a humanidade e Deus. O fato de ter sido rasgado em duas partes, de cima a baixo significa a remoção de qualquer barreira que existia entre Deus e qualquer pessoa que aceite o sacrifício de Jesus na Cruz, que penetra além do véu.

 
Finalmente...

 
Nós não temos capacidade de expiar nossos próprios pecados, por isso Jesus o fez por nós.

 
Sacrifício pessoal e auto-flagelo não interessam a Deus, daí não concordar com essa história de penitências que para mim é algo contraditório e desnecessário, já que o sacrifício da Cruz é perfeitamente suficiente.

“Está tudo feito para que em mim possa ser feito”.

 
Ele ressuscitou e vive para sempre!

 
E o Seu Sangue purifica a todo aquele que crê... Independentemente do cardápio da Semana Santa.

E, claro, se escolher beber... Que o faça com moderação.

 
RF


"Eis que o véu do santuário
se rasgou em duas partes
de alto a baixo".
(Mt 27.51a)







quinta-feira, 1 de abril de 2010

Mentira tem perna curta



Dia da mentira



Origem: Uma das várias explicações para essa brincadeira diz que ela surgiu na França, no século XVI, quando era festejada no dia 25 de março, com a chegada da primavera, e se estendia até o dia primeiro de abril.


Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX da França determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1 de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los e enviar presentes esquisitos e convites para festas que não existiam. Essas brincadeiras ficaram conhecidas como plaisanteries.


Em países de língua inglesa o dia da mentira costuma ser conhecido como April Fool's Day ou Dia dos Tolos, na Itália e na França ele é chamado respectivamente pesce d'aprile e poisson d'avril, o que significa literalmente "peixe de abril".


No Brasil, o 1º de abril começou a ser difundido em Pernambuco, onde circulou "A Mentira", um periódico de vida efêmera, lançado em 1º de abril de 1848, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. "A Mentira" saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.


Superstição: Para completar, não tinha como não haver uma superstiçãozinha no meio, sugerindo-se que tal brincadeira realizada após o meio-dia, traga má sorte ao perpetrador. Acredita-se ainda que se alguém não consegue aceitar os truques, ou tirar proveito deles dentro do espírito da tolerância e do divertimento também deve sofrer com a má sorte. Diz-se ainda que aquele que for enganado por uma bonita menina será recompensado com o matrimônio, ou pelo menos, a amizade dela. Casar no Dia da Mentira não seria uma boa idéia e um homem que se casa nessa data será para sempre controlado pela esposa.


Atualidade: Com o advento da internet, como um meio de comunicação mundial, o trabalho dos traquinas foi atualizado e agilizado, embora a mesma faça com que seja difícil de saber se uma peça é perpretada antes ou depois do meio-dia já que os fusos horários são diferentes em partes diferentes do mundo, não acontecendo o primeiro de abril simultaneamente em todo o mundo.


Muitas organizações de mídia propagaram inconsciente ou deliberadamente peças no Dia da Mentira sendo as pessoas mais vulneráveis as não-ocidentais, que não se ligam bem nesse costume.


(adaptado)


Que bom se nossas mentiras fossem assim leves, brincalhonas e efêmeras, sem nenhuma consequência, senão a do alívio acompanhado de boas risadas.

Que bom se pudéssemos apenas pregar peças nas pessoas e, no momento seguinte, nos desmascarássemos sem nenhum dano para ambas as partes.

Porém, brincadeirinhas inocentes à parte - mas também sem nenhum vestígio de desaprovação moral - aproveito a data para refletir sobre nossos atos cotidianos, falando sobre essa peça que vivemos pregando ao longo da nossa vida, independente de data específica: a mentira.

Tais atos, envolvendo uma mentirinha aqui outra ali, muitas vezes tornam-se tão comuns que vira um costume, um hábito. E aí está o risco! A questão, não é a ética em si, mas a gravidade de suas consequências, que vão desde desavenças entre duas pessoas a inimizades de maiores proporções.

Quando se trata de compulsão pela mentira, já é caso de tratamento específico e tão vasto e complexo que nem ouso tratar disso no momento.

