"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

OBJETOS... malignos?! Como assim?!




Chegando ontem à área de serviço em meio a tarefas domésticas senti forte cheiro de incenso que vinha do andar de baixo e então, dando aquela paradinha básica, deliciando-me ao inspirar calmamente aquele aroma tão agradável, me veio à memória uma fase da minha vida em que eu o comprava com certa freqüência e apenas porque eu gostava daquelas fragrâncias por mim escolhidas exalando pelos espaços da minha casa.

Somente por isso e para isso.

Essa substância resinosa - inclusive com poderes antissépticos - é utilizada desde a antiguidade fazendo parte do ritual mosaico nos sacrifícios para disfarçar os cheiros característicos das ofertas ao Senhor. Da mesma maneira que é usado para “energizar” pessoas e ambientes, como também em diversos rituais conforme as mais variadas crenças.

Não vou me estender sobre o uso do mesmo, querendo apenas aproveitar a “lembrança olfativa” que tive para ressaltar que o incenso EM SI, não carrega nenhum malefício.

Como muitas outras coisas. Aliás, como qualquer objeto.

Veja a simples VELA, por exemplo.

Dias atrás faltou energia elétrica por aqui no início da noite e eu procurei uma vela.
Não encontrando, resolvi relaxar.
Do alto do andar que moro e sentada no sofá decidi ficar com os reflexos de luz que vinham da rua e de uma claridade espetacular que a lua estava proporcionando, daquelas que a gente só percebe quando acontece esse tipo de coisa mesmo ou então quando se mora na roça.

Fiquei ali experimentando aquele acaso de Deus naquela lua cheia...
Bom, mas o que provocou mesmo as tais projeções mnemônicas com toda aquela luminosidade diferente do cotidiano foi a história da vela quando aconteceu algo interessante logo que me casei e fui morar no interior do Rio Grande do Norte, onde lá tudo era muito novo para mim, novos amigos, novos costumes.

Ainda muito jovem e inexperiente, morando longe de casa, fiz amizade com uma “crente”, esposa de um colega de meu marido, recém-formada em Psicologia, com familiares também em Recife, estando lá as duas pelo mesmo motivo: transferência de marido.
Logo nos identificamos e ficamos amigas.
Com todas as nossas diferenças, claro - foi meu primeiro contato de terceiro grau com uma amiga evangélica - porém com a convivência quase obrigatória fomos cultivando uma amizade legal, quando certo dia uma dessas diferenças me soou meio indigesta pra eu engolir assim na boa. Estávamos lá em sua casa e faltou energia (no interior faltava energia demais, afe!). Quando a empregada cogitou comprar umas velinhas básicas ali na vendinha próxima, ela deu um salto dizendo alarmada coisas do tipo “que na minha casa mesmo não, que não entra vela, mas de jeito nenhum”!

Eu fiquei assim meio com cara de parede, sufocando um “hã?!” que escondia minha expressão de incredulidade naquele breu. Como assim?! Nem precisei perguntar-lhe, já que em seguida ela dá uma rápida e nervosa explicação teológica/hermenêutica/exegética/herética acerca de vela. Porque não se acende vela. E luz, minha filha, só mesmo Deus!
Ora, se Ele já é a Luz pra que usar outra?

Confesso que quis rir daquela cena patética ao mesmo tempo em que me intrigava ver uma garota tão bem informada dizendo aquelas asneiras, quando assim que a conheci fiquei admirando-a só porque ao entrar em uma igreja católica para assistir a um evento social - um casamento, não lembro - alguém estranhou sua presença e ela disse com toda naturalidade
– Por que não? Fui convidada, ué!
Porque - convenhamos - principalmente em cidades pequenas, e mais provincianas, sempre tinha (?) alguém inconveniente e preconceituosa fazendo essas perguntas cretinas só para constranger mesmo, criar aquele clima chato. No entanto, ela não saiu do salto.

Por causa disso, achei que ela tinha cabeça aberta como se dizia naqueles anos oitenta - até porque ela era minha amiga e de certa forma me servia como parâmetro em relação a familiares meus que haviam ingressado recentemente em denominação religiosa extremamente rígida, onde o cumprimento rigoroso do não pode isso e não pode aquilo era uma espécie de ingresso para entrar no céu.

E falando em “NÃO PODE”, já que estamos tratando de coisas que metem medo por carregarem supostos malefícios, lembro de uma enorme carranca que decorava minha sala de estar.

Um belo dia chega uma irmã minha, do tipo crente fundamentalista - dessas assustadas que veem macumba em tudo, que veem desgraça em coisas, que atribuem o mal ao que se vê e se pega - disposta a tirar o mal de dentro da minha casa.
Ela sempre me visitava, mas nesse dia parece até que ela foi com um propósito: o de dar um fim ao meu objeto decorativo, mas o pior mesmo foi a explicação dela. Que aquilo estava me atrapalhando a vida, que as coisas ruins que eu vinha experimentando era aquela carranca que trazia pra dentro da minha casa e blá blá blá.
Eu olhava pra ela incrédula e imaginando se meu pai estivesse ali presente o que lhe diria. Ele que abominava qualquer coisa que diz respeito a superstição, crendices, mitos, fábulas e coisas afins.
E ela falava e quase implorava para eu deixar ela mesma carregá-la enquanto ela ia levando sem esperar minha decisão, já que eu fiquei sem palavras diante daquela agonia toda que ela experimentava. Findou ela levando a tal tinhosa pelos braços em direção à área de serviço, indo colocá-la no elevador de serviço, para em seguida me forçar a dar destino imediato à coisa. Foi quando eu ainda surpresa e travada com todo aquele afã, tive a idéia de interfonar para a portaria e dizer que retirasse do elevador aquela peça (in)suspeita, colocando-a no lixo mesmo.

Como eu vinha atravessando um deserto terrível, não conhecia ainda ao Cristo que morreu por mim na Cruz e, como muitos, sabendo apenas acerca do Cristo histórico, me deixei levar pela “viagem” dela.
Afinal, eu até podia não concordar com os argumentos dela...
Mas como discordar se eu não tinha uma contra-argumentação abalizada? Aliás, diga-se de passagem que eu não tinha nenhuma, abalizada ou não.

Como diria o sábio pregador, sem a Rocha da Realidade que é a Palavra Revelada, todos nós de um modo ou outro vivemos em “viagens”.


Na verdade, eu me deixei levar, não pelos argumentos rasos e angustiados dela, mas pela própria angústia em si, pelo medo supersticioso estampado em seu rosto.
O mesmo medo que vi na expressão angustiada da amiga avessa à vela.

Eu não tinha nem mesmo o conhecimento da Palavra de Deus, como está lá em Jeremias 10.5 como refutação simples, clara e enxuta para aquela agonia toda, mas por outro lado, mesmo cedendo àquele sumário exorcismo não entrei na viagem do rigor ascético dela, em acreditar que aquela obra de arte seria responsável pelas dificuldades que eu experimentei à época.

Meu próprio temperamento já era desde cedo voltado para um estilo questionador e
resistente a certas paranóias, sempre com o cuidado de buscar informações para manter minha mente sadia e tendo a sorte de absorver com toda força essa coisa pulsante que meu pai trazia em suas veias de derrubar mitos, de questionar, de não me deixar levar por qualquer explicação.

Enfim...

Incensos, velas, carrancas...

Objetos que não têm poder de fazer bem... nem mal.

Sabe...

Às vezes eu vejo com certa tristeza a gritante incoerência no emprego de algumas normas contidas em cartas do NT, totalmente fora do seu contexto e que só segregam, isolam, separam... Enquanto nessas mesmas cartas há tanto de vida prática saudável a se seguir pra ser feliz, leve e sem o peso da obrigatoriedade.
Até porque, quem vive na GRAÇA não precisar do peso da norma.
Tudo flui NATURALMENTE.

Como diria Paulo aos gálatas, em outras palavras: ou a lei ou a graça.
“Não anulo a graça de Deus; pois se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão”.

Ora, sejamos SENSATOS, pois o mesmo Paulo que estabelece medidas disciplinares severas à igreja que se formava em Corinto é o mesmo Paulo que diz claramente aos colossenses:
“Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por quê, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques naquilo outro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens?”

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Muro DE PEDRA


Muro que separa e/ou muro que protege?
Em data de comemoração da queda do Muro de Berlin, penso no bicho-homem.(O meu é com hífen rss)
O bicho-homem dono do poder que ao longo da história, inverte uma idéia exemplar e a faz virar um terror.
Comemoram-se 20 anos de queda desse muro erigido no início dos anos 60 para impedir fuga de seres humanos.
Muro levantado por mãos atadas e mentes escravizadas por um sistema ironicamente nascido de ideais igualitárias e que se transforma em movimento político onde a coerção é sua base de sustentação.
Ora, muro assim segrega, oprime, adoece e mata.
Mata psicologicamente.
Afetivamente. Emocionalmente.
Destrói o ser na sua essência.
E penso no bicho-homem...
Quão romântica a idéia de que um modelo único suplantaria a vontade humana em sua ânsia pelo poder!
E que caos, que desordem, quanta perda humana ao longo desse processo transitório permeado por lutas e rupturas, onde em inversão sinistra, gulags aprisionam uma ideologia outrora libertadora.
A igualdade social proposta anteriormente fora substituída por um tirano sistema político e econômico impregnado em mentes rançosas que tolhiam, que puniam, que castravam, que destruíam o ser humano desde a sua mais simples necessidade de liberdade individual a terríveis massacres e genocídios.
A idéia de livrar-se da alienação do trabalho herdada dos sistemas imperialistas volta-se irônica e brutalmente contra a alma do ser humano, fazendo-a mais cativa em nova versão bem mais castradora.
A proposta original de repartir conforme a necessidade abolindo classes percebe-se distorcida em forma violenta voltando-se contra a velha conquista do direito básico de transitar, de ir e vir, de pensar, de ser simplesmente.
Então surge outro sonho em mentes essencialmente livres: o de migrar para um mundo supostamente livre.
Um mundo mais livre encorajado pela glasnost e pela perestroika.
Um mundo mais livre desencadeado pelo movimento sindicalista.
(E ainda considerando a forte influência mundial e religiosa, conforme enfatizou o líder do “Solidariedade” em discurso ontem após dar início à derrubada dos dominós simbólicos).
Um mundo que estaria mais próximo do “sonho americano”.
E aí surge essa tal mundo da globalização.
O mundo da globalização que não tem muros visíveis.
Globalização que gera muros sofisticados e intransponíveis.
Esse mundo da globalização que finda por desiludir os outrora cativos...
O certo é que, dominós, simbolismos e méritos à parte, há de se levantar MESMO é a bandeira que circulava tremulante nas festividades de comemoração com os seguintes dizeres:
“CONTRA OS MUROS NA CABEÇA”

sábado, 7 de novembro de 2009

O LIVRO DE ECLESIASTES



A razão porque ele é tão pouco lido nada tem a ver com sua profundidade ou complexidade, pois, como em toda genuína sabedoria, o que é verdadeiro se faz entender com simplicidade.

Portanto, não são as dificuldades de compreensão que impedem a Leitura, a aceitação e vivência proposta por Deus em Sua Palavra no livro atribuído a Salomão.

O que dificulta é justamente o poder esmagador de sua simplicidade baseada na observação da História, tal qual ela se mostra aos olhos, sentidos e percepções humanos.

E entre essas observações, aparece o desmantelamento de todas as fabricações de causa e efeito criadas pelos amigos de Jó.

No Eclesiastes a vida é como ela é: sem tentativa de abençoar a inegabilidade da Queda dos Humanos no Planeta Terra.

A outra razão da não apreciação do Eclesiastes é que ele não fala abertamente da eternidade—no máximo diz que o espírito volta a Deus, que o deu—, não fala nem do céu e nem do inferno.

