"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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domingo, 13 de dezembro de 2009

Antes que eles cresçam

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.



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Resolvi transcrever o texto do Affonso Romano por causa do anterior a esse aqui postado, "Eu sei, mas não devia", de autoria de sua mulher. 

Foi então que eu me lembrei de ter lido o mesmo numa revista da CASSI na época em que eu havia ido a Fortaleza participar  do nascimento da xará dela, minha netinha Marina.

E lá se vão cinco anos do seu nascimento! 

Na ocasião, o texto em particular me prendeu a atenção e me tocou de uma maneira como se fosse um filme passando na minha frente, porque enquanto o lia, voltei ao tempo que culminou naquele quadro em que eu me via ali testemunhando o fato do meu filho tornar-se pai tão jovem! O tempo em que eu havia me apartado dele e do outro mais novo quando os mesmos tinham, respectivamente, 16 e 17 anos de idade, em um contexto familiar extremamente delicado com o lar desmoronado e ainda me violentando naquilo tudo que eu era e me fizera  com eles ainda no ventre, uma mãe guerreira, uma leoa que não se aparta do filho venha o que vier.

E hoje já se foram dez anos desde quando eles foram passar uma temporada com o pai que nem mais lá está, retornando e fixando residência aqui mesmo em Recife.

É uma longa história que está inclusive registrada nos meus arquivos pessoais para publicar um dia. A idéia inicial era de passarem uns meses, para que eu - amparada pelo Léo, de 19 - acompanhasse intensa e intensivamente o meu filho mais velho, na época com 20 anos, de uma recuperação a um assalto onde ele foi atingido por três tiros, sendo um nas costas (o projétil fez um caminho atingindo apenas a musculatura indo alojar-se na altura da omoplata) e os outros dois, um em cada braço. No esquerdo, com a perda de 20 centímetros de substância óssea foi colocada uma placa toda parafusada, com recuperação total depois de mais de um ano. A bronca foi logo a do braço direito pois o projétil alojou-se na parte superior do radio e retirá-lo de lá iria causar novos destroços. Aliás, isso era o de menos,  a questão era tratar dos destroços feitos no trajeto.

Enfim, foi um longo tratamento no qual ele quase veio a perder o braço. Depois de muito tempo no hospital, entre cirurgias, enxertos e plásticas e depois ainda de longo tempo com home care (com enfermeira 24 hs incluindo visitas de especialistas tais como traumatologista, neurologista e fisioterapeuta) e mais tempo depois marchando para os consultórios.

Mas isso é só um resumo do resumo pois a ópera é bem mais longa.

O certo é que eu fiquei alguns meses sem ver meus filhotes mais novos e quando chego em Fortaleza para ficar com eles e por lá passear no final do ano (Eles tinham ido no meio do ano e o incidente foi no dia 20 de março) qual não foi meu espanto ao encontrá-los crescidos, cheios de atitude, levando-me a lugares divertidos, points, os melhores restaurantes, escolhendo pratos e detalhes como adultos, pagando conta, cheios de gestos protetores e cuidados especiais! O Ricardo- que aniversaria em 19/12, a essa altura já com seus 18 anos e dirigindo legalmente rss. Aquilo tudo me encantava muito e agindo da forma mais natural possível, mas tão emocionada e tão supresa embora sem jamais me deixar nostálgica em nenhum momento, pelo contrário, me inundando de uma alegria ímpar por aquele presente maravilhoso!

Eu dizia pra mim mesma, caramba, meus filhos já não são mais crianças! Que momento de transição foi esse que me passou assim batido, que eu não percebi? É muito rápido! como diz o Affonso. Eles cresceram sem me pedir licença. Tipo, deixa, eu posso? Não! Simplesmente eles viraram homens antes do tempo, saíram do forno antes da hora, as circunstâncias os forçaram a isso!

E o mais incrível de tudo, é que foi em ambiente de desconstrução total de todos os sonhos que eles haviam sonhado quando seus pés estavam firmes em um porto seguro chamado lar...

Sabe... Daqueles sonhos que se sonha em segurança no seio da família unida e reunida.

E ali, naquelas mentes (quase) formadas/forjadas, a Graça de Deus se fez presente e eu nem havia me dado conta. Então voltei pra casa saudosa mas exultante por ver meus filhos virando homens de verdade, apesar de todas as circunstâncias; seu caráter sendo lapidado EM MEIO ao furacão existencial mais cruel que se possa imaginar, posto que surgiu o inesperado bem no centro de coraçõezinhos despreparados.

