"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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sábado, 31 de julho de 2010

Conselho só adianta quando...



Tendo como ofício andar pelo mundo combatendo o mal, Dom Quixote o encontra aonde quer que vá. Embora Sancho Pança se valha de argumentos fundados na realidade para convencer o amo de que o mal é imaginário, o fiel escudeiro nada consegue.

Exemplo disso é o célebre episódio em que, pelo fato de só imaginar batalhas e desafios, o Quixote toma um rebanho de ovelhas por um “copiosíssimo esquadrão”.

Quando Sancho lhe diz que se trata de uma ilusão, ele clama:

- Pois então não ouves o relinchar dos cavalos, o tocar dos clarins, o rufar dos tambores?

E avança de lança em riste sem dar atenção ao conselho do escudeiro:

- Volte, vosmecê... Juro por Deus que são carneiros e ovelhas o que vai atacar.

Nem morto, ou quase morto pelas pedras que os pastores atiram, o Quixote desiste de acreditar que lutou contra um esquadrão inimigo. Alega que, por invejar a sua glória, o Maligno o persegue, faz desaparecer as coisas, transformando até um exército num rebanho.

O Quixote é louco, claro, porque não leva em conta a realidade, mas não é por acaso que nós nos reconhecemos nele. Assim é, porque privilegiamos nosso imaginário. Também nós ouvimos sem escutar e enxergamos sem ver para impedir que o nosso desejo seja contrariado.

Diz o provérbio que, se conselho adiantasse, a gente venderia em vez de dar.

Conselho só adianta quando não contraria O DESEJO de quem é aconselhado.

Segundo Freud, não é possível acabar com uma fantasia mostrando que a realidade é contrária a ela. A fantasia resiste aos argumentos e só se transforma quando o próprio sujeito descobre a sua origem.

Daí a razão pela qual a cura analítica se apóia na rememoração. O analista que se vale da realidade para convencer o analisando a abrir mão do que imagina é quixotesco no mau sentido.

Só é possível agir sobre o desejo fazendo emergir o desejo do outro.

Isso é o que faz o analista se o analisando – ao contrário do Quixote - for capaz de escutar. E, mais ainda, se ele for capaz de se escutar.

Como isso raramente acontece no começo de uma análise, ambos têm de saber esperar.

Adaptado RF

(Texto original: "O risco do conselho" da psicanalista e escritora Betty Millan em Veja de 26 de maio de 2010, pag 159)

19 comentários:

João Carlos disse...

Antes de ler o texto obrigado pelo jabá! Aff, fiquei vermelho de vergonha!!!!

Ah, justiça seja feita: Esta visão do perdão = uma grande perda foi baseada na mensagem do Pr. Ronald da CBRio, duas semanas atrás!

Beijos

(e agora vou ler o texto.. rsrs)

JC

João Carlos disse...

Bispinha querida do meu coração...

Pior é que é verdade. A gente dá umas viajadas de vez em quando, imersos em nosso mundinho paralelo, vendo coisa que não existe e deixando de ver fatos concretos que realmente: Todos nós temos muito de Dom Quixote... (eu pelo menos tenho).

Tô a té pensando em marcar umas consultas com a Dra. Adriana (apesar que ela também é meio sequelada...)

Beijos!

JC

Eduardo Medeiros disse...

Oi Regina, tudo bem?

bem interessante o texto. Mas não é verdade que todos nós temos algo do Quixote?

Gostamos das nossas ilusões, principalmente as religiosas e amorosas e não conseguimos ver a realidade.

Agora, imaginação é outra coisa. Esta sim é necessária, urgente, bem-vinda. Sem imaginação o mundo se torna apenas cruelmente material e os sonhos morrem.

beijos e boa semana.

Regina Farias disse...

Oi, Eduardo, tudo bem, e contigo? :)

Então...

O sonho não acabou, diria o padeiro a Lennon (É a nova!)