E seca a vida aqui, na arena das competições, dos julgamentos, dos esforços inúteis, das jactâncias idiotas, dos sucessos imerecidos, dos insucessos injustos, dos poderosos insensatos, dos sábios desprezados, dos ricos sem apetite, dos ricos estéreis, dos justos esquecidos, dos esnobes afamados, dos governadores cercados de puxa-sacos incompetentes, dos bens materiais que não promovem nem paz nem sono, das vitórias logo esquecidas, das alegrias alienantes, das tristezas que melhoram a alma, dos afazeres que nada mais são que vaidade e correr atrás do vento.

Por esta razão o livro de Eclesiastes é insuportável, ele é histórico demais e realista demais.

Nele não há milagres.

Seu grande milagre é o discernimento de como a vida é, sem os auto-enganos aos quais nos entregamos a fim de diminuir a nossa dor acerca dos esmagadores fatos da existência humana na Terra.

Precisamos, todavia, lê-lo, pois sem a percepção de como a vida é, jamais cai a ficha!

E, enquanto a ficha não cair, não mergulhamos jamais no mundo da Graça e da Providência de Deus.

Sem o realismo do Eclesiastes não se faz a apropriação posterior da certeza de que no mal de hoje pode habitar meu bem eterno.

E também não nos entregamos com confiança à certeza de que o verdadeiro bem não está disponível aos sentidos!

Caio Fábio

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Ali não me cabe mais



Deixei de ir à igreja.

Não há nada que me motive mais a ir a cultos dominicais ou mesmo reuniões em grupos, que são bem comuns nas comunidades cristãs. Já não conseguia mais nem cantar “louvores”, ou melhor, acompanhar os cânticos executados na igreja que frequentava. Na sua maioria, são os mesmos que são cantados e tocados nas demais igrejas semelhantes. Lembro-me da última vez que estive em uma; ao entrar, via o rosto de todos, cansados, na expectativa de que algo transformador fosse dito ou oferecido durante aquelas horas. A expressão facial de quem os recebia era o oposto: sorriso tragando as orelhas como se o mundo fosse feito de pavê. Ainda consigo escutar o som das vozes de quem “ministrava” o momento musical e dos instrumentos que o acompanhava. Era um “barulho” de um sino de igreja misturado com uma banda de heavy metal em um momento de solos instrumentais simultâneos. Tive uma espécie de taquicardia psicológica. Fui empurrado para fora do templo de uma forma quase que inevitável.

O que parece exagero é apenas um resumo do que sentia naquele momento. A minha namorada que estava lá comigo, na hora não entendeu nada. Fui por muito tempo dedicado aos diversos ministérios que surgiam na minha trajetória em igrejas cristãs. Participei de muitos, liderei alguns. Quase sempre estava envolvido diretamente na organização das muitas manifestações e movimentos com o objetivo de difundir nossas crenças e alcançar o maior número de pessoas possível. Por isso a surpresa dela naquele momento.

Por muito tempo me comportei como quem não podia errar, para que outras pessoas também não errassem e “pecassem”. Esse mal me perseguiu por alguns anos. Escutava sempre que gente como eu precisava ser referência, para que ninguém tropeçasse na fé por minha causa. Era preciso dar “bom testemunho” ou então eu seria responsabilizado se alguém se desviasse do caminho. É o que todos escutam nas diversas igrejas e denominações. Umas com um discurso mais contundente, outras mais sutis e estratégicas. Tantas vezes fui forçado, por toda essa pressão, a ser o que eu não era, ou sou. Alguns sofrem dessa doença até hoje. Eu saí correndo da igreja e ali nunca mais voltei.

Não demorei muito para perceber o bem que eu estava me fazendo, ou que Deus estava me permitindo fazer a mim. Ele é digno de todo louvor e adoração. Imagino que ninguém tenha plena consciência da soberania de Deus, sua grandeza, seu poder. Sempre irei louvá-lo. Quando fizer isso, quero que seja de todo o meu coração, não quero que seja automático, apenas um acompanhamento ou costume semanal.

Foi interessante como comecei a notar que o show de domingo não poderia ter falhas. Via claramente na preocupação dos organizadores em que tudo desse certo. Vi muita gente sendo humilhada, usada, enganada, para que caprichos dos líderes fossem atendidos. É uma seita em potencial. A idéia é que a reunião semanal, normalmente aos domingos, seja tão “tremenda” que o espectador fique ansioso pelo próximo encontro. Não tem nada a ver com Deus. Na maioria das vezes eu voltava para a minha casa pior do que estava antes de sair para o denominado culto. Porém com uma baita crise de abstinência. Efeito semelhante ao que a cocaína pode causar.

Eu não vejo razão nenhuma para reuniões de domingo (cultos) que acontecem atualmente. Para mim são dispensáveis. Tudo que é oferecido ali é o melhor que Deus pode fazer por nós. É como a fada madrinha dos contos infantis. Estamos confundindo tudo. Achamos também que Deus é um ser carente, precisa ser mimado, todos temos que adorá-Lo, servi-Lo, cantar para Ele para que não fique triste. Eis a raiz da questão. Por acharmos tudo isso, inconscientemente não damos valor aos momentos em que deveríamos nos prostrar e adorá-Lo de todo coração. Nem ao menos temos noção do que isto represente. Por que? Simples! Não O conhecemos, em primeiro lugar. O primeiro contato que temos com Deus ao chegarmos à igreja, é sobre o que Ele pode fazer por nós ou pelos nossos problemas. Mesmo sem saber ao certo quem Ele é, aceitamos o que nos é proposto. O fator preponderante é que sejamos atendidos, e rápido, se possível. Conhecê-lo deve vir primeiro que torná-lo conhecido, segundo a bíblia. A partir daqui, começo a entender que Deus precisa ser conhecido por mim.

O processo de entender a grandeza de Deus, a criação da vida, o Seu relacionamento com o homem, o Seu evangelho, me impulsionam naturalmente a reconhecer a Sua divindade, a beleza da Sua santidade, o Seu Amor. O meu coração e a minha alma se dobram diante da sua maravilhosa luz. Não é por costume ou pelo que Ele tem a me oferecer, mas simplesmente porque Ele é Deus! Depois que isto acontece o meu coração fica cheio de amor, de misericórdia, de perdão. Assim como Moisés quando desceu do monte. Esse é o reflexo do contato com Deus. Não sei como, mas essa “conexão” com o Pai que nos criou à sua imagem e semelhança vai sendo deixada de lado gradativamente. Trocamos o melhor do relacionamento, uma vida em espírito e em verdade, uma adoração de todo o nosso coração, por costumes inúteis, corrosivos, nocivos, destrutivos.

Deus quer adoração em todo tempo e não em um breve encontro. Torná-lo conhecido fica fácil depois de conhecê-lo de verdade, todos verão em nós, não mais nos será um fardo testemunhá-lo, mas um prazer. Depois daquela fuga repentina, que me fez tomar decisões importantes, parar para ver o que eu já via, porém não percebia, entendi muita coisa. Foi preciso sair de toda aquela “muvuca” para aquietar o meu coração, acalmar a minha alma aflita. Ainda assim, precisei ir a outras comunidades que ofereciam algo diferente. Acreditei em algumas, sedento por um lugar ou pessoas que pensassem como eu, que quisessem apenas o que Deus quer. Foi frustrante. Parecia diferente no início, mas era tudo igual, com a mesma intenção. Ora, se tem membros, logo, tem arrecadação, sendo assim, é preciso manter costumes que segurem os participantes e os submetam a um ritmo estável.

Por outro lado, há igrejas novas, com propostas mais atuais, que nem usam nomes de igrejas. Mas ao participar delas, notamos que ainda estamos presos ao passado, inveterados nos velhos moldes. Desconfio até que não funcionaria de outra forma. Esta parece ser a mais eficaz. Senão vejamos: descolamos um lugar bacana, com cadeiras na direção de um púlpito, montamos um grupo de louvor (músicas), colocamos pessoas sorridentes para receber os participantes na porta do estabelecimento, um pastor e por enquanto basta. A liturgia pode ser a de praxe: Uma palavra de boas vindas, um momento de cânticos, uma pregação cativante e motivadora, momento de contribuição, para algumas igrejas um momento de comunhão (Santa Ceia), breves avisos e a despedida. Umas igrejas mais pentecostais fazem o famoso apelo, que tem feito muito sucesso, quando não aumentam a membresia, acalentam a já existente. Montamos uma nova igreja. Mais zumbis irão circular e vagar por aí.

Eu sonho fervorosamente com pessoas se reunindo apenas para conhecer mais de Deus. Dedicar a Ele momentos de louvor, ou seja, ter o reconhecimento da sua grandeza, santidade, misericórdia, soberania. Provar do Seu amor apenas porque é inevitável aproximar-se dele sem que isso aconteça. Fazê-Lo conhecido pelo amor ali cultivado. Ser igreja de Cristo como corpo que faz valer, vai à luta, arregaça as mangas da camisa para ajudar a quem precisa, gastando tempo com quem necessita de um apoio, seja financeiro, psicológico, espiritual, o que for. Há - e como há! - quem precise de apenas um pão, um abraço, um teto, um cobertor.

Enquanto isso, perdemos nosso tempo, que já não é muito, com conversa fiada entre quatro paredes “santas”. Estamos completamente equivocados. Já ouviu falar em boas intenções? Dizem que o inferno está cheio delas. Para toda essa loucura é preciso um remédio que anestesie o clamor que nasce no nosso coração buscando repostas, uma fagulha do “fogo divino”. Inventaram então os famosos retiros espirituais com nomes e temas diversos.

Já vi de tudo. É como se fosse um final de semana com Deus. É tudo que você precisa: maravilhoso, inesquecível, transformador! De fato, Deus em sua infinita misericórdia, responde aos que o buscam, pena que dura só até o domingo. Na maioria destes encontros, tenta-se aplicar uma cura espiritual de males causados pela própria instituição. Aproveita-se para falar em dons espirituais, aqueles que deveríamos buscar com zelo. Renovação, reconciliação, cura, perdão, entre outros que não praticamos no dia a dia. Guardamos para que se realize em um momento especial. Algo parecido acontece no carnaval. Festa popular mais querida no Brasil, país em que nasci e vivo até hoje. Mas, esta manifestação do povo é ignorada pelos evangélicos, crentes, cristãos protestantes, chame do que quiser. Nós também nos retiramos nesta época. Todos os terreiros de macumba ficam em carga total, nós, estamos ausentes. “É um evento do diabo”. Foi o que sempre ouvi de alguns pastores, líderes religiosos e de juventudes. Quase uma semana de brincadeiras, músicas, danças, bebidas e diversão de todo tipo que se possa imaginar. O sexo parece ser mais atrativo nesta época, os apelos se intensificam.

E a igreja? Bem longe dali! Nossas ovelhinhas precisam estar protegidas das tentações. “Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós”. Quem está fugindo afinal? Mas tem outra trupe, a galera do evangelismo. Essa é crente de verdade. Eles chegam abalando no carnaval. Todos com a mesma camisa (branca é claro), com uma pomba desenhada, alguns com bandeiras para que não reste dúvidas, bíblia nas mãos, panfletinho e uma língua afiada. São os santos no meio dos perversos. Vez ou outra passa um membro da igreja que saiu para as ruas para brincar e sem querer esbarra com essa “turma do bem” e se sente a pior pessoa do mundo, um imundo, sujo, um pecador sem perdão.

A minha família brinca carnaval desde sempre. Cresci ouvindo vassourinhas, frevo muito conhecido por aqui onde moro. Aliás, o frevo é o ritmo mais característico de nossa terra, porém desconhecido pela igreja, pelo povo que todo ano se retira. As troças de carnaval e a irreverência apenas vistas nesta época do ano são deixadas de lado e nada aproveitadas por este povo. Alheios a tudo isto, nós seguimos ignorantes a tantas outras coisas que são vistas no carnaval, como o coco, ciranda, maracatu, caboclinho, a cultura local em sua maior expressividade. O Carnaval, historicamente, como festa popular, foi visto pela primeira vez em Veneza, na Itália, com pierrôs e colombinas, máscaras que foram criadas para que o povo se misturasse, entre classes sociais.

