"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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sábado, 19 de junho de 2010

Triste prisão





(Abaixo uma das cartas escritas a alguém muito querida que vive há 16 anos sob jugo opressor do cônjuge).


Minha querida:

Muito me entristeço cada vez que a encontro ou sei de notícias suas, de suas explicações e justificativas confundindo “ensinamentos” e pregações bíblicas para se iludir e se dar um falso conforto. E peço-lhe que me perdoe pela intromissão, mas é que eu não me conformo e sinto-me impulsionada a alertar-lhe acerca desse tipo de cilada que só serve para confundir e escravizar cada vez mais.

Quero começar citando o autor de Provérbios ao exaltar a mulher de fibra. Ele inicia fazendo a pergunta "quem a achará?",  apontando-nos a mulher que agrada a Deus. A mulher que não deixa de ter seu valor como pessoa ao assumir o papel de ajudadora mas que ao mesmo tempo é mulher de atitude em todos os sentidos, principalmente na sua individualidade dentro da relação conjugal:

Ela tem liberdade de ação (v16), tem credibilidade junto ao marido (v11) e tem capacidade de assumir responsabilidade. (v21)

“Examina uma propriedade e adquire-a; planta vinhas com as rendas do seu trabalho” não são predicados exclusivos da mulher dos dias atuais. Esse modelo está lá em Provérbios 31.16.

Veja que essas pinceladas são na verdade apenas para ilustrar as qualidades de uma mulher como pessoa, como indivíduo, como ser humano, pois se fosse para citar outras virtudes, nos estenderíamos muito já que Provérbios 31 trata disso largamente, abrangendo desde a generosidade, os cuidados com a própria beleza e aparência assim como seu próprio crescimento intelectual e espiritual.

Também desconheço qualquer passagem nas Escrituras onde Deus consente que um dos cônjuges fique à mercê do outro, em servidão; nelas não encontro nenhuma referência que aponte para um Deus que aprove um marido opressor e manipulador.

Minha irmã,  não caia no equívoco de “se pegar” nas cartas de Paulo, pois o que ele enfatiza na carta que você cita é que a vida de um dos cônjuges, que  é cristão e age  como cristão, pode vir a ser canal de bênçãos de Deus na vida do outro cônjuge e outros membros da família. (1Co 7:14.16)

Em sua carta aos coríntios ele se baseia no AMOR como um caminho “sobremodo excelente”, ensinando-nos que o amor não se conduz inconvenientemente, não procura os seus próprios interesses e não se alegra com a injustiça. Até fala da real importância da fé e da esperança, mas coloca O AMOR como o principal deles.

Quando ele diz aos efésios para a mulher ser submissa ao marido, deixa claro que o marido AME a mulher, comparando à relação de Cristo com a Igreja (Ef 5.23), numa alusão ao que Deus requer numa relação conjugal, pois ELE não quer submissão em detrimento da responsabilidade da esposa de andar em santidade e retidão diante dEle. Afinal, o marido não é Salvador e sim, protetor. Dessa forma, analogamente, na submissão VOLUNTÁRIA, a esposa serve a seu marido, com liberdade e dignidade, ASSIM COMO, a Igreja serve a Cristo.

Nessa condição o laço dominador que a prende não é de amor, até porque amor não prende. Amor liberta. Amor vem de Deus. E isso que chamam de relação, casamento, ou seja lá o que for, no qual existe dominado e dominador não passa de uma triste prisão para ambos. Porque, definitivamente, amor não se constrói em cima de dor, lágrima, humilhação e constrangimento.

Amor não divide, não afasta familiares,“não se ensoberbece nem se alegra com a injustiça”.

No amor não existe imposição, coação, medo, insegurança.  Quem ama não agride física nem moralmente.  Quem ama cuida.

O amor não é orgulhoso nem provocativo. É permanente, incondicional. Tem consideração pelos outros e constitui a base para se administrar qualquer dom espiritual, resultante da poderosa presença do Espírito Santo.

Não tem como explicar, esse amor você simplesmente vivencia. E qualquer ansiedade que porventura queira se instalar, é neutralizada pela sua leveza desconcertante que imprime no peito a verdadeira alegria, disseminando por todo o ser. E ele aflora, transborda, repercutindo na vida profissional, na vida social, nos relacionamentos fora da vida doméstica invadindo  outras vidas da forma mais benéfica que se possa imaginar.


Não há como confundir e não ser feliz nesse AMOR.

Portanto, o que  a denuncia como esposa oprimida é justamente a ausência dessa alegria em seu sorriso, em seu olhar, em suas explicações. Por mais que se racionalize, se justifique, se doure a pílula, a própria voz vai estar dissonante por soar sempre artificial.

E o mais deprimente não é a insistência em querer convencer familiares e demais pessoas acerca do convívio supostamente saudável. O mais triste e deprimente é a tentativa de convencer a si mesma. É nessa hora que precisamos reconhecer que precisamos de ajuda. Ajuda de amigos sinceros, de familiares, ajuda de um especialista. E eu sei de um que é infalível. Aliás, O Especialista que é a própria Cura. Mas para essa Cura faz-se necessário abdicar das velhas vestes, é preciso se desnudar, é preciso coragem. É preciso entrega total e irrestrita para salvar-se de relação tão doentia e quem sabe até salvar a própria relação.

Mas é preciso querer...


RF.

6 comentários:

Paulinha disse...

AMIGA REGINA,

DESCULPE 'A MINHA INTROMISSÃO' NA CARTA PARTICULAR...