E tudo começa no incrível âmbito da imaginação. Bendita imaginação!

Quando se torna mania de perseguição aí é que é doença e tem que ser tratada.Urgentemente, para o bem geral da nação.

Aqui em casa em uso uma frase clichê: gente, bora manter o limite da paranóia bem definido pra num surtar.

Principalmente quando envolve outras pessoas, quando você diz que viu porque viu, jura que foi assim porque alguém lhe contou e tal, mas que na verdade vc está interpretando conforme seus próprios conceitos e não quer enxergar além da mera aparência... Entende?

Esse texto aguçou a minha imaginação rss

bjussss!

R.



Pastor Jota

Veja que essas viajadas fazem parte, né?

E marque a consulta com a doutora, sim. Não se preocupe pois nessa área dela isso é super nooormal rsss (vamo apanhar :P)

A minha parte quixotesca é que, por ser muito sonhadora, muito apaixonada, muito visceral rss e aí eu supervalorizo certas emoções e depois que passou é que vejo que foi despendida energia desnecessária rss

Mas já tô beeem melhor rsss Afinal os sanchopanças da vida findam por nos abrir os olhos...

bjusss

R.

Regina Farias disse...

Jota,

Já que vc tá insistindo em me classificar eu vou aproveitar e cobrar as entradas no reino do meu blog como bispa. Oxe, né não? Sei de gente aqui na minha cidade que já deu até um senhor apê prum reino ali rsss

Tô até pensando em mudar de "bora ler" para "fala que eu te ovo".

Sim, pq haja ovo, ainda que imaginário rss, com tanto apetrecho de dar inveja a qualquer terreiro, tais como copo com água santa, (Santa?!)rosa ungida, (Ungida?!) escudo para proteger (Proteger?!)a porta de entrada,lencinho perfumado(Perfumado?!) Aff cansei só de escrever, desistoooooo!

he he

abs,

R.

(Momento abobrinha que eu não sou de ferro)

João Carlos disse...

Um dia eu peguei uma réplica de uma arca da aliança (tudo com minúsculo mesmo), aliás, peguei duas. Tinha que colocar os pedidos dentro junto com uma oferta e devolver na igreja um tempo depois...

Outra vez me deram um pedacinho de pau para eu tocar tudo o que eu queria pra mim, tipo o cajado de Moisés...

De outra feita, uma vez dei sete voltas ao redor de um prédio onde queria um apartamento...

Mulé, já fiz cada presepada antes de me libertar desta macumba gospel que dá até vergonha!

João Carlos disse...

Quanto ao bispinha, adoro te chamar assim.

Vendo pelo lado das oportunidades de negócio, de tanto falar vão começar a acreditar. Depois a gente põe sua conta no blog e diz que se não mandarem ofertas você vai ter que sair do ar, tá ligado????

Serei seu empresário, diretor de marketing, sei lá...

disse...

Quando se torna mania de perseguição é que a coisa ficou feia mesmo, mas todos nós temos um pouco de Quixote, eu tenho srsr e as vezes acho bom, mas sei escutar por isso não chego ao extremo rsrs. Legal o texto. besos!

Regina Farias disse...

Rô, linda!

Que bom, então, pois saber escutar já é uma grande virtude. E um grande passo para uma vida saudável.

Bora exercitar cada vez mais rsss

bj

R.

Regina Farias disse...

Jota

Você heim?!

Me faz rir com esse seu lado de empreendedor eclesiástico he he

E... sorry, mas pedacinho de pau foi o ó!

Porém o mais libertador disso tudo é a naturalidade com que vc coloca.

Por isso tiro o chapéu pra vc!

A gente brinca, brinca e tal... mas é por essas e outras que surge algo chamado respeito.

Abs,

R.

Ricardo Mamedes disse...

Regina,

Todos nós temos a nossa porção de loucura - logo, de D. Quixote - até mesmo quando cremos em um Evangelho "maluco" como esse deixado por Cristo.

Como sempre, esse seu texto é uma beleza! Grande analogia.

Agora, eu ri demais dessas histórias do João Carlos. ô João, é verdade que você já fez tudo isso mesmo? Até rodar o apartamento feito um lunático (rindo à beça)? Rapaz, você era muito crédulo...!

Abraços aos meus amigos de sempre!

Ricardo.

Regina Farias disse...

Ricardo,

O texto não é meu mas é como se fosse :) Não pela questão do teor intelectual mas pelo existencial, pois tenho aprendido a ouvir mais do que falar, pasme rsss

Quanto ao João, o bom de conviver com ele é justamente essa parte bem humorada que nos ensina tanta coisa.

Outros, mais sérios porém essencialmente poéticos - posto que solenes mas não sisudos -imprimem leveza em suas mensagens não menos recheadas de lições.

Enfim...

Que bom que somos tão diferentes e tão importante uns aos outros nessa construção maluca e constante que eu chamo de existência na VIDA.

E vivam os Sancho Panças!

Abs,

R.

João Carlos disse...

Seu Ricardo e dona bispa...

Até eu dou risada do que eu já fiz. É uma virtude mas também é um defeito de fabricação, a de ir fundo em tudo o que faço.

Com meu cajado de Moisés, entrei em uma loja de eletrodomésticos e fiquei enconstando em tudo o que queria comprar (na verdade cria que nem comprado seria... afff)

A do apê foi cômica cara! E eu não estava sozinho! Eu e minha ex, parecíamos dois carrinhos de autorama dando volta na pista!

Teve outras presepadas, mas acho que vou postar algo sobre, só rpa expor o ridículo que já me iludiu quando era novo na fé...

Fui!!!!!!!!!

Regina Farias disse...

Pastor,

Aguardo a postagem com ansiedade e sem falta de ar rss

abs

R.

João Carlos disse...

vai lá, já escrevi... (humpf!)

Ricardo Mamedes disse...

João,

Eu, como a Regina (bispa -rsrsrs), também aguardo ansiosamente pela postagem retratando todas as "estripulias" gospel-macumbáticas de sua autoria (rsrrs).

Grande abraço meu camarada!

Ricardo.

Regina Farias disse...

Ricardo,

O JC nessa onda de me chamar de bispa já tá me pedindo a "bença",

Conferir aqui:

http://reginafarias.blogspot.com/2009/11/objetos.html

Daqui a pouco vai se ajoelhar e tal...

Depois num ache ruim quando eu mandar ele doar o apê dele.

He he he

Abs,

R.

(Momento abobrinha do dia)

p.s. : inclusive nesse mesmo texto que indico eu tenho a honra de ter seu primeiro comentário, valeu!

Tiago Scala disse...

Regina, excelente texto! A triste realidade de descobrir que tudo aquilo que acreditamos ser verdade é de fato ilusão ingênua de nossa parte, nos cria um buraco de frustração tão gigante, que nem dá vontade de sair por aí testando nossas crendices. É verdade o que dizem: "Ignorância é uma bênção" - o velho Salomão que o diga:

"Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor." - Eclesiastes 1:18

Regina Farias disse...

Oi, Tiago!

Que prazer ter vc aqui!

E entrando um pouco nesse campo do saber, o autor de Eclesiastes bem sabia o quanto PESA esse lance de saber de tudo, de ler tudo, de pesquisar tudo, de ser "o cara".

Eu acho que é bom e saudável ler, saber, pesquisar, pra se ligar no terreno em que se está pisando, mas é importante ficar atento pra não se deixar levar pela compulsão. Isso sim, de nada serve e, pior, além de não ter fim, não saciar nunca, ainda fica a sensação de que tá sempre faltando alguma coisa.

E nós bem sabemos o que é esse "alguma coisa" que tentamos preecher com as nossas tolas racionalizações...

abs,

R.