"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Ética e moral



Pegando carona na enxuta frase do Ricardo Alexandre (sobre o cabelo em pé sem trocadilhos) eu vejo assim: a natureza humana é diversificada em suas perversões. E por isso, é claro que vai ter sempre quem 'se delicie' com esse tipo de voyeurismo. Que, aliás, está longe de ser algo esteticamente agradável de se ver.
De outro lado, vejo também que a garota que se propõe a tirar fotos com um modelito super apertado (antiestético e anti-respiração) em posições nada a ver, contrastando com a vasta cabeleira, só denuncia lampejos de autoafirmação em contradição com um baita conflito interior. Como se a sua virtude, já estando nos cabelos longos exigidos e impostos, ela esteja livre para uns pequenos delitos aqui e ali.
Não é necessário muito esforço para se perceber a total falta de senso do ridículo numa foto dessas, por exemplo. E olhe que essa 'Geisa gospel' acima (como disseram, preconceituosamente, lá no 'Genizah')  até que é uma das menos 'sem noção' da galeria exposta. Aliás, diga-se de passagem, que se a Glória Kalil fosse sua personal stylist certamente a reprovaria categoricamente em cada um dos itens apresentados. 
E não adianta a gente querer enfiar a cabeça na areia e se fazer que não entende que isso é reflexo de repressão religiosa. Por isso que essa técnica da coerção denominacional (leia-se ensinamentos) JAMAIS irá funcionar como instrumento de conduta agradável a Deus. Ora, convenhamos! Tal eficácia não se consegue por meio de líderes religiosos com suas imposições e falso moralismo. Mas no bom exemplo dos pais desde o berço, com sinceridade, humildade (reconhecimento de que é falho), espontaneidade e bom senso nas atitudes. Isso sim, irá contribuir de maneira preciosa na formação do caráter da jovem . O bom senso é quem estabelece o padrão adequado e não as regras determinadas pela instituição religiosa.
Jesus - que, paradoxalmente, rompeu com todas as regras sociais e religiosas da época- era, e É! - acima de tudo, ético. Há uma diferença entre ÉTICA, no sentido do caráter humano que reflete no modo de viver e conviver - e MORAL que se fundamenta em obediência a normas que, fatalmente, redundam em ações hipócritas, convenientes, manipuladoras. Não é à toa que, a todo instante, a existência nos apresenta valores totalmente invertidos/distorcidos e, no entanto, perfeitamente aceitos. Veja, por exemplo, o sentido de 'liberdade' nas doutrinas religiosas que só incitam mais e mais o uso da máscara.
Lembro-me do que disse o apóstolo ao povo de Gálatas ao apresentar-lhes instruções para uma vida prática cristã. Sua decepção era justamente em relação aos ensinos que envolviam outras doutrinas ALÉM da justificação pela fé. Seu cuidado e preocupação eram com o retorno à antiga lei que demonstrava não crer que o poder de Deus transforma o pecador em nova criatura. Sim, pois que na GRAÇA - e não na Lei - fica-se mais distante de um equívoco como este. Digo este, por ter sido o que caiu na 'rede' e é o que está em questão, mas, lamentavelmente, todo santo dia a gente se depara com situações semelhantes. O que se percebe claramente em situações como esta, é que a religião, além de distanciar a pessoa da GRAÇA, ainda a expõe a constrangimentos desse naipe.
Enfatizando o que eu comentei lá no Genizah (<--clique aqui), canhões, breguices e mau gosto à parte, se tem alguém responsável nessa história toda, repito, são os pais, que em vez de orientar suas filhas, delegam ao guia espiritual uma função que é deles; estes, por ignorância/tradição/costume/preguiça/irresponsabilidade - e até delírio religioso que engloba tudo isso aí - permitem que a liderança da denominação repressora imponha regras acima do bom senso e determinem parâmetros que nada têm a ver com a proposta sadia do Evangelho.
Quer dizer que se a menina tem cabelão, veste saia e blusa de manga, põe véu na hora do culto e faz carinha de piedosa ao cantar os mais belos hinos então, automaticamente, carrega patente de 'irmã', merece 'ósculo santo' e senta nos melhores lugares?! Só que o seu coraçãozinho ansioso e sedento por 'liberdade' sabe perfeitamente que não é bem assim que a banda toca...
Referindo-se ao tipo de educação que teve na infância e adolescência, é como falou o Steven, do Aerosmith: 