Quando aqui estamos no período de carnaval, e decidimos participar da festa, nos colocamos como os melhores, os detentores da verdade, os salvos que levarão a salvação para todos. Quando meus tios e tias, meu pai, primos primas, saem nas ruas para brincar carnaval, eles se divertem, participam de movimentos irreverentes, descontraídos, ficam juntos da família. Se nós não fugíssemos do carnaval, ou se não estivéssemos ali apenas para sermos os melhores, talvez a gente também aproveitasse esta festa do povo. Como crentes mesmo, servos de Deus. Por que não? “A alegria do Senhor é a nossa força”. Não precisaríamos falar nada, nem papeizinhos para entregar. Seríamos reconhecidos pelo amor que há em nós. Não há no mundo, nem na nossa cidade, momento melhor para isso. Para brincarmos também. A vida é divertida. Mas isso é discurso de desviado, diriam alguns crentes que conheço. É exatamente isso: estou completamente desviado, desligado, desarraigado daquele pensamento preconceituoso e segregador. É lindo ver uma troça passando, um frevo ao fundo e fantasias engraçadas e inteligentes. De fato, é uma pena pensar que a idéia de que a verdade está nas mãos de apenas um povo, além de romper gerações, está cada vez mais sólida.

Em pensar que os colonizadores ao chegarem por estas terras pela primeira vez, contemplaram a maravilha da criação de Deus, mas tinham em suas mãos toda a pretensão de que eram os portadores do conhecimento divino, pregando, evangelizando e violentando tudo que encontravam pela frente, certos de que se não realizassem tal feito, Deus deixaria de ser conhecido pelo povo que aqui vivia. Esse retrato se repete ao longo da história. Agimos assim também, cheios de verdades absolutas, idéias separatistas, capazes de criar fronteiras. “Eu to fora!” Deus é infinito, não cabe nos nossos conceitos limitados. Tanta gente que acreditamos ser infiel, incrédula ou algo do tipo, tem experiências maravilhosas com Deus; ou de fé para compartilhar conosco, basta baixar a guarda, ter humildade, se render e crer que o Pai se revela aos seus filhos, da forma dele, não da nossa.

Grande é a surpresa, assim aconteceu comigo. Ao encher um copo com água, percebo que se ultrapassar o limite, a água irá transbordar, escorrer pelo vidro do lado de fora e molhar a superfície que se encontra o copo. Posso concluir que se eu estiver cheio de alguma coisa, quem se aproximar de mim será naturalmente alcançado pelo que me encheu. Acredito que é assim que funciona com o amor de Deus. A busca continua... Tenho bom ânimo. Irei perseverar até o fim! Que a Água da Vida transborde em mim e seja derramada, aonde, como e quando Ele quiser. Amém!
Leo Rocha.

(Parágrafos e sublinhados meus- RF mãe do autor do texto)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

CORAÇÃO QUE ABRAÇA O MUNDO

O mundo não é o que deveria ser. O mundo está dividido em sub mundos. São muitos os submundos que convivem dentro do mundo e cada submundo se considera a totalidade do mundo. Por exemplo, o primeiro mundo e o terceiro mundo. O mundo da pobreza e o mundo da riqueza. O mundo de hoje, de ontem e de amanhã. O mundo dos jovens e o mundo dos velhos. E o mundo das crianças. Mas o grande abismo entre os submundos é resultado do abismo que existe no coração de cada pessoa e que separa “o mundo do eu” e “o mundo do outro”. Para que experimentemos a unidade de um mundo sem fronteiras étnicas, sócio-econômicas, político-ideológias e religiosas é necessário que cada pessoa rompa as fronteiras de seu próprio mundo e se abra para outro mundo, especialmente o mundo do outro.

Foi exatamente isso o que Jesus fez. Deixou seu “mundo divino”, o céu, e veio ao mundo dos homens, a terra. Seu movimento certamente foi inspirado no coração de seu Pai, que “tanto amou o mundo”. Deus tem um coração que abraça o mundo. Seu Filho tem um coração que se dá pelo mundo. O Espírito de Deus derrama esse mesmo amor em nossos corações. Para que sejamos um com Deus, assim como Pai, Filho e Espírito são um, precisamos abrir nossos corações para que sejamos um entre nós. O abraço de Deus é o abraço de um coração que abraça o mundo. E nesse abraço de Deus não estamos sós, pois Deus é Pai nosso, aquele que dá um mesmo nome a toda a família nos céus e na terra.

Estamos num tempo em que de fato é imperativo “viver sem fronteiras”. Palavras como multiculturalismo, pluralidade e diversidade exigem outras, como diálogo, convergência e tolerância, e impelem cada um de nós ao caminho da comunhão, compaixão e solidariedade. A diaconia dilata o coração. No abraço de Deus e de seu Cristo, servo sofredor, que acolhem o mundo, somos convidados a abraçar o Borel, Jerusalém e Bagdá; a convidar à nossa mesa o órfão, a viúva e o estrangeiro; a abrir conversações com ateus, agnósticos e piedosos de todos os credos; conviver com todas as gentes, independentemente de raça e cor, gênero e orientação sexual, ideologia e religião; a juntar forças para o bem comum e a colaborar com as iniciativas das pessoas de boa vontade e suas causas justas.

Passou o tempo do sectarismo fanático e dos preconceitos que resultam em juízos condenatórios. Não existe mais espaço para o dogmatismo prepotente. Quem se acredita dono exclusivo da verdade e vive para impor sobre todos sua moral particular acabará falando sozinho, tão útil como uma vela debaixo da cama, irrelevante como sal sem sabor, que para nada presta senão para ser pisado pelos homens.

É urgente a proclamação do Evangelho de Jesus Cristo – por palavras e obras. É imperativo que coloquemos abaixo os muros e superemos as barreiras que nos separam. É imprescindível abrirmos nossos corações para o amor de Deus que não apenas nos abraça, mas abraça o mundo. Assim, todos juntos, sentados na mesma relva, ouviremos as palavras de vida eterna pronunciadas por Jesus e, enquanto compartilhamos o pão da terra, desfrutaremos do pão do céu, que ele, Jesus, multiplicará e distribuirá na ciranda da nossa comunhão.

2009 | Ed René Kivitz -

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A MPB nossa de cada dia dá-nos hoje


Era pra ser uma resposta a algumas cartas. Mas são muitas as cartas criticando-me por gostar de MPB.


Resolvi escrever um artigo... assim é melhor... respondo as cartas e ainda escrevo um pouco daquilo que gosto e penso.

Sinceramente, não dá pra entender o ódio mortal que alguns cristãos sentem em relação a nossa Musica Popular Brasileira. Ou melhor, dá pra entender sim... esse pensamento é o simples reflexo de um povo que foi “colonizado” espiritualmente por uma mentalidade estadunidense-européia e hoje sofre nas mãos dos “brasileiríssimos” apóstolos da “teologia do gueto” (aquela que afirma que tudo de fora é do diabo e tudo de “dentro” é de Deus).

Quanto à música, então, nem se fala! Música que não louva a Deus, é do diabo!

Meu Deus!!! De onde tiraram essa idéia? Onde ficam a poesia, a arte, a beleza, o romantismo? Será que estamos mesmo fadados a sermos reféns das rádios evangélicas e suas “maravilhosas” canções românticas? Será que só poderemos ouvir a “poesia” dos mantras repetitivos e infindáveis? Não poderemos mais ouvir os nossos chorinhos lindos e estaremos à mercê dos chorões de auditório? Será que o meu Brasil-brasileiro-mulato-branco-moreno-e-negro cairá sob a bandeira de Israel e seus shophares mágicos?

A implicância com a música brasileira ao meu ver tem dois motivos, ambos impregnados na mente de nosso povo e já considerados como “doutrina bíblica” por muitos.

O primeiro motivo é por ser... “música”. Como assim?

Há algum tempo atrás surgiu uma “doutrina”, dessas que surgem de vez em quando e fazem aquele estrago imenso, onde se dizia que Lúcifer era “ministro de louvor” no céu, daí entender tanto de música e saber usar a seu favor essa maravilhosa arte. Logo, a música que não era pra louvar a Deus, só poderia ter outra fonte: o gramunhão! Daí rejeita-se QUALQUER coisa que não tenha o rótulo de “evangélico” e, mais recentemente, o melhor dos rótulos: “gospel” (assim acaba de vez qualquer tentativa de ser brasileiro).

Essa idéia errônea atribui mais poder ao diabo do que a Deus. Ora, Deus é criador de tudo e tudo o que é realmente belo vem dEle, é o que se chama na teologia de “graça comum” (é claro que o conceito de graça comum é bem mais amplo, mas fiquemos aqui na beleza...). Não há beleza que não venha de Deus. Lembro-me de uma música do MILAD, em seu álbum “Retratos de Vida”. A música chama-se “Platéia” (Toninho Zemuner – Alexandre Rocha) e diz:

“Pra começo de história
Entre acordes e tons,
Onde Chicos e Miltons
Fazem os sons...
(...)
Ah! Se todos soubessem
De onde vêm esses dons,
(...)
A fonte é Deus,
Essa fonte de vida...”

Essa “teologia” ainda foi mais fomentada quando Raul Seixas deslanchou com “Rock do Diabo”, onde afirmava que “o diabo é o pai do rock”. Quanta ingenuidade a nossa!!! Estamos fazendo com a música a mesma coisa que fizemos com o arco-íris, entregando coisas divinas ao movimento gay e à Nova Era como se realmente o arco-íris fosse um sinal diabólico, totalmente contrário aos planos de Deus. Ignorância! Ignorância Bíblica! A única coisa que o diabo conseguiu ser pai é da mentira (João 8.44) e é exatamente em sua especialidade que ele coloca na mente dos cristãos que tudo o que não é da IGREJA não é de DEUS.

Mas isso também depende dos “frutos” (entenda-se aqui frutos como propaganda, marketing, e principalmente LUCRO). Até pouco tempo atrás futebol era uma coisa do diabo. Isso até os mais famosos jogadores se dizerem evangélicos e aí os pastores, ávidos por aparecerem na mídia ao lado de seus fiéis... sacralizaram o que até então era diabólico. Hoje ninguém mais comenta que futebol é do diabo e que a bola é o “ovo do capeta”. Deixou de ser há muito tempo, desde quando começou a trazer frutos e dividendos pro “Reino”.

Em tempo: não sou contra o futebol. Pelo contrário!!! Sofro como flamenguista; gosto de bater uma pelada com amigos; de ir ao Maracanã quando dá tempo torcer pro Mengão; em épocas de copa do mundo, paro pra assistir todos os jogos do Brasil, e como bom brasileiro estou torcendo desde já pelo hexa da nossa seleção.

Pois bem, o diabo nunca foi ministro de louvor no céu (só se isso fizer parte de algum livro apócrifo), e o máximo que ele pode fazer é deturpar aquilo que Deus criou, mas nunca ser pai de alguma coisa. A música é um presente de Deus à humanidade, que pode ser utilizada em seu louvor, como também simplesmente para demonstrar sentimentos belos como o amor, a saudade, o carinho, sonhos, etc.

Essa idéia faz com que a música seja olhada como a pior arte, arte exclusiva de Satanás. Não vejo ninguém recriminando um filme, uma poesia, uma escultura, uma exposição de quadros... tudo isso é arte. Só não pode haver música!!! Se houver música, na cabeça de muitos, a coisa passa a ter um outro dono: o diabo. Todas as outras artes podem ser apreciadas, sem problema algum, menos a música. Santa ignorância! Santa hipocrisia!

É claro (e é aqui que está o cerne da questão) que há a boa música e a música ruim. Não dá pra ter prazer ouvindo “Vem Tchutchuca, vem aqui pro seu tigrão” ou “Hoje é festa lá no meu apê... vai rolar bundalelê”. Mas não podemos julgar o todo pela parte ruim. Há música ruim na MPB? Claro que há! O que faço? Não ouço! É simples... Há música boa na MPB? Claro que há! O que faço? Ouço... e louvo a Deus por ter dado ao homem (mesmo o que ainda não O conhece pessoalmente) essa capacidade “divina” de harmonizar letra e música, verbo e melodia... isso é dom de Deus!!! Não vem do diabo, como muitos querem.