MAS CONFESSO, QUE MUITO ME EMOCIONOU AS SUAS PALAVRAS...

POIS, HÁ TANTAS CASOS DE 'ESCRAVIDÃO' NO AMOR...QUE SINCERAMENTE, É A COISA MAIS TRISTE DE SE VER...

É TRISTE, VER UMA RELAÇÃO DE DUAS PESSOAS QUE DIZEM SE AMAR..MAS QUE INFELIZMENTE, NÃO CONSEGUEM CONVIVER JUNTOS, NÃO CONSEGUEM TER UM VÍNCULO DE RESPEITO E AFINIDADES SUFICIENTES PARA MANTEREM UMA VIDA CHEIA DE PAZ...

CONFESSO, QUE TENHO MEDO DE UM DIA NÃO SER AQUELA MULHER QUE EDIFICA O LAR...MAS TENHO LUTADO TODOS OS DIAS, PARA ME REFINAR, ME MELHORAR...E UM DIA, PODER FAZER DA MINHA CASA, UMA CASA DE FAMILIA DECENTE E CHEIA DE AMOR E PAZ...

E É NO PENSAMENTO, QUE COMEÇAM
OS PRIMEIROS VESTÍGIOS PARA AS CONVICTAS SOLUÇÕES...

BEIJOS QUERIDA.
PARABÉNS!!

Regina Farias disse...

Paulinha, minha linda!

Não é intromissão, fique sempre bem à vontade. Pra mim é sempre um prazer ler teus comentários.

E eu coloco facetas da minha alma nesse meu diário virtual é para ser escancarada mesmo, ainda que preservando o nome das pessoas envolvidas. (E a menos que as mesmas autorizem a exposição). E a não ser ainda, que seja algo que já tenha se tornado público e eu apenas use para fazer minhas considerações, daí não tem jeito o nome do fulano já vai estar exposto mesmo rss

Enfim...

Quanto a buscar essas virtudes, eu sei que é difícil colocar em poucas palavras todo um mundão de sentimentos e situações particulares, mas eu arrisco a dizer que essa conscientização que você coloca já é um bom passo. Hoje já bem adulta ( Nessa condição é fácil dizer, né? rss) pra mim, não tem muito mistério, não. Pois quando se mantém um mínimo de sanidade em tudo que se faz, estabelecendo o limite da paranóia, estaremos driblando qualquer escravidão que queira se instalar e nos oprimir.

No mais, é muito amor e tolerância sem perder a individualidade. Essa é a idéia central no meu texto.

Beijo e volte sempre!

R.

João Carlos disse...

Missionária R.F.,

Por incrível que pareça, este tipo de situação não é "previlégio" apenas das mulheres. Homens também sofrem com este tipo de opressão.

Conheci um, muito próximo de mim, que achava que era feliz em dar seu melhor para uma pessoa que ele amava incondicionalmente, desde que vez ou outra caísse uma migalhazinha de pão da mesa de sua mulher.

Aceitava tudo, era considerado menos do que ele realmente era e, nesta relação, ele estava totalmente conformado com esta situação.

Alguns afagos esporádicos, uma ou outra palavra menos áspera eram suficientes para continuar "feliz".

Até o dia que esta relação acabou. Ele sofreu muito, recomeçou do zero, pensou na morte como sendo a melhor opção até o dia que descobriu que estava mais vivo do que nunca.

Hoje, ele é casado com uma mulher que olha na mesma direção que ele, sonha os mesmos sonhos, respeita-o como ele a respeita, ama-o como ele a ama.

Este homem sou eu.

Beijo querida!

J.C.

Regina Farias disse...

J.C.

Então, meu amigo...

Já tivemos oportunidade de falar sobre isso, lembra?

Embora o maior índice seja do lado oposto mesmo, creio que devido à nossa cultura machista.

E o que é mais estranho é que mesmo em situação inversa, as questões são idênticas.

Você descreveu em poucas e contundentes palavras o que ocorre nessa relação maluca:

Alguns afagos esporádicos, uma ou outra palavra menos áspera eram suficientes para continuar "feliz".

Caramba, é exatamente assim! E a pessoa que está manipulando sabe exatamente onde está pisando. E vai se inchando, se achando a poderosa, infalível e de tão cheia de si acredita que jamais a outra pessoa tomará uma atitude pra valer de libertação.

E quando envolve agressão física e moral e suas evidentes reincidências, meu irmão, aí é que a coisa pega. Sou indignada com essas coisas porque a agredida assina embaixo em total consentimento. Nessa situação específica ela já teve várias situações de risco, ela e as duas filhas pré-adolescentes. Com as duas filhas, a última vez que saiu de casa ESCOLTADA estava com aparência de 80 anos de idade quando tem a metade, sem exagero. Magra, ombros encolhidos, parecia uma velha, fiquei bege quando a vi!!! Mas já voltou pr´o sujeito Tu acredita nisso? E ainda se diz "crente" e que é Deus que quer assim, é a sina dela e blá blá blá... Meu irmão, eu fico muito injuriada!

Dá outro post, vixi xô respirar rsss

Graças a Deus que vc foi liberto!

Beijos na Cilene dos zoin azu :)

R.

João Carlos disse...

Oi queridona (rere)

Quis expor novamente o tristemunho para que saibam que "existe vida plena do lado de fora", vale a pena recomeçar...

Beijo mulé, take care!

JC

Elídia :) disse...

Voce fala de uma forma tão contundente, e tão carinhosa, que é impossível não convencer a vítima sair dessa prisão. Parabéns..bjs