- 'Toda repressão um dia explode'

Só que, infelizmente, explode desnorteado e da forma mais desajustada possível, já que não há referenciais consistentes Ele que o diga! Ele que, ao se ver liberto, levou anos acreditando que a liberdade se resumia ao pó branco que tanto inalou. 
E nesse caso não é diferente, pois na primeira oportunidade que tem, uma garotinha dessas vai sair por aí completamente 'sem noção', coitadinha! E eis aí o mais cruel e irônico reflexo da repressão religiosa que ESTIMULA a hipocrisia de forma tão arrogante e pretensiosa que não se dá conta (Será?) de que, inevitavelmente, um belo dia a máscara cai. 

E é muito triste e feio o que se vê por trás dos bastidores religiosos em que se usa largamente o nome de Jesus. Em vão...
Bem, pelo menos quanto a isso, o Steven teve coerência. Não usou o Santo Nome...

quinta-feira, 31 de março de 2011

A espiadinha sob outro ângulo (Parte II)




(Aos preconceituosos, intransigentes e pseudo-intelectuais, sugiro nem passar dessa linha a fim de que não se escandalizem).


Sabe, é que eu achei muito interessante a vitória da Maria nesta última terça-feira...

Veladamente discriminada entre os próprios `brothers and sisters´ com aquele jeitinho, ora de menina boba e inocente, ora de mulher sensual e decidida; ora com pijaminha pronta para dormir com os anjinhos, ora (des) vestida para matar, incomodando a muita gente do bloco moralista, inseguro e recalcado. Ameaça constante a este grupinho, representava exatamente o que muitas lá dentro (e aqui fora), não tinham peito para encarar. E ser. E viver.

Presença leve e descontraída. Engraçada e divertida. Corajosa e ousada, deu a cara a tapa; sabendo aproveitar até mesmo os rótulos preconceituosos e apelidos jocosos que lhe emprestavam; impondo-se silenciosamente e provando em doses homeopáticas que ser gostosa não é sinônimo de ser puta.

Ouviu com tranquilidade todas as críticas que lhe faziam, porém de burra não tinha nada. É que o bicho-homem se extingue e não aprende nunquinha que ser pacífico nada tem a ver com ser passivo. E olhe que ela pegou carona até na agressividade dos invejosos, para mostrar, por meio do próprio comportamento despretensioso, que não se rende a picuinhas e baixarias disfarçadas de aconselhamento.

Aqui fora, os hipócritas e maliciosos de plantão cavavam com ânsia doentia a sua vida pregressa para, munidos de meias verdades, poderem atirar as clássicas pedras na primeira oportunidade que surgisse, como se nunca tivessem dado uma vacilada na vida.

Lá dentro, alguém a quem ela havia confiado seus sentimentos mais íntimos, arvorava-se no direito de maltratá-la por se achar apossado de certa informação acerca de sua conduta. De peito inflado e voltando à casa com ares de juiz implacável, ainda conseguiu abocanhar alguns seguidores que não se cansavam de aplaudir suas atitudes machistas e arrogantes. Sem um pingo de dó, soube fazer jus ao apelido duplamente; o mesmo Mau-mau que usava da boca pra fora o slogan “amor, paz e esperança”, esbanjava crítica ferrenha e boçalidade, esnobando e abusando de indelicadeza em constantes situações de humilhação, num mix de crueldade travestido de bandeira do bem.