Experimente ouvir de coração aberto “Toada” (Boca Livre); “Sapato Velho” (Roupa Nova); “Aquarela” (Toquinho); “Eu Sei que Vou Te Amar” (Vinícius); “Sucedeu Assim” (Tom Jobim); “Vieste” (Ivan Lins) e muitas outras músicas lindas de nossa MPB e você entenderá o que estou dizendo...

E outra questão precisa ser levantada. Há música boa no meio evangélico? Claro que há! O que faço? Canto, toco, ensino nas igrejas, etc... Há muita porcaria no meio evangélico? Claro que há! O que faço? Não ouço e nem recomendo. É simples também! E ainda cabe alertar o povo de Deus contra o engano desses “senhores de gravadoras” que comandam o mercado gospel e enfiam goela abaixo os seus queridinhos e suas músicas “de Deus”.

Portanto, antes de “julgarmos” os de fora, julguemos a nós mesmos. Nossa qualidade musical, conteúdo, as maracutaias no meio “gospel”, a máfia das rádios evangélicas e de seus donos-sempre-candidatos-políticos, o uso do nome de Deus em vão para enriquecer pilantras e enganar o povo, etc...

A segunda questão que creio ser fundamental para a não aceitação da MPB por parte de alguns evangélicos é o simples fato de ser... Brasileira! A igreja evangélica no Brasil tem a péssima mania de só considerar sacro o que “vem de fora”. Há a rejeição latente aos ritmos brasileiros, a miscelânea cultural que é a nossa pátria tupiniquim.

Instrumentos de origem africana são quase sempre associados aos cultos do candomblé, a riqueza de sons e ritmos é sempre associada ao folclore, ao popular, e a arte popular é profana... indigna de se cantar “pra Deus”.

É comum em casamentos, processionais, recessionais, e outros momentos “instrumentais” em igrejas as grandes composições de Bach, Beethoven, Haendel... mas não há espaço pra Carlos Gomes, Villa-Lobos, Waldemar Henrique, Radamés Gnattali, entre outros...

A música genuinamente brasileira é sempre olhada de lado. Bom mesmo é o que vem de fora... que nos sirvam de provas os grandes hits do “louvor brasileiro” que em sua maior parte é composta de versões do Hosanna Music, Hilsong Church, Michael W. Smith, etc. Não estou dizendo que isso não possa acontecer. Há músicas boas que podem, e devem ser traduzidas, mas por que tanto preconceito com o que vem de dentro de nosso solo, da mãe gentil e pátria amada? Por que João Alexandre, Jorge Camargo, Nelson Bomilcar, Carlos Sider, Carlinhos Veiga, Atilano Muradas, Arlindo Lima, Sérgio e Marivone (Baixo & Voz), Gláucia Carvalho e outros tantos não são conhecidos da grande maioria dos evangélicos brasileiros? Falta de talento e inspiração? Não!!! Falta de vergonha das nossas rádios e dos mega-empresários da fé. Falta de vergonha de uma igreja que nunca chegou a ser brasileira de fato.

Nossas raízes européias e estadunidenses devem ser respeitadas. Foram eles que atravessaram mares para nos pregar o Evangelho da graça. Mas somos brasileiros. Em nosso corpo e em nossa mente há uma ginga inegável, um requebrar sadio que não se contem ao som dos tambores, atabaques, violas, violões, cavaquinhos, e tantos outros instrumentos.

Voltando ao nosso assunto (MPB). A lógica que cabe no meio “gospel” também serve para a nossa cultura. Somos sempre tentados a não valorizar o que temos de bom. Temos poetas maravilhosos, compositores fenomenais em nossa MPB e em nome de uma fé totalmente equivocada desperdiçamos a chance de crescermos como brasileiros, como músicos, como poetas ao nos recusarmos a ouvir o que há de bom do lado “de fora” do nosso gueto.

Que reconheçamos em todas as coisas belas, e até mesmo na boa MPB, traços do criador, resquícios da imagem de Deus ali pulsantes em alguém criado à sua imagem e semelhança. Creio firmemente que Deus não punirá aqueles que ouvem a boa música brasileira, européia, estadunidense, africana... Ele ainda é Senhor de todas as coisas, mesmo que muitos dos que se dizem seus “filhos” não queiram...


José Barbosa Junior
Crer e Pensar

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O AMOR é o dom maior

Jesus pôs abaixo todas as regras e normas judaicas baseadas em tradições próprias e que eram opostas à Sua proposta.

Jesus não se limitou a um determinado grupo, a uma facção.

Aliás, Jesus abomina facção, grupinho, irmandade.

Ele manda fugir do homem faccioso.
Ele, que se enfiou no meio de publicanos e prostitutas.
Ele, que manda o mala sedento descer da árvore convidando-se pra comer em sua casa.
Ele, que rompendo com os moldes culturais da época, abordou uma mulher que já tivera cinco maridos e que, além de samaritana, ainda vivia com um homem que nem era seu marido!
Ele, que fugiu dos grupinhos religiosos cheios de si e deu-se às multidões, escandaliza dizendo quem são realmente os seus:

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns com os outros” (Jo 13.35)

Observe que Ele disse uns com os outros!

Jesus não disse: uns com os outros da sua turma de faculdade.
Não disse: uns com os outros do seu setor de trabalho.
Também não disse: uns com os outros que freqüentam os mesmos bancos da denominação que você; nem tampouco disse: uns com os outros que te aplaudem, te agradam, te ajudam, te bajulam.

Ele disse simplesmente: Uns com os outros!

Tem uma parábola que ilustra muito claramente quem é o nosso irmão: a do clássico bom samaritano! (Lc 10: 25a37)
O intérprete da lei (ou seja, o cara!) pergunta a Jesus como conseguir a Vida Eterna e o mesmo sabiamente responde com outra pergunta, (vers 26) forçando-o a dizer:

“Amarás o SENHOR teu Deus, de todo coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Ver Dt 6.5 – Lv 19.18)

E Jesus disse: “respondeste corretamente; faze isso e viverás”. (Ver Lv 18.5)

A coisa pegou quando o doutor da lei perguntou:
- “E quem é o meu próximo?”

É quando Jesus coloca um personagem estranho em sua historinha, um personagem samaritano que os judeus odiavam tanto que se esqueceram de exercitar o mais importante para Deus: O AMOR.

Para Jesus não importa: quem tem amor no coração – verdadeiramente – vê o outro como seu semelhante e terá cuidado especial com ele como se fosse consigo mesmo.
O tal escriba era o cara , sabia tudo e mais alguma coisa, na ponta da língua, mas seu coração cheio de soberba o impedia de entender a essência do mandamento principal.
Por isso Jesus já os chamava de hipócritas em outras ocasiões. (Mt 15:7.8.9)

Imagine só o queixo caído do intérprete da Lei quando Jesus finaliza:

“Vai e procede tu de igual modo” (v.37)

Cheios de si, eles não conseguiam entender que o que Jesus queria deles era o coração puro disposto a amar incondicionalmente e não regras impostas pela tradição adquirida por interpretações próprias e colocadas acima das Escrituras, “invalidando a Palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes”. (Mc 7.13)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

TRANSTORNAR PARA TRANSFORMAR

Além de não conformar-se, isto é, ajustar-se aos padrões vigentes, o Evangelho do Reino provoca transformações profundas, tanto no indivíduo, quanto na sociedade.

No indivíduo, esta transformação começa pela renovação do seu entendimento, conforme lemos em Romanos 12:2. Portanto, parte do subjetivo. Sua cosmovisão é radicalmente afetada. A maneira como se vê, e como enxerga a realidade à sua volta muda drasticamente.

Ele passa a perceber-se como um pecador carente da misericórdia divina. Há uma expansão da sua consciência (Metanóia no grego , ou arrependimento em português). Sua avaliação de si mesmo e do mundo passa a estar em linha com a avaliação feita por Deus. Suas opiniões particulares se rendem à verdade revelada na Palavra.

A introspecção inicial dá lugar a uma nova cosmovisão. Embora parta do subjetivo, não pára aí. Ao sentir-se transformado por Deus, o indivíduo é comissionado e desafiado a trabalhar pela transformação do mundo. Daí o caráter objetivo e abrangente da transformação proposta pelo Evangelho.

A injustiça imperante na sociedade começa a causar-lhe náuseas, porque seu coração agora bate no compasso do coração de Deus. E ele não se contenta a ser um mero espectador da história, mas almeja ser um agente subversivo do Reino de Deus.

O Espírito do Senhor que passa a habitar nele, o impulsiona a trabalhar pela restauração dos lugares há muito devastados pelo crime, pela injustiça social, pela corrupção, pela promiscuidade, e por tudo o que degenera o ser humano (Isaías 61:4).

A transformação desejada é precedida por um TRANSTORNO.

Transtornar é bagunçar o que está arrumado, para então estabelecer um novo padrão. Para dar uma faxina nada casa, é imprescindível que se tire as coisas do lugar.

Os discípulos de Jesus foram acusados de transtornar o mundo (At.17:6). Onde o Evangelho chegava, havia sempre uma desordem inicial, um alvoroço, como o que aconteceu em Éfeso, quando os comerciantes amargaram um enorme prejuízo por conta do culto a deusa Diana ter sido desacreditado.

Como já devem ter percebido, gosto muito de estudar a origem etimológica das palavras.

Algumas traduções trazem o vocábulo “alvoroço” em vez de “transtorno”.
A palavra “alvoroço”, tem a mesma origem de “alvorecer”.
Quando se tocava o clarim da alvorada no acampamento do exército romano, havia um alvoroço, que logo era seguido pela ordem matinal, com todos os soldados devidamente enfileirados.

A trombeta de Deus tem sido tocada, onde quer que o Evangelho do Reino seja anunciado. O alvoroço causado pela proclamação da verdade é o prenúncio de que a aurora está prestes a raiar.

Esta transformação deve abarcar todos os campos do conhecimento humano, e todos os setores da sociedade. A cultura, a ciência, a legislação, a educação, a família, nada fica imune ao fluir do Rio de Deus. E onde quer que ele passe, tudo revive ( Ez.47:9).

A igreja de Cristo não tem o direito de represar o rio da vida. Não somos lagoas de águas paradas, infestadas de micróbios e larvas de insetos. Somos o canal por onde passam as águas do rio de Deus. Deixemos, portanto, que elas desaguem no mundo, a fim de transformá-lo.

Uma religiosidade intimista, circunscrita ao indivíduo e às suas experiências, não poderá romper com os diques. O rio de água viva prometido por Jesus, flui do nosso interior, e não em nosso interior.

O interior do homem é o ambiente de onde as águas transformadoras jorram, mas não é o ambiente onde elas devem desaguar.


(Extraído de www.genizahvirtual.com/2009/10/transtornar-para-transformar.html)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Foi a mim que fizeram"

Recebi um convite para um congresso com o tema:
“O que a igreja tem a dizer sobre sexo?”
A primeira pergunta que me veio à mente foi: a igreja de quem, qual instituição, denominação, de qual pastor, bispo, apóstolo, padre?

Daí eu pensei:
- Espera um pouco, eu também sou igreja, tenho algo a dizer! Será que lá eu poderei fazer as minhas considerações? Será que vou querer ou me sentir à vontade para isso?
Logo me veio uma resposta:
- Saberei apenas se participar!
E outra resposta me balizou pensamentos e questionamentos:
- Mesmo que me abram espaço para comentários e/ou ponderações eu não me sentirei confortável para isso.

De fato, em um congresso não conhecemos todo mundo.
Assuntos como sexo, crises domiciliares, relacionamentos, decepções, mágoas, conquistas devem ser sim discutidos, abordados, destrinchados, é verdade.