Por outro lado, convencionou-se que existem mentiras aceitáveis e até necessárias, que vão desde dizer a um vendedor inoportuno que o dono da casa não está, ou desculpas esfarrapadas para não aceitar determinados convites, e ainda uso de eufemismos que escondem coisas bem cabeludas, até a situações mais melindrosas como dizer a um moribundo aquilo que ele gostaria de ouvir.

Divididas as opiniões sobre a mentira permissível, não quero entrar no âmbito sociológico ou psicológico e menos ainda na questão moralista. Mas eu não concordo que existam pequenas mentiras aceitáveis. Não concordo com essa classificação para a mentira. E não concordo, simplesmente porque, para mim, integridade não está ligada apenas a uma coisa exterior chamada reputação nessa nossa sociedade hipócrita. Integridade para mim é um atributo do caráter e está ligada a uma realidade interior marcada por traços bem distintos que vão refletir no meu comportamento.

Portanto, mentira é mentira. Como disse certa vez um pastor em pregação, nem poeticamente devemos abrir espaço para ela. Afinal, mentiras sinceras só existem nos corações apaixonados e iludidos que vivem numa dimensão onde valores e emoções estão distorcidos pela quebra da auto-estima, como sugere a canção do Cazuza.

Quando eu era criança, ouvia muitas máximas acerca da mentira e uma delas sempre me marcou porque eu considero a que mais se aplica realmente ao nosso caráter, pela sua ambigüidade. “Quem mente, rouba”. E não necessariamente um roubo material, mas um roubo talvez mais drástico e cruel que é o da confiança muitas vezes de pessoas que amamos, que nos cercam, que fazem parte do nosso rol de amizade, enfim pessoas com as quais compartilhamos os mesmo valores.

Quando se rouba algo material existe uma lei que pune e, por meio dessa punição supõe-se uma correção e um retorno às atividades sociais; porém roubar a confiança é mais trágico e complexo porque envolve relacionamento, portanto a base de nossas emoções, dos nossos sentimentos, o centro daquilo em que acreditamos.

Todo mundo tem um sonho, uma viagem, uma utopia, não é? Pois bem, meu sonho é que outro ditado que tanto ouvi na minha infância se torne realidade: mentira tem perna curta. Já que não dá para erradicá-la, que ao menos ela realmente seja bem curtinha... cotó, mesmo! Talvez assim suas consequências se limitem a meros risos de primeiro de abril...

Cazuza, que eu tanto cantei e que amo de paixão, que me desculpe, mas... nenhuma mentira "sincera" me interessa!


“Cria em mim, ó Deus, um coração puro

e renova dentro de mim um espírito inabalável”

(Sl 51.10)

domingo, 28 de março de 2010

A verdadeira adoração




O dia mal amanhecia quando eu acordei de repente com uma frase bem nítida na mente:

- Fazer o bem sem olhar a quem.

Sabe quando você acorda como se alguém falasse com você em alto e bom som?!

Então...

Foi exatamente assim que se iniciou esse meu domingo! Com uma frase nada nova e que eu cresci ouvindo em casa, na escola, enfim, na comunidade católica em que nasci e vivi durante muitos anos da minha vida. E, ainda ali na cama, refletindo e colocando no Altar do Senhor todas as minhas imperfeições, me passou um filme de tudo que se refere a essa frase tão singular e tão determinante, fazendo-me perceber claramente o quanto essa máxima pode ser simplesmente libertária e extremamente saudável para se desenvolver uma atitude ética na vida, posto que assim ninguém fica de rabo preso, por ser algo incondicional, sem amarras, onde você simplesmente se propõe a ajudar e não tem que cobrar nada porque sabe que ajudou porque precisou ajudar!

Mas o homem é vaidoso, gosta de tirar partido, de manipular, de ser o cara, de se dar bem... Portador histórico da Síndrome do Pódio, sofre na ânsia pelo reconhecimento, aplausos, títulos e agradecimentos. E quando este é religioso, então é que a coisa pega pra valer! Esse religioso que vivendo dentro da igreja em suas limitações convenientes de ajuda, jamais vai entender acerca do viajante, do homem caído, do salteador, do sacerdote e do levita que caminhavam pela mesma estrada, MAS cada um de um jeito. Esse mesmo religioso se recusa a entender que a ATITUDE de cada um daqueles caminhantes faz uma denúncia GRITANTE acerca do tipo de “adoração” de cada um. Pois, analogamente, existem as mais diversas mentalidades que fingem cultuar o mesmo deus, até dentro de uma mesma igreja, um mesmo “pensar” doutrinário e um mesmo agrupamento religioso.