Entretanto, surpreendentemente, os equívocos e as sucessivas inversões de papéis não perduraram. Enquanto alguns acreditavam que a força estava com aqueles supostamente “do bem”, o povo aqui fora começava a entender quem era quem. As máscaras foram caindo enquanto o cordão dos puxa-saco diminuía, pois que iam saindo, um a um, em uma sequência absurdamente lógica.

Talvez a ficha do Mau-mau não tenha caído ainda. Mas o certo é que a burra não foi ela. Afinal, se ela fosse burra não ganharia dois prêmios, simultaneamente. Um, em grana; o outro, em um filé que atende pelo nome de Wesley e que disse em sábias e curtas palavras que o que passou, passou. E, se eles vão ficar juntos não se sabe; se Maria aprendeu a lição, também não...

E mais: pode quem quiser repetir o velho chavão “foi manipulado”, mas o certo é que o mais novo verbo mariar – apesar do forte teor constrangedor - não tardou a ganhar outra conotação. E que foi um baita dum tapa de luva de pelica, ah, isso foi!

RF.


PREconceito – conceito ou opinião formada antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos; ideia preconcebida; julgamento ou opinião formada sem se levar em conta o fato que os conteste. (Copiei do Aurélio)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Marisa Letícia Lula da Silva - As palavras que precisavam ser ditas




Foram oito anos de bombardeio intenso, tiroteio de deboches, ofensas de todo jeito, ridicularia, referências mordazes, críticas cruéis, calúnias até. E sem o conforto das contrapartidas. Jamais foi chamada de "a Cara" por ninguém, nem teve a imprensa internacional a lhe tecer elogios, muito menos admiradores políticos e partidários fizeram sua defesa.

À "companheira" número 1 da República, muito osso, afagos poucos. Ah, dirão os de sempre, e as mordomias? As facilidades? O vidão? E eu rebaterei: E o fim da privacidade? A imprensa sempre de olho, botando lente de aumento pra encontrar defeito? E as hostilidades públicas? E as desfeitas? E a maneira desrespeitosa com que foi constantemente tratada, sem a menor cerimônia, por grande parte da mídia? Arremedando-a, desfeiteando-a, diminuindo-a? E as frequentes provas de desconfiança, daqui e dali? E - pior de tudo - os boatos infundados e maldosos, com o fim exclusivo e único de desagregar o casal, a família?

Ah, meus queridos, Marisa Letícia Lula da Silva precisou ter coragem e estômago para suportar esses oito anos de maledicências e ataques. E ela teve.  Começaram criticando-a por estar sempre ao lado do marido nas solenidades. Como se acompanhar o parceiro não fosse o papel tradicional da mulher mãe de família em nossa sociedade. Depois, implicaram com o silêncio dela, a "mudez", a maneira quieta de ser. Na verdade, uma prova mais do que evidente de sua sabedoria. Falar o quê, quando, todos sabem, primeira-dama não é cargo, não é emprego, não é profissão? Ah, mas tudo que "eles" queriam era ver dona Marisa Letícia se atrapalhar com as palavras para, mais uma vez, com aquela crueldade venenosa que lhes é peculiar, compará-la à antecessora, Ruth Cardoso, com seu colar pomposo de doutorados e mestrados. Agora, me digam, quantas mulheres neste grande e pujante país podem se vangloriar de ter um doutorado? Assim como, por outro lado, não são tantas as mulheres no Brasil que conseguem manter em harmonia uma família discreta e reservada, como tem Marisa Letícia. E não são também em grande número aquelas que contam, durante e depois de tantos anos de casamento, com o respeito implícito e explícito do marido, as boas ausências sempre feitas por Luís Inácio Lula da Silva a ela, o carinho frequentemente manifestado por ele. E isso não é um mérito? Não é um exemplo bom?  