É bom saber o que os outros têm a dizer.
Mas o título me soou contraditório.
Porque a igreja tem a dizer algo. Mas para quem? Para ela mesma?
Então não pode ser congresso, conferência, algo do tipo. É um assunto intimista.
Aprendemos desde sempre que igreja é aquele lugar que nos encontramos semanalmente para orações e sermões. Mas a palavra igreja nasceu das reuniões de um povo com a mesma crença. Há uma sensação de que algo está errado. Falta alguma coisa em todo esse movimento causado pela existência da instituição.
Esse buraco aumenta a cada igreja que abre pelo mundo a fora.

Quando os primeiros cristãos começaram a se reunir havia um sentido para os ensinamentos bíblicos: “suportando-vos uns aos outros” ou “confessais as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis” e outros tantos.

Textos como esses dos livros aos Colossenses e Tiago refletem uma realidade não encontrada mais na igreja atual. Ela existia em função da intenção de dividir o pão, de ajuda mútua, de acolhimento, de sentimento comum, de igualdade e da novidade do evangelho, das boas novas.
Aqueles cristãos se reuniam em casas com simplicidade e relacionamento intenso.

Daí, falar de assuntos tão pessoais se torna um pouco mais fácil e natural.
É o caminho para a cura.
A estrutura atual reúne pessoas de todos os cantos da cidade, impossibilitando uma aproximação maior e tornando o relacionamento dependente da instituição e suas programações. Esse elo é imensamente frágil. É fácil ver pessoas se relacionando mediocremente com outras de bairros distantes. Contudo essa cultura nos impede de conhecermos nossos vizinhos, irmãos em potencial.

Há quem precise de nós debaixo do nosso nariz, seja um familiar ou um morador próximo. Mas nos esquivamos de tal relacionamento em busca do mais cômodo que tem seus intervalos durante a semana.
Não dá para ser suporte para alguém dessa forma.
O mecanismo das reuniões religiosas mais tradicionais existe em função apenas de uma coisa: a arrecadação de fundos.
Uma liturgia secular que foi criada e bem pensada para que, ao final, todos os participantes possam contribuir.
Introdução, sermão, comunhão e tudo isso apenas para a arrecadação.
O resto é adereço puro.
Momento de cânticos, avisos, participação dos fieis, entre outros.

Efésios nos ensina que Cristo nos deu dons especiais que devem ser usados para o crescimento do povo no conhecimento das promessas de Deus. Conta que Ele escolheu uns para apóstolos outros para profetas, evangelistas, pastores, mestres. A fim de que todo o corpo permaneça “bem ajustado, ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, fazendo o aumento do corpo, para a sua edificação em amor.”

O que existe hoje é uma figura de santidade conhecida e chamada de “Reverendo”. Este é o responsável pela palavra nas reuniões. É também o líder.

O texto de Efésios explica que os dons específicos existem para que a nossa fé seja uma só e para que não andemos mais como crianças, mas com maturidade no que cremos.

Sem mais, lendo as escrituras eu entendo que igreja é quando nos relacionamos com os que convivem conosco, moram próximo de nós, ricos, pobres, de diferentes classes sociais.

É quando nos importamos com as deficiências do nosso bairro, com a pobreza, com a desigualdade.

É quando promovemos algo que gera frutos, que faz a diferença.

É quando estabelecemos um relacionamento de irmãos com os mais próximos e nele possamos compartilhar de verdade, sem reservas, sem intervalos, ser suporte, crescendo juntos.

É quando na nossa casa promovemos reuniões naturais de convívio com o objetivo de amadurecimento espiritual, oração em comunidade, ajuda para os que necessitam acolhimento, multiplicação de amor, sem hora para começar nem terminar, sem oração para iniciar e finalizar.

É quando vivemos as palavras de Jesus ao dizer: Pois eu estava com fome, e vocês me deram comida; estava com sede, e me deram água. Era estrangeiro, e me receberam na sua casa. Estava sem roupa, e me vestiram; estava doente, e cuidaram de mim. Estava na cadeia, e foram me visitar.

Então os bons perguntarão: "Senhor, quando foi que o vimos com fome e lhe demos comida ou com sede e lhe demos água? Quando foi que vimos o senhor como estrangeiro e o recebemos na nossa casa ou sem roupa e o vestimos? Quando foi que vimos o senhor doente ou na cadeia e fomos visitá-lo?"

Aí o Rei responderá:
- "Eu afirmo a vocês que isto é verdade: Quando vocês fizeram isso ao mais humilde dos meus irmãos e irmãs, foi a mim que fizeram."

leo r.

sábado, 17 de outubro de 2009

O AUTOR DA VIDA



O AUTOR DA VIDA

Baseada nos textos - Artigo 35 e “Por quê?” de autoria da psicóloga Gláucia Telles em “Espaço de Vida” www.myeloma.org.br - eu gostaria de expressar algo a respeito, não como mero discurso e menos ainda tentando alcançar o jargão da psicologia nem tampouco registrar algo de cunho hermenêutico.
Longe de mim a pretensão desse último (principalmente!)
Até porque não tenho cacife pra isso e nem tenho mais a idade dos “Eliús” que cruzam nosso caminho.

Mas tenho sim, - isso eu não nego!- a empolgação típica do meu temperamento apaixonado, porém buscando alcançar a moderação que amadurece e nos leva a dosar essa coisa precipitada e visceral, abrindo os olhos para enxergar as mesmas paragens sobre outra ótica.

Ouso fazer uma breve colocação, a partir do que minha família e eu temos vivido no processo doloroso dessa doença, embora consciente de que cada um deles tem a sua particular maneira de absorver tal processo, conforme conceitos e valores próprios.
Afinal, temos por presente dos céus, o fato de sermos únicos, diferentes e especiais.
Cada qual com as suas particularidades.
(E claro, sem serem descartadas as similaridades que certamente promovem as afinidades).

Pois bem...
Nos dois textos, há pelo menos três colocações da autora que me chamaram um pouco mais a atenção e me levaram à reflexão.

Em primeiro lugar, a marcante expressão inicial no texto onde ela diz:
brincando, brincando...

Aparentemente casual... Mas uma incrível expressão que traduz de forma clara e límpida o que vivenciamos, pois era exatamente assim que acontecia em meio a questionamentos silenciosos que gritavam dentro do peito onde batia com força o coração de cada um, desde que a notícia nos veio como uma bomba!
Depois nas fases seguintes, marchando perplexos ao lado do meu irmão para realização de exames, consultas, rádios, químios, internamentos...
Exames, marcação de consultas, consultas, exames, internamentos...
Esperas... longas esperas!
Marcando cada passo no exercício de algo maravilhoso que fluía em cada momento de modo quase imperceptível : a paciência.
Na fase mais crucial, que era a da contagem dos leucócitos novinhos...
Nas noites mal dormidas que antecediam dias claros e exigiam firmeza nos pés...
A dor nos acometia de todos os lados.
A ele, fisicamente e tudo o mais na sua forma mais dorida, creio eu. Mas em silêncio desconcertante.
Em nós, era um “tudo o mais” bem mais brando. Só que... doía demais!
Mas brincávamos!
E como brincávamos!
Orávamos, chorávamos, ficávamos tristes... mas brincávamos.
Era um estranho mix de todas as emoções vividas da forma mais intensa e verdadeira como nunca havia sido antes.

É como se fosse um vendaval que ao se aproximar, se olha e se visualiza sua dimensão num turbilhão de incredulidade e assustadora vulnerabilidade, certo de alcançar seu centro sem tardar, tudo dentro de uma inexplicável seqüência que vai do choro na dificuldade ao gozo do re-equilibrar em pleno redemoinho.

E o mais interessante de todas as seqüências inexplicáveis: uma incrível aprendizagem com o próprio paciente!

E é inevitável vir à minha mente o que ousavam dizer os “amigos” de Jó acerca das razões de Deus permitir aflições, usando abundantemente o jargão teológico, MAS cruelmente distorcido e incompleto.

Então, num impulso sarcástico, eu me pergunto se o discurso mudaria com a famosa pimenta no próprio olho.

Aí vem Deus no final de toda falácia, e na Sua misericórdia e soberania, diz:

“O meu servo Jó orará por vós; porque dele aceitarei a intercessão,
para que eu não vos trate segundo a vossa loucura;
porque vós não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.
(Jó 42.8b)


Inclusive posso enxergar no livro de Jó toda a seqüência que os psicólogos chamam de sucessão de fases.
Ele ficou doente “de repente”, passou pelo famigerado “por que” amaldiçoando a própria existência, silenciou diante das falsas acusações de quem assistia confortavelmente de camarote com seus discursos dúbios e totalmente desprovidos de compaixão e esperança.
Enfim, mostrou-se tão incapaz de segurar a onda, chegando a pedir que Deus lhe tirasse a vida!

Ele teve direito a tudo isso e mais alguma coisa no que diz respeito ao sofrimento em todas as suas variáveis!
Ele tinha até uma mulher-mala! Porque – convenhamos!!! – quem tem uma mulher como aquela não precisa de inimigo!

A segunda coisa que me chama a atenção é acerca de palavras originalmente saídas da boca de Jesus e que, com o passar do tempo, recebem outras formas literárias ecoando em vozes de poetas inspirados, PORÉM com o mesmo sentido de Novidade em cura e libertação da alma.
Na representação metafórica do cálice, o que eu acho interessante é que Ele diz:
SE queres!
E em seguida, ora:
“Contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua”
Então, lhe apareceu um anjo do céu que o confortava.

Pedir para afastar um cálice amargo é normal, é humano e ali estava explícita a perfeita humanidade de Jesus, quando Ele antevia/vivia o início da sua agonia.

A lição que eu tiro é a de uma seqüência de total e irrestrita DEPENDÊNCIA e CONFIANÇA, apesar das circunstâncias:

- “se queres...”
- “faça-se a tua vontade”
- conforto na dor.

Minha terceira e limitada abordagem é sobre a depressão, e que, segundo a psicologia diz respeito ao ápice da doença e também conforme tenho lido por aí, trata-se de uma má vontade psíquica onde o estado de esgotamento está diretamente relacionado com a afetividade.
Mas cada caso é um caso é um clichê que cabe perfeitamente aqui e eu não quero entrar no mérito da questão, por ser amplo e específico.
O que eu quero ressaltar é justamente o que disse a autora do texto em relação à aceitação, e eu entendo que não é aceitação da doença de forma passiva, mas reagindo em meio à depressão, como fato, como realidade e, acima de tudo, como fase determinante que impulsiona a cura.

O que a minha esperança sempre me diz é que, analogamente, essa depressão é o deserto, para onde levou aquele vendaval, no qual o caminho é árido e a caminhada é pra dentro de si mesmo, em meio a tempestades de areia que chacoalham e redefinem conceitos e valores, relacionamentos e decepções, medos e inseguranças, conduzindo ao oásis de uma nova existência, onde no avesso do redemoinho adquire-se nova visão.

Não aquela visão limitada e retórica dos Eliús de plantão e que se acham embaixadores de Deus, mas uma visão NOVA só alcançada pelo coração de quem foi refinado por Mãos Especiais.
Pois só um coração despedaçado conhece uma verdadeira intimidade com o Pai.
Aquela intimidade que restaura o coração imprimindo nele o Seu Amor!
E promove a paz que excede o entendimento que nos reconcilia com o mundo.
E nos acalma o coração.