Então, de alguns meses que foram passar estenderam-se por alguns anos e lá o Ricardo criou raízes casando-se e tendo dois filhos.
E eu, enquanto esperava o nascimento da minha primeira neta,  lia justo esse texto acima.
E era exatamente assim que eu me sentia.
A diferença é que me parece que o autor teve filhas; já eu, filhos. Até em relação às plásticas ele acertou. Eu já havia feito duas rss

Nossa cumplicidade era tanta que parecíamos mais cinco órfãos do destino que experimentavam as mesmas amarguras e as mesmas emoções; sim, pois ironicamente, apesar de um nítido espaço cronológico eu também estava perdendo a minha inocência e crescendo, amadurecendo, junto com eles.

Quantas vezes fui buscá-los às quatro da manhã nos shows, nas festas, nas discotecas. E eles eram adolescentes mas não se envergonhavam, pelo contrário, eles curtiam aquela parceria de quase irmã um pouco mais velha. Claro que havia os momentos de discussão, de choro, de acusações, mas por outro lado eles se orgulhavam da mãe de atitude e que dizia tudo na lata doesse em quem doesse.

Cansei de ouvir os amigos deles dizerem ah se minha mãe fosse assim. Sim, porque tem gente que acha que ter autoridade é ser autoritária sem saber que é muito mais difícil educar sendo permissiva. Rótulo que me deram durante essa fase de transição, mas que nunca me tirou do foco o cuidar do caráter deles colocando-me como espelho, ainda que destroçado.

É aí que entra a atuação desse Deus maravilhoso!

Pois em meio ao turbilhão Ele pega cada caquinho desse espelho esteticamente rejeitado por alguns e mostra pra nossos filhos a nossa essência... e a projeta neles (e nos netos) em nova roupagem e bem mais aperfeiçoada!




da esq. p/ dir.: Jr, Léo, Rico e Beto.





E como diria o autor acima:

"O neto é a hora do carinho ocioso e estocado,
não exercido nos próprios filhos
e que não pode morrer conosco.
Por isso, os avós são tão desmesurados
e distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto".





Ricardinho e Marina



"O coração do homem traça o seu caminho,
mas o SENHOR lhe dirige os passos."
(Pv 16.9)







5 comentários:

Regina Farias disse...

Incrível como "todas as coisas cooperam..." uma coisa leva a outra...
Enfim!
Ontem vendo uma pregação em video do Ricardo Gondim no blog de um amigo (que eu recomendo!) a certa altura o pregador lê um texto de Marina Collassanti que eu tanto admiro. De lá migrei para um blog com textos do marido dela, Affonso Romano cujo estilo eu também amo de paixão,quando dei de cara com um texto muito conhecido por mim... daí não deu outra!
Fiz esse texto em cima do texto dele. Aliás, pra ser sincera peguei fragmentos de algo já feito e adaptei resumidamente.(Se é que eu sei fazer isso rsss)

Ricardo Mamedes disse...

Regina, Parabéns!

Um depoimento maravilhoso, cheio de belas e trágicas nuances.

Rendo-lhe homenagens pela força e pela capacidade em se resgatar e ainda manter os filhos sob os teus cuidados. Trágica história do filho colhido pelas balas. Belo final.

Deus guarda sim os Seus eleitos, os Seus agraciados, sob as Suas "asas protetoras". Porque se não fosse por isso, todos nós sucumbiríamos e ficaríamos eternamente separados dEle.

Uma família muito bonita! Peço ao Excelso Criador que lhes proteja, guardando-os sempre.

Escrevi um pequeno post sobre o seu artigo (suicídio), expondo os nossos comentários. Espero que você não se ofenda. Faça-me uma visita.

NEle

Ricardo

Regina Farias disse...

Ricardo

Valeu pelas palavras carinhosas.

E já fui lá conferir o texto :)

E também nem se preocupe porque eu não me ofendo facilmente rss embora paradoxalmente seja uma manteiga derretida.

Curto muito debates inteligentes e principalmente "em cima" da Palavra.

NELE também :)

R.

Pastoragente disse...

Querida Regina, quantas experiências marcantes vc passou hein?
É muito bom conhecer alguém que é sobrevivente e ainda carrega um sorriso tão belo.
Beijo.

Regina Farias disse...

Oi, amiga

Então...

Você sabe que carregar esse sorriso nada tem a ver com cuidados odontológicos, né? Risos

Eu sei que voce sabe, mas eu sempre gosto de dizer que esse sorriso vem daquela alegria que toma conta de todo meu ser, independente de circunstâncias posto que instalada por um PAI misericordioso que nos consola, nos capacita e nos molda do Seu jeito e a Seu tempo.

Obrigada pela sua visita e pelas palavras carinhosas.

Beijo grande!

R.