Passemos agora às desfeitas ao que, no entanto, eu considero o mérito mais relevante de nossa ex-primeira-dama: a brasilidade. Foi um apedrejamento sem trégua, quando Marisa Letícia, ao lado do marido presidente, decidiu abrir a Granja do Torto para as festas juninas. A mais singela de nossas festas populares, aquela com Brasil nas veias, celebrando os santos de nossas preferências, nossa culinária, os jogos e brincadeiras. Prestigiando o povo brasileiro no que tem de melhor: a simplicidade sábia dos Jecas Tatus, a convivência fraterna, o riso solto, a ingenuidade bonita da vida rural. Fizeram chacota por Lula colar bandeirinhas com dona Marisa, como se a cumplicidade do casal lhes causasse desconforto.

Imprensa colonizada e tola, metida a chique. Fazem lembrar "emergentes" metidos a sebo que jamais poderiam entender a beleza de um pau de sebo "arrodeado" de fitinhas coloridas. Jornalistas mais criteriosos saberiam que a devoção de Marisa pelo Santo Antônio, levado pelo presidente em estandarte nas procissões, não é aprendida, nem inventada. É legitimidade pura. Filha de um Antônio (Antônio João Casa), de família de agricultores italianos imigrantes, lombardos lá de Bérgamo, Marisa até os cinco de idade viveu num sítio com os dez irmãos, onde o avô paterno, Giovanni Casa, devotíssimo, construiu uma capela de Santo Antônio. Até hoje ela existe, está lá pra quem quiser conferir, no bairro que leva o nome da família de Marisa, Bairro dos Casa, onde antes foi o sítio de suas raízes, na periferia de São Bernardo do Campo. Os Casa, de Marisa Letícia, meus amores, foram tão imigrantes quanto os Matarazzo e outros tantos, que ajudaram a construir o Brasil.    

Outro traço brasileiro dela, que acho lindo, é o prestígio às cores nacionais, sempre reverenciadas em suas roupas no Dia da Pátria. Obras de costureiros nossos, nomes brasileiros, sem os abstracionismos fashion de quem gosta de copiar a moda estrangeira. Eram os coletes de crochê, os bordados artesanais, as rendas nossas de cada dia. Isso sim é ser chique, o resto é conversa fiada. No poder, ao lado do marido, ela claramente se empenhou em fazer bonito nas viagens, nas visitas oficiais, nas cerimônias protocolares. Qualquer olhar atento percebe que, a partir do momento em que se vestir bem passou a ser uma preocupação, Marisa Letícia evoluiu a cada dia, refinou-se, depurou o gosto, dando um olé geral em sua última aparição como primeira-dama do Brasil, na cerimônia de sábado passado, no Palácio do Planalto, quando, desculpem-me as demais, era seguramente a presença feminina mais elegante. Evoluiu no corte do cabelo, no penteado, na maquiagem e, até, nos tão criticados reparos estéticos, que a fizeram mais jovem e bonita. Atire a primeira pedra a mulher que, em posição de grande visibilidade, não fez uma plástica, não deu uma puxadinha leve, não aplicou uma injeçãozinha básica de botox, mesmo que light, ou não recorreu aos cremes noturnos. Ora essa, façam-me o favor!  

Cobraram de Marisa Letícia um "trabalho social nacional", um projeto amplo nos moldes do Comunidade Solidária de Ruth Cardoso. Pura malícia de quem queria vê-la cair na armadilha e se enrascar numa das mais difíceis, delicadas e técnicas esferas de atuação: a área social. Inteligente, Marisa Letícia dedicou-se ao que ela sempre melhor soube fazer: ser esteio do marido, ser seu regaço, seu sossego. Escutá-lo e, se necessário, opinar. Transmitir-lhe confiança e firmeza. E isso, segundo declarações dadas por ele, ela sempre fez. Foi quem saiu às ruas em passeata, mobilizando centenas de mulheres, quando os maridos delas, sindicalistas, estavam na prisão. Foi quem costurou a primeira bandeira do PT. E, corajosa, arriscou a pele, franqueando sua casa às reuniões dos metalúrgicos, quando a ditadura proibiu os sindicatos.

Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo todo. Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram. Não há um único