Regina Farias

(Postado em http://www.myeloma.org.br/paciente.php?PAG=10&O=)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Gênesis do Apocalipse

Gênesis e Apocalipse se parecem muito, pois, tanto o princípio quanto o fim, mostram as mesmas coisas, apenas em escalas diferentes.
Deus não tem que fazer nada para julgar o mundo.
Ele criou todas as coisas como Natureza; ou seja: como aquilo que é um sistema de auto-renovação, e evolução em total adaptabilidade.
Portanto, aquilo que como natureza é vida, também pode ser morte e auto-extinção; pois, se caminha sem intervenções conscientes, vai sempre na direção da adaptação e da reinvenção de si mesma; todavia, quando sofre intervenções conscientes, como a dos humanos, o ciclo natural se quebra, e a natureza desvanece sob nossas vaidades contra ela.
E mais!
Ela se torna mutante contra nós: nascem cardos e abrolhos; e os partos se enchem de dores, o mundo se complexifica com roupas e coberturas, e o trabalho exaustivo de lavrar a terra com o suor do rosto, acabou por, no curso dos milênios, gerando o quadro anti-natural que hoje se vê.
O fato é que homem e natureza não conseguem se entender; ou melhor: o homem, de um modo geral, nunca enxergou, discerniu ou compreendeu sua dependência fundamental daquilo que se chama Natureza.
Na realidade, é que a capacidade de vê-la “de fora” — que é o que acontece com o homem —, dá a ele a falsa idéia de que como ele a enxerga, ele não faz parte dela.
Como se natureza fosse apenas a parte da criação que não manifesta consciência própria.
De fato, a Natureza não tem consciência individual.
Todavia, o sistema natural carrega um poder vital inconsciente; o qual, como sistema, é capaz tanto de acolher a harmonia, quanto também tem o poder de abalar, numa revolta que cresce na medida do agravo que contra ela é perpetrado.
No Gênesis é o encontro do homem com uma Natureza Proibida aquilo que o faz cair.
Deus não fez nada.
Foi a Natureza das coisas — “nossa” e da “natureza” —, aquilo que aconteceu como ira de Deus que julgou os homens; isso pela violação da Natureza Proibida.
Assim, foi o homem quem criou sua própria queda, quando decidiu entrar na Natureza Proibida.
Poder comer de tudo, “menos de uma Árvore”, que era de Conhecimento do Bem e do Mal, era poder perceber que há um limite do homem na própria Natureza.
O mais foi desconstrução espiritual e psicológica que a invasão- pelo homem- da Natureza Proibida, gerou tanto na Natureza quanto no próprio homem.
Pois, na mente, a Natureza das coisas é que a mente seja governada pela própria natureza da mente.
E esta é, mais que tudo, psicológica.
Dessa forma, a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal não existia como tal fora do homem, mas apenas na natureza de sua própria mente.
Nesse sentido, pode-se dizer, que nós fazemos sempre, como seres que existem da e na Natureza, aquilo que será nossa própria morte e juízo, sempre que em nossa natureza mental deixamos de obedecer nossos limites na Natureza.
No Apocalipse é assim também.
A natureza faz todo o trabalho de juízo conforme o padrão contra ela praticado, apenas porque não sendo ela mesma e sem intervenções anti-naturais (coisa que somente o homem consegue realizar), sua natureza, nesse caso, é se desconstruir; posto que sua harmonia é em si tão grande, que todas as alterações que nela são feitas, acabam por se transformar numa espécie de desígnio do caos.
“Os poderes são abalados!”
No Apocalipse, a maior parte dos juízos são naturais; e são revoltas dos céus agindo na natureza aquilo que carrega a “ira do Cordeiro”.
Daí o Apocalipse ser todo marcado por catástrofes naturais no ar, no mar, nos rios, na vegetação, e mediante catástrofes que sacodem a Terra de seu eixo.
De fato três são as denúncias do Apocalipse:
. Contra os que não adoram ao Cordeiro - antes se entregam aos domínios das Bestas humanas e seus sistemas de domínio e morte.
. Contra os que escravizam e manipulam a alma dos homens
. E contra os que destroem a Terra.

O fato é que a “ira do Cordeiro” apenas deixa que os “anjos da natureza” (dos rios, dos mares, do ar, e das vegetações—todas essas menções feitas no próprio texto do Apocalipse), potencializem aquilo que sistematicamente os humanos praticam contra a Natureza; ou, no dizer bíblico mais comum, contra a criação.
Assim, no começo, a desgraça se deflagra a partir da invasão humana da Natureza Proibida. E, no final, é uma espécie de revolta sistêmica e ecológica aquilo que carrega o juízo do Cordeiro sobre a raça humana.
Foi a invasão da Natureza Proibida aquilo que tirou do homem toda a capacidade de ser parte da natureza, posto que uma vez que ele comeu da Natureza Proibida, ele foi tomado pelo surto de, como Deus, não ser parte da Natureza; e, assim, a violentou “de fora”, esquecido de que ele é Natureza também, e depende dela para ser quem é na Terra.
Desse modo, a presente devastação é apenas a manifestação com cara apocalíptica do estender de mão que um dia comeu e interveio na Natureza Proibida.
O tal Conhecimento do Bem e do Mal foi o que nos desconectou do sentido natural da vida.
Desse modo, o comer de uma árvore foi o que nos levou a destruir quase todas elas; assim como foi a invasão da Natureza Proibida aquilo que hoje nos volta como Veto da Natureza contra a presença humana na Terra.
A Natureza está gemendo.
Fenômenos como o Tsunami e o Katrina, são apenas os primeiros espasmos de um parto que a Natureza não sabe como evitar, pois, esse filho ela quer abortar.
Jesus chamou isto de “princípio das dores”.
E, sem dúvida, não havendo um arrependimento em relação a Deus, ao que o homem faz ao homem, e quanto ao que ele mesmo faz à Natureza, o resultado inevitável, sem mão divina, mas apenas como conseqüência do homem ser como ele é —, é o próprio juízo que hoje já todos vislumbram.



(extraído de www.caiofabio.com)

domingo, 30 de agosto de 2009

Neemias

NEEMIAS - um dos maiores modelos de liderança que já existiu!

Através de um exaustivo trabalho, este homem liderou não apenas a reconstrução física de uma cidade, mas também a restauração espiritual de um povo, lidando sabiamente com a oposição ferrenha dos inimigos e as inevitáveis guerras espirituais que enfrenta aquele que está realizando uma obra de Deus.
Para tanto, ele se utilizou de 3 ferramentas básicas: oração, fé e trabalho.

Em primeiro lugar, Neemias era um homem de oração.
De torpedos (Ne2.4)até à oração mais longa registrada na Bíblia (Ne9), ele orou em confissão e arrependimento; em louvor e adoração; em súplica na fraqueza; e em petição.
Acima de tudo, ele desejava mais a aprovação de Deus do que de homens.
Já ouvi algumas pessoas “religiosas” falarem:
- “Não tem como misturar Deus com empreendimentos”,
Ou
- “Como assim, vida espiritual e negócios?!”
A clara visão que tenho é que não há como dissociar Deus disso ou daquilo na minha vida. Afinal, Ele está no controle de tudo.
Pelo contrário: hoje eu não consigo visualizar uma forma de “NÃO MISTURAR”.
Aliás, seria pretensão minha ousar alcançar essa façanha!
Ora, Deus está presente em TUDO. Não há como desvincular.
E é justamente por esse des –vínculo que sofremos avarias nas nossas jornadas; por causa dessa tremenda “dificuldade” em manter o equilíbrio adequado entre o controle soberano de Deus sobre o Universo e a nossa responsabilidade humana.

A verdade é que, como temos uma enorme atração pelos extremos, geralmente oramos e “deixamos nas mãos de Deus” ou então procuramos resolver pelas nossas próprias forças.

Quando Neemias, indagado pelo rei, fez sua oração expressa, (2:4,5) não imaginava receber mais do que pedira: além de permissão para ir, e também para atravessar todos as fronteiras sem problemas, ainda foi escoltado por oficiais do Rei! (Ne 2.9)

Essa é a maior lição que aprendemos com Neemias: a inabalável confiança em Deus!
Ele nos dá uma aula completa de liderança, restaurando não apenas os muros, mas também a vida espiritual, social e econômica do seu povo, expondo, em princípio, uma qualidade imprescindível em um líder - nobreza de caráter – já que não era uma tarefa de cunho particular, considerando ainda, que junto ao rei ele levava uma vida muito confortável.
E mesmo sabendo que durante quase 150 anos ninguém fora capaz de realizar aquela tarefa e que iria enfrentar enorme oposição (2.10), ainda assim não esmoreceu!

Seu maior desafio, na verdade, foi enfrentar um povo cabisbaixo, desanimado. (2.17) E, apesar do confronto inicial (2.19) ele conseguiu transformar o desespero em esperança, transmitindo-lhes confiança, pois a poderosa mão de Deus estava com ele.
E aí vem aquele questionamento anterior: a capacidade dada por Deus e a realização humana para cumprir tarefas ante uma visão equilibrada de ação, precaução e confiança.
E assim, foi dado início a um grande mutirão.(2.18)
Estrategicamente, Neemias determinou que as pessoas trabalhassem “defronte de suas casas”, o que incentivava cada um a fazer um bom trabalho, visto que beneficiaria a si mesmo e à própria família, influenciando inclusive, na rapidez com que os muros iam sendo levantados; também delegou poderes aos que moravam mais distante(3:2,5,7). Foram distribuídas tarefas mais específicas, como foi o caso da tarefa especial no cap3 versículo1, que apesar de não haver evidências ilustrativas, trata-se de uma tarefa exclusiva para aquelas pessoas, já que era através daquela porta que os animais eram trazidos ao templo para o sacrifício referente à antiga aliança. (ler Levíticos).
Num tremendo desafio que levantou pessoas de todas as idades- inclusive mulheres- e pessoas com experiências de vida as mais diversas, ele conseguiu desenvolver um trabalho cooperativo super-eficaz, convocando até os maiorais, líderes de grande respeito que ocupavam grandes posições. ( Ne 3: 9,12,14,19 )
Outro ponto que o qualificava como líder era o mesmo conhecer a todos pelo nome. (Cap3).
Algo também me chama à atenção de maneira muito forte: a disposição das pessoas em equipes, grupos, ou, no mínimo, um auxiliar, pois Neemias sabia que um trabalho exaustivo traria desânimo em dado momento, então sabiamente, ele assim planejou, de modo que uns se apoiassem em outros.
Observe-se o número de expressões que indicam proximidade no capítulo 3:
junto a ele, junto deste, junto a estes, junto deste, ao seu lado, a cujo lado, etc.
Aliás, poucos líderes tiveram sucesso agindo sozinhos. Moisés tinha Arão ao seu lado, e mais tarde, Josué. Josué tinha a Calebe; Elias tinha a Eliseu; Pedro tinha a João. Paulo tinha a Barnabé e mais tarde, Silas.
Com Neemias não foi diferente. Foi Esdras quem preparou o caminho para o sucesso alcançado por ele, utilizando não pedras ou tijolos, mas a Lei de Deus. (Ed 7.10)
Sem essa preparação espiritual, não haveria a reconstrução do muro!
Numa clara e efetiva demonstração de que os princípios usados em sua vida foram profundos, poderosos e práticos, esse grande homem de oração realiza sua tarefa em meio a enorme adversidade, marcada por opressões e ciladas de inimigos que tentavam dissuadir o povo, apontando para a difícil tarefa à frente ( cap 4), usando de inúmeras táticas que iam de pressão psicológica (4:1,2) a planos de ataques físicos, preparados se não para tirar a vida de Neemias, pelo menos para comprometer sua eficiência como líder (Ne 6.2,13 – ver Nm18.7) e assim enfraquecer e destruir o trabalho, como já havia acontecido em tentativa anterior. ( Ed 4)



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Extraído do livro: Neemias- um modelo de liderança - Gene Getz.
E da bíblia de estudos: A Bíblia da Mulher –Ed Mundo Cristão-SBB
(Texto adaptado por RF)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

That is it

Não teve jeito, até que resisti, mas aqui estou falando também sobre ele.
O certo é que sempre tive dificuldade em lidar com qualquer tipo de homenagem, com palco, com aplauso, com holofotes, muito oba-oba... mesmo tendo alma essencialmente apaixonada.
Acho tudo isso muito estranho, por mais que admire e/ou me identifique com o homenageado.
Homenagem póstuma, então... acho meio que forçação de barra maior ainda, sei lá, algo cheirando/beirando a hipocrisia.
Entretanto, excepcionalmente desde ontem à tardinha eu (quase)não desgrudo da TV.
Muito emocionada, já dei minha chorada discreta pelos cantos, pressão subindo(também por causa das dores na coluna que remédio não dá conta)tudo isso sugestionada em meio à comoção geral, ouvindo constantemente várias expressões de pesar das mais diversas pessoas, nada lendo a respeito, só vendo e ouvindo todo tipo de definição e mesmo concordando com cada uma delas, sempre ficava um vácuo, como se faltasse algo que definisse essa pessoa para mim.
Eu queria algo mágico mas sem muito rodeio.
Algo sem muito floreio mas que sintetizasse o que ele é, mesmo indo...
Foi quando ouvi o João Marcelo Bôscoli pronunciar exatamente as palavras que eu queria ouvir de lá de dentro de mim mesma.
"O Michael é uma delícia!É como se fosse um refrigerante bem gelado!"
É isso!