Impressiona-me ver essa mentalidade religiosa acomodada, preguiçosa, egoísta, esse estranho perfil religioso do adorador de templo com o coração derramado (?) enquanto aqui fora mostra-se empedrado, paralisado pelo egoísmo, pelo orgulho e pela acomodação. Religiosos que ali vão com o coração cheio de mágoa, inveja, ressentimento, mentira, falsidade, enganando ao outro e a si próprio de que ali, naquele lugar, naquele espaço físico, tem algo mágico e misterioso que vai lhe tocar como um pirlimpimpim em divino benefício particular e trazê-lo de volta ao cotidiano igualmente falso, para no “culto” seguinte acontecer o mesmo ritual e assim por diante. Vivenciando lá dentro um culto que o AFASTA cada vez mais do culto verdadeiro aqui fora, sempre com o cuidado de passar beeeem “de largo” de certos necessitados para não correr o risco de perder a pureza cerimonial que adquiriu lá dentro daquele espaço físico, no qual cânticos celestiais invadem a atmosfera do templo onde Deus falou ao coração coisas lindas que Ele tinha pra contar somente lá dentro.

Cada vez mais me entristece essa capacidade que o ser humano tem de se amoldar a cartilhas pré-estabelecidas, por saber que - por outro lado - esse mesmo ser humano tem a capacidade de ser gente na sua mais perfeita concepção, de ser capaz de pensar, raciocinar, ler, estudar, pesquisar, ouvir, discernir... No entanto, esse falso herói da resistência nata é levado “inocentemente” a se acomodar e/ou PREFERIR se grudar em uma crença que a doutrina pronta impõe de maneira gradativa e assustadoramente sutil e manipuladora por meio de um sinistro pacote doutrinário funcionando como uma muleta velha que insiste em “amparar” de forma tosca quem acredita no visível e no palpável. Ironicamente essa prática religiosa AFASTA o homem dos propósitos de Deus, embotando-lhe os sentidos e levando-o a cultos estranhos que em ABSOLUTAMENTE NADA têm a ver com a verdadeira adoração pois esse embaçamento o impede de enxergar a mais simples e desconcertante das descobertas: que a verdadeira adoração não tem lugar enquanto espaço físico e cujo ingrediente é simplesmente o AMOR; e que TUDO o mais é ritualismo que nada diz do CULTO VERDADEIRO.


E assim se segue na estradinha estreita espiritualmente, se repetindo na medida em que se engessa e se engessando na medida em que se repete, sem nunca permitir cair a ficha mais clara de toda essa viagem: que Deus não tem nenhum altar de culto fora do AMOR ao próximo; que não se tem que olhar, analisar, rotular, aquele que precisa de ajuda. É só ajudar. E ponto! Para isso há de se desprender dos ensinamentos igrejistas e usar de misericórdia para com o próximo, amando-o como a si mesmo. Sem questionamentos, sem racionalizações, sem explicações, sem cobranças, sem negociações, entendendo que o culto é a própria vida e que assim se herda a vida eterna! Conforme disse JESUS! (Lucas 10.25)


RF.


E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos,

aplicando-lhes óleo e vinho;

e, colocando-o sobre o seu próprio animal,

levou-o para uma hospedaria e tratou dele.

(Lucas 10.34)










quinta-feira, 25 de março de 2010

Passeio socrático




Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.

O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.

A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.

Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós." O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.

Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela...

Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.

Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos, etc.


Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira.

Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da alta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com frequência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo.  

- "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo.

Olham-me intrigados.

Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas.

E, assediado por vendedores como vocês, respondia:

- "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

Frei Beto.

(Negritos meus-RF)



"Melhor é um prato de hortaliças onde há amor..."
(Provérbios 15.17a)