"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

Translate

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Cheiros da memória





O pintor José Cláudio ligou sugerindo que eu escrevesse uma sobre os cheiros do Recife, “dando sequência”. Pautou e sugeriu logo dois cheiros. “O de biscoito Pilar, no Cais do Apolo, e o das macaibeiras em flor na Av. Agamenon Magalhães”. (Segundo ele, para o pintor Roberto Ploeg, que é holandês, o cheiro do Recife nessa época do ano é de flor de macaíba, muito mais intenso do que qualquer outro, bom ou mau).

Moro a trinta metros da Agamenon há mais de vinte anos. Sempre vi as macaibeiras lá. Só não sabia que eram macaibeiras. Agora sei. Mas foi preciso que Ploeg viesse da Holanda para que eu, via Zé Cláudio, ficasse sabendo. Sentisse o cheiro da flor e, pela primeira vez, comesse macaíba.

Duvido que alguém da minha geração (e de gerações pra trás) não se lembre do cheiro de chocolate da Renda & Priori na Rua da Aurora (foto); do cheiro do Café São Paulo na Rua Imperial e do Café Continental na Torre; cheiro de açúcar dos armazéns do IAA no Cais José Estelita; de farinha de trigo no Cais do Porto; de vacaria e de mato na Várzea (aliás, o cheiro já começava desde o Cordeiro – ou Iputinga?); dependendo da safra, os cheiros dos quintais das casas eram de cajá, manga, caju, banana, graviola, sapoti, goiaba, pitanga, pinha, carambola... Poucos moravam em apartamento. E toda casa, rica, remediada ou pobre, tinha quintal, nem que fosse um quintalzinho.

Cheiro de mangue, melhor dizendo, cheiro de maré, como se dizia antigamente, em toda a extensão do que é hoje a Agamenon Magalhães, até Olinda. Cheiro de maré, na minha memória, era uma mistura de cheiros: vegetação de mangue, maresia, lama e caranguejo. (Não vá, por favor, confundir com o mau cheiro do Canal Derby-Tacaruna; nada a ver!).

As ruas também tinham cheiros próprios, cada uma com o seu. A Rua das Creoulas (e não crioulas) tinha cheiro de jambo do Pará e ficava com um “tapete” vermelho na temporada. A Visconde de Suassuna, cheiro de oiti. A da Saudade, do lado do cemitério, de sapoti. A Nicarágua, de vagem de acácia. A Praça do Derby, de jasmim vapor. A do Entroncamento, de manga. Na Rua das Florentinas (hoje trecho da Dantas Barreto), cheiro dos armazéns de estiva, bacalhau e charque. Na Rua da Palma, dependendo do trecho, cheiro de tinta, borracha ou material elétrico.

Boa Viagem era só pra veraneio. Quase ninguém morava lá. Que maravilha era chegar no Pina e já sentir aquele cheiro de mar! Cheiro salgado, molhado. Como eu sabia que a África ficava do outro lado, achava que era o vento que trazia aquele cheiro. Cheiro da África.

E o cheiro de Deus? Seguinte. Ajudei a fazer hóstia na sacristia da igreja do Colégio Nóbrega. E pensava (pensava não, tinha certeza) que aquele cheiro de farinha de trigo na chapa de metal quente era o cheiro de Deus. “Não!”, clamou o padre. “Ainda não estão consagradas.” “Graças a Deus!”, exclamei aliviado. Pois aquele cheiro me dava náuseas. E pensar que Deus me fazia mal seria, por certo, pecado grave, mortal.

Cada casa tinha os seus cheiros. A de um amigo de infância, mesmo, tinha cheiro de Espiral Sentinela (pra espantar muriçoca) e de Vick Vaporub. A de outro, tinha cheiro de xixi (como eram muitos meninos na casa, acho que não dava tempo de lavar e secar tantos colchões e lençóis).

Na minha casa, os cheiros dependiam do dia e da hora, da panela que tava no fogo e do sabonete que tava na pia (Phebo, só quando tinha visita). Cheiro de roupa lavada com sabão, quarada com anil, engomada e passada com ferro a carvão. Às sextas-feiras, os cheiros da faxina: Kaol (pra deixar pratas e metais tinindo), cera Parquetina (pro assoalho ficar quiném espelho), sabão em barra derretido (pros pisos de cerâmica e ladrilho), pasta rosa (pra vasos, banheiros e balcões), óleo de peroba (pra móveis e portas), Varsol (pras poltronas) e álcool (pros vidros). Nos guarda-roupas, o cheirinho da própria madeira, de naftalina e dos sachês (de diferentes aromas, mas sempre em saquinhos de linho e bordados).

As meninas cheiravam a sabonete e água de colônia. As mulheres, à noite, cheiravam a perfume (Chanel Nº 5 e Fleur de Rocaille). Os bebês, a lavanda Johnson.

Certa vez, eu já bem grandinho, dei umas borrifadas de lavanda Johnson na cara. Peguei o elevador. Alguns andares abaixo, entrou uma senhora: “Um bebê desceu há pouco no elevador. O senhor tá sentindo o cheiro?”

“Tô!”, respondi. E dei o fora dali logo, antes que ela descobrisse quem era o bebê.




4 comentários:

Sonhos De Deus disse...

Bom dia flor do dia...muito lindo o post amei

"O minuto que você está
vivendo agora
é o minuto mais importante
de sua vida,
onde quer que você esteja.
Preste atenção ao que está fazendo.
O ontem já lhe fugiu das mãos.
O amanhã ainda não chegou.
Viva o momento presente,
porque dele depende todo
o seu futuro.
Procure aproveitar ao máximo
o momento que está vivendo,
tirando todas as vantagens que puder,
para seu aperfeiçoamento".Um final de semana com toda sorte de benção bjks no teu coração!

Daiane disse...

Minha flor estou aqui para lhe agradecer pela visita feita ao meu blog,Deus em Mim...
fiquei feliz quando vi sua fotinha la e resolvi vir aqui ver o seu cantinho também,e como achei ele uma gracinha eu ja estou lhe seguindo e sempre que der estarei aqui lendo e comentando seus posts ok.Tenha um otimo dia fique na paz do Senhor!bj

Regina Farias disse...

Valquíria,

Que bom vc por aqui:)

E valeu pela bela mensagem!

Bom fim de semana pra ti também.

Meu carinho,

Rê.

Regina Farias disse...

Daiane,

Valeu pelo carinho.

Volte sempre, a casa é sua :)

Beijos,

Rê.