A LUA QUE NÃO DEI


Compreendo pais - e me encanto com eles - que desejariam dar o mundo de presente aos filhos. E, no entanto, abomino os que, a cada fim de semana, dão tudo o que filhos lhes pedem nos shoppings onde exercitam arremedos de paternidade. E não há paradoxo nisso. Dar o mundo é sentir-se um pouco como Deus, que é essa a condição de um pai. Dar futilidades como barganha de amor é, penso eu, renunciar ao sagrado.

Volto a narrar, por me parecer apropriado à croniqueta, o que me aconteceu ao ser pai pela primeira vez. Lá se vão, pois, 45 anos. Deslumbrado de paixão, eu olhava a menina no berço, via-a sugando os seios da mãe, esperneando na banheira, dormindo como anjo de carne. E, então, eu me prometia, prometendo-lhe: 'Dar-lhe-ei o mundo, meu amor.' E não lhe dei. E foi o que me salvou do egoísmo, da tola pretensão e da estupidez de confundir valores materiais com morais e espirituais.

Não dei o mundo à minha filha, mas ela quis a Lua. E não me esqueço de como ela pediu, a Lua, há anos já tão distantes. Eu a carregava nos braços, pequenina e apenas balbuciante, andando na calçada de nosso quarteirão, em tempos mais amenos, quando as pessoas conversavam às portas das casas. Com ela junto ao peito, sentia-me o mais feliz homem do mundo, andando, cantarolando cantigas de ninar em plena calçada. Pois é a plenitude da felicidade um homem jovem poder carregar um filho como se acariciando as próprias entranhas. Minha filha era eu e eu era ela. Um pai é, sim, um pequeno Deus, o criador. E seu filho, a criatura bem amada.

E foi, então, que conheci a impotência e os limites humanos. Pois a filhinha - a quem eu prometera o mundo - ergueu os bracinhos para o alto e começou a quase gritar, assanhada, deslumbrada: 'Dá, dá, dá...' Ela descobrira a Lua e a queria para si, como ursinho de pelúcia, uma luminosa bola de brincar. Diante da magia do céu enfeitado de estrelas e de luar, minha filha me pediu a Lua e eu não lhe pude dar.

A certeza de meus limites permitiu, porém, criar um pacto entre pai e filhos: se eles quisessem o impossível, fossem em busca dele. Eu lhes dera a vida, asas de voar, diretrizes, crença no amor e, portanto, estímulo aos grandes sonhos. E o sonho da primogênita começou a acontecer, num simbolismo que, ainda hoje, me amolece o coração. Pois, ainda adolescente, lá se foi ela embora, querendo estudar no Exterior. Vi-a embarcar, a alma sangrando-me de saudade, a voz profética de Kalil Gibran em sussurros de consolo:

'Vossos filhos não são vossos filhos, mas são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Eles vêm através de vós, mas não de nós. E embora vivam convosco, não vos pertencem. (...) Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.'

Foi o que vivi, quando o avião decolou, minha criança a bordo. No céu, havia uma Lua enorme, imensa. A certeza da separação foi dilacerante. Minha filha fôra buscar a Lua que eu não lhe dera.

E eu precisava conviver com a coerência do que transmitira aos filhos: 'O lar não é o lugar de se ficar, mas para onde voltar.'

Que os filhos sejam preparados para irem-se, com a certeza de ter para onde voltar quando o cansaço, a derrota ou o desânimo inevitáveis lhes machucarem a alma. Ao ver o avião, como num filme de Spielberg, sombrear a Lua, levando-me a filha querida, o salgado das lágrimas se transformou em doçura de conforto com Kalil Gibran: como pai, não dando o mundo nem Lua aos filhos, me senti arqueiro e arco, arremessando a flecha viva em direção ao mistério.

Ora, mesmo sendo avós, temos, sim e ainda, filhos a criar, pois família é uma tribo em construção permanente. Pais envelhecem, filhos crescem, dão-nos netos e isso é a construção, o centro do mundo onde a obra da criação se renova sem nunca completar-se. De guerreiros que foram, pais se tornam pajés. E mães, curandeiras de alma e de corpo. É quando a tribo se fortalece com conselheiros, sábios que conhecem os mistérios da grande arquitetura familiar, com régua, esquadro, compasso e fio de prumo. E com palmatória moral para ensinar o óbvio: se o dever premia, o erro cobra.

Escrevo, pois, de angústias, acho que angústias de pajé, de índio velho. A nossa construção está ruindo, pois feita em areia movediça. É minúsculo o mundo que pais querem dar aos filhos: o dos shoppings. E não há mais crianças e adolescentes desejando a Lua como brinquedo ou como conquista. Sem sonhos, os tetos são baixos e o infinito pode ser comprado em lojas. Sem sonhos, não há necessidade de arqueiros arremessando flechas vivas.

Na construção familiar, temos erguido paredes. Mas, dentro delas, haverá gente de verdade?

(Cecílio Elias Netto é escritor e jornalista)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Reflexão para o dia dos namorados

A IMPORTÂNCIA DO AMOR


A INTELIGÊNCIA, SEM AMOR, TE FAZ PERVERSO.

A JUSTIÇA, SEM AMOR, TE FAZ IMPLACÁVEL.

A DIPLOMACIA, SEM AMOR, TE FAZ HIPÓCRITA.

O ÊXITO, SEM AMOR, TE FAZ ARROGANTE.

A RIQUEZA, SEM AMOR, TE FAZ AVARO.

A DOCILIDADE, SEM AMOR, TE FAZ SERVIL
.
A POBREZA, SEM AMOR, TE FAZ ORGULHOSO.

A BELEZA, SEM AMOR, TE FAZ FÚTIL.

A AUTORIDADE, SEM AMOR, TE FAZ TIRANO.

O TRABALHO, SEM AMOR, TE FAZ ESCRAVO.

A SIMPLICIDADE, SEM AMOR, TE DEPRECIA.

A ORAÇÃO, SEM AMOR, TE FAZ INTROVERTIDO E SEM PROPÓSITO.

A LEI SEM AMOR, TE ESCRAVIZA.

A POLÍTICA SEM AMOR, TE DEIXA EGOÍSTA.

A FÉ SEM AMOR, TE DEIXA FANÁTICO.

A VIDA SEM AMOR... NÃO TEM SENTIDO!

(Autor Desconhecido)
"... sem amor eu nada seria."

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Doenças & Emoções Reprimidas

"Segundo psicólogos do mundo inteiro, todas as doenças que temos são criadas por nós.

Todas as doenças têm origem num estado de não-perdão’, diz a psicóloga americana Louise L. Hay.

Afirma ela, que somos 100% responsáveis por tudo de ruim que acontece no nosso organismo e sempre que estamos doentes, necessitamos descobrir com quem precisamos nos desculpar.
Quando estamos empacados num certo ponto, significa que precisamos indultar mais.
Pesar, tristeza, raiva e vingança são sentimentos que vieram de um espaço onde não houve desculpas.

Portanto, segundo especialistas, desculpas dissolvem o ressentimento.

A seguir, você vai conhecer uma relação de algumas doenças e suas prováveis causas.

Reflita, vale a pena tentar evitá-las.

DOENÇAS / CAUSAS:

Emoções reprimidas, criatividade sufocada, causam amigdalite.
Resistência e recusa em ver o bem no outro, causam arteriosclerose.
Crítica conservada por longo tempo, causa artrite.
Sentimento contido, choro reprimido, causam asma.
Gritos, discussões, causam bronquite.
Magoa profunda, tristezas mantidas por muito tempo, causam câncer.
Medo de aceitar a alegria, causa colesterol alto.
Rejeição ao tipo de vida que tem, causa derrame.
Tristeza profunda, causa diabetes.
Incerteza profunda e sensação de condenação, causam gastrite.
Medo e culpa, causam insônia.
Ressentimento, frustração e ego ferido, causam nódulos.
Prisão ao passado, medo de não ter o suficiente, causam prisão de ventre.
Alimentar mágoa, causa quistos.
Crença em perseguição, causa rinite alérgica.
Crítica, desapontamento, fracasso, causam doença nos rins.
Irritação com pessoa próxima, causa sinusite.
Alimentar mágoas e acumular remorsos, causam tumores.
Crença de não ser bom o bastante, causa úlceras.
Sentir-se sobrecarregado, causa varizes.”
(Recebido por e-mail; autoria não-identificada)

"O coração alegre é bom remédio,
mas o espírito abatido faz secar os ossos."
(Provérbios 17.22)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Imagens Sacras

Evangélicos e outros grupos sociais querem espaços ecumênicos. Promotor disse que vai fazer audiência pública para tomar decisão.O pastor Robson da Silva, presidente da Associação Evangélica Piauiense, entrou com uma representação na Promotoria de Justiça do Piauí para que sejam retiradas as imagens sacras dos prédios públicos do estado.O documento foi entregue ao promotor Edilson Farias, na segunda-feira (17), e tem a assinatura de integrantes de outras nove entidades sociais.
"Queremos a retirada de imagens de santos, pois elas representam apenas uma religião, e transformar os espaços públicos em templos ecumênicos", disse o pastor.O promotor afirmou que vai fazer uma audiência pública para avaliar o pedido, mas entende que a representação é coerente. "O símbolo da Justiça é uma deusa cega, portanto, todos devem ser iguais e ter os mesmos direitos. Todos esperam que o Estado seja laico. Se há figuras representativas de apenas uma religião nos espaços públicos, entendo que isso não ocorre com objetivo de agredir uma ou outra religião", disse Farias.Para ele, a presença das imagens sacras, principalmente em prédios da Justiça, faz parte da cultura do país.
"Estamos em um dos países com o maior número de católicos no mundo. É até natural que existam essas imagens de santos nos plenários, nos tribunais e nos fóruns. Vamos analisar a representação e ver o é possível ser feito para oferecer um espaço que contemple todas as religiões", disse o promotor.
G1/Notícias Cristãs

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Há muito tempo eu queria escrever algo relacionado a imagens e hoje me inspirei lendo essa matéria, pois convivo com muita gente exatamente assim com esse perfil e que se sente muito incomodada na presença de imagens ditas sacras (lat. sacru = sagrado); e o que sempre me intrigou foi esse incômodo extremamente visível, como se tais imagens tivessem o poder de alcançá-las com uma ação maléfica de forma contundente.

Tenho percebido que se trata de algo muito paranóico por ser diretamente ligado a um medo infundado cravado na alma por des-orientadores doutrinários, especialistas em manipular textos sem contextos e assim neutralizar/distorcer/anular/reprimir valores e convicções pessoais do seu rebanho, acendendo e/ou reacendendo crendices e superstições culturais e religiosas. Falo de cátedra, pois houve uma época em que prosélitos legalistas quiseram imprimir essa neurose em meu coração e eu não permiti, repudiando com veemência embora à época não soubesse bem o porquê. Nessa mesma época, uma amiga evangélica, dita bem informada, psicóloga, mas terrivelmente presa à doutrina denominacional, não usava vela de jeito nenhum, não tinha quem a obrigasse. Viajava tanto nos ensinamentos adquiridos na escola dominical, que já adulta podia faltar luz elétrica à vontade, mas a casa dela ficava no escuro! Afinal, vela é o povo católico que acende pra santo e Deus- a própria Luz- não precisa dela.
Tanta confusão naquela alma tão querida me intrigava e eu imaginava em que momento se deu o início dessa prisão voluntária a um ser essencialmente pensante.

Voltando ao texto acima, percebe-se claramente na colocação do próprio evangélico o reconhecimento de que o símbolo da Justiça é uma deusa.
Embora "cega" ... É uma deusa!
(Uma deusa grega mas nossa herança no Direito tem origem romana, vale lembrar.)
Porém essa deusa não incomoda... Por ser laica!
Inclusive ele até a aceita... Por ser ela imparcial!
Ainda que seja uma deusa representada por uma simbologia que remonta a mitologia grega... Pode reinar tranquilamente!

Eis o paradoxo!
Ora, se ela, enquanto deusa da mitologia grega, dita normas de direitos iguais, então ele - como porta-voz de um grupo específico - não estaria sendo confuso e contraditório em suas convicções e argumentações?
E também com aquela imagem - a imagem da deusa - não havia nenhum problema, pois estando ela vendada não incomoda? Sendo assim, é ele mesmo quem atribui vida às que não estão vendadas.?

Senão... Por que essas imagens em espaços públicos o perturbam tanto?
Ora, o bom senso me diz que se de fato, ele tem convicção de que tais imagens não representam nada, naturalmente ele as ignore. Simples assim.
Ou então... Que convicção é essa que se abala com uma simples presença inerte?
Não estaria ele mesmo vendado em sua própria alma?

São questionamentos que me trazem à memória situações flagrantes onde algumas pessoas se percebem visivelmente perturbadas com a presença de certas imagens, chegando a evitar/repudiar lugares com as tais. Aliás, o evangélico é radical, rígido, rigoroso, sempre seguindo a linha anti-católica que o coloca permanentemente de sobreaviso, julgando tudo como a clássica maldição ora resultante de ensinamentos legalistas.

Falo anti-católico porque é com a ICAR que ele se sente ameaçado, já que esta é a denominação que iniciou cultural e religiosamente a nossa sociedade. Ele é anti-católico, ou seja, não cultua as coisas ditas católicas, mas lê e aprecia livros espíritas, consulta tarô e numerologia, assiste e deleita-se quase com devoção assídua a novelas que enfocam adoração a deuses exuberantes que enchem a vista com suas belezas e atrativos coloridos. Se fosse para filtrar e reter o que é bom eu diria que viria de uma mente sã, mas tudo isso só acrescenta mais conflito, mais dúvida, mais receio e mais... Contradição!

É tanto, que a ênfase para o rótulo de evangélico no texto em questão me leva a constatar mais uma vez que os evangélicos se ofendem com tudo, os melindres estão sempre à flor da pele levando tudo para o lado pessoal, agindo como se o mundo estivesse o tempo inteiro conspirando contra eles em paradoxo desconcertante ao que dizem de si mesmos como irrepreensíveis e cheios de entendimento.
O que qualquer criança de seis anos entende claramente como reflexo de uma auto-estima extremamente avariada, em outras palavras eu diria ser fruto de uma alma profundamente adoecida.

No texto acima destaca-se o apelo de que todos esperam que o Estado seja laico, mas que reflete mesmo é o achismo de uma minoria que realmente acredita que ali estão imagens puramente religiosas que têm algum poder (no mínimo, o poder de incomodar sua visão assustada) quando tais imagens são mera arte sacra, fruto de uma cultura católica que, de fato, nunca perdeu a oportunidade de fazer a velha apologia velada e tendenciosa através da arte, mas que nada dizem à consciência.

Observe-se ainda que seu maior receio é ver lugares públicos transformados em templos ecumênicos.
Ora, são muitos os apelos.
Mas... e daí? Se titubeamos diante de qualquer ameaça nos firmamos em quê exatamente?
Por que esse receio? Ele não tem suas próprias convicções?
Afinal a fé não é fincada em nada que se veja ou em paredes que se pegue e menos ainda em nada absolutamente institucionalizado.

Ou será que o Reino que lhe foi pregado tem alguma aparência com o que Herodes temia perder?

Isso me faz lembrar o comentário sem nexo e total expressão de pavor que presenciei no rosto de uma denominacional convicta quando se atribuiu ao atual representante da ICAR em dia de ovo virado, a afirmação bombástica de eliminar as igrejas evangélicas da face da terra. Aquilo me intrigou e me fez perguntar a mim mesma onde estaria o Deus daquela mulher tão apavorada.

Portanto em vez de temer tanto essa iminente e perturbadora fusão, ele devia acalmar o coração e relaxar, pois que esse ecumenismo proposto é uma questão bem mais política não refletindo exatamente a sua consciência. Ou reflete?
Aí eu pergunto qual o ato mais "nobre": o do manipulador (político) ou do segregador(religioso)?

O que eu vejo é que algumas denominações tendem a doutrinar os seus fiéis de forma equivocada e perigosa, colocando a velha canga do proselitismo, induzindo-os a não pensar por si e fazerem acreditar que o mundo (citado metaforicamente por Jesus no NT e pelos autores das cartas) é um espaço físico.

Seria interessante/urgente ele rever os ensinos e doutrinas que lhe foram impostos para, a partir daí reformular conceitos e definições que o levaram a tanta neurose. Sim, porque o Evangelho da Graça é para nos proporcionar a plenitude que nos leva a experimentar paz e serenidade em meio às diversidades com as quais convivemos e não para formar cidadãos covardes que tremem diante de imagens.

A aliança que Deus fez com o homem por meio da Cruz nada tem a ver com essa entrega maluca; essa entrega cega ao deus-denominação que oprime e destrói a essência do ser, levando-o a experimentar emoções, arrepios e sensações esquisitas que enganam o próprio coração, angustiando-o.
Ora, aquele que crê descansa no amor de Deus!
E a paz que excede todo o entendimento instala-se em seu coração de tal maneira que toda angústia de ser-e viver-e estar em meio a imagens ameaçadoras é substituída pela alegria e serenidade de se saber que se vive, não em consciência coletiva cauterizada que distorce e asfixia, mas conforme A Verdade que liberta.

RF



Gente humilde

Gente humilde
Composição: Vinícius / Chico Buarque / Garoto

Tem certos dias

Em que eu penso em minha gente

E sinto assim

Todo o meu peito se apertar

Porque parece que acontece

De repente

Como um desejo de eu viver sem me notar

Igual a tudo, quando eu passo

Num subúrbio

Eu muito bem, vindo de trem

De algum lugar

Aí me dá uma inveja

Dessa gente

Que vai em frente

Sem nem ter com quem contar

São casas simples

Com cadeiras na calçada

E na fachada, escrito em cima

Que é um lar

Pela varanda, flores tristes

E baldias

Como a alegria que não tem

Onde encostar

E aí me dá uma tristeza

No meu peito

Feito um despeito de eu não ter

Como lutar

E eu não creio

Peço a Deus por minha gente

É gente humilde

Que vontade de chorar

domingo, 10 de maio de 2009

Dia das Mães

Nesse dia das mães, quero prestar uma homenagem diferente.
Quero homenagear os meus quatro filhos.
Sim, pois sem eles eu nunca teria aprendido a ser mãe.
A ser gente capaz de cuidar de gente pequena.
Gente pequena que vira gente grande e faz a gente criança.

Agradeço-lhes pela dor física do parto natural de um deles e da anestesia dos outros três, que me fizeram ver a importância acerca da existência humana.
A mostrar de forma sutil e gradativa que eles não são meros subprodutos de uma função biológica.
Agradeço-lhes pelo início atrapalhado e inseguro que induz à segurança e serenidade.

Agradeço-lhes por tudo que me tornei... com eles:
Pela consciência da responsabilidade conferida por Deus através de cada um.
Pelas vezes em que tive que decidir pelo rigor e pelas repreensões da disciplina.
Pela oportunidade da tarefa de instruir no dia a dia.

Obrigada pelos filhos que se tornaram.
Por me apoiarem.
Por continuarem me ensinando a ser mãe.

E desse modo exclusivo que só eles sabem:
Na crítica construtiva e amorosa.
No incentivo velado a mudança de atitudes e sábias decisões.
Na seriedade que me faz refletir sobre meus próprios equívocos.
No bom humor constante que reacende o meu.
Na maturidade que me amadurece.
Na alegria que me contagia.
Na energia e disposição que me rejuvenesce.

De vez em quando alguém me pergunta qual meu filho preferido.
E a minha resposta é sempre a mesma.
Deus sabe que é sincera: é como se eu tivesse apenas um filho!

Louvo a Deus pela vida de cada um!

Beijos!

R.



“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará ele”.
(Provérbios 22.6)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Profissão: MÃE

Sempre acordo cedinho pra começar o batente que não é nada fácil - mas tiro de letra rsss- e hoje dei uma de desocupada ficando um tempão colada na janela admirando o início de uma construção que começou por esses dias aqui ao lado.
Imagine a barulhada logo cedo, pois eles não estão pra brincadeira, não.
Ultrapassando os limites legais começam a pancadaria às vezes até mesmo antes das sete da manhã.
Pode uma coisa dessas?!
Enfim...
Lá estava eu observando mais um tapa-visão sendo construído quando meus olhos se desviaram casualmente para o prédio ao lado.
Então eu vi uma cena que me prendeu a atenção fazendo-me refletir e voltar no tempo.
Enquanto uma babá esperava a jovem mãe despedir-se do bebê para ir trabalhar, um pouco mais à frente a colega empurrava um carrinho com outra criança mais ou menos da mesma idade; menos de um ano de idade, com certeza.
Aquela cena carinhosa em que a mãe segurava o filho, retardando sua saída por alguns preciosos minutos e certamente fazendo as recomendações de praxe, mexeu muito menos comigo do que o ato seguinte. Aquele em que, inevitavelmente a mãe sai de cena e a babá segurou a criança.
Caramba...
A forma como ela segurou a criança! Essa cena eu queria ter registrado, publicado, denunciado!
O desleixo, o descuido, o desinteresse, todo aquele contraste com a cena anterior me chocou e naquele momento muita coisa me passou pela mente.
Enquanto as duas babás saíam displicentemente em direção ao playground fiquei pensando nessa coisa muito estranha de ter que ficar longe dos filhos para trabalhar.
Irônica e estranhamente, outras pessoas - geralmente sem nenhum vínculo afetivo com a gente - passam muito mais tempo com os nossos filhos para que nós, mulheres, ajudemos no orçamento.
Outras pessoas assumem o papel dos pais porque o pai e a mãe não têm tempo para o próprio papel.
E assim, mães precisam trabalhar para suprir as necessidades materiais que elas julgam necessárias aos filhos que vão ficando numa espécie de orfanato particular.
Então eu volto no tempo e agradeço a Deus por ter tido todo o tempo do mundo para ficar com meus quatro filhos pequenos.
E não por falta de ambição ou época de submissão ao macho. Pelo contrário, pois mesmo sendo início dos anos oitenta, a queima de sutiãs ainda ardia no peito de algumas mulheres inteligentes que mesmo clamando por liberdade, não abriam mão de serem mães presentes.
Orgulhosamente, eu era uma delas, pois também nunca abri mão do uso do bom senso e da lucidez que Deus me deu.
É claro que podia ter usado todo meu potencial para ser alguém no mundo profissional, afinal ao casar aos vinte e um anos, cheia de energia e de planos, trancara matrícula de curso de
Odontologia que eu adorava fazer e cursava há quase dois anos.
Poderia perfeitamente correr atrás de mais dinheiro para aumentar a renda e usufruir mais e mais coisas.
Mas resolvi assumi o meu papel de mãe em tempo integral. E vejo hoje claramente o quanto valeu!
E agradeço a Deus!
Analogamente - e de modo inevitável - volto à construção acima, detendo-me nos alicerces, na fundação, na sólida base sendo edificada gradativamente.
No cuidado e no rigor das minúcias que desfazem os equívocos do pseudo-alicerce, driblando transtorno futuro.
Transtorno que muda a ordem natural das coisas; que levanta edifícios sem muita base, com meia fundação.
Algo meio sem fundamento que gera as desconstruções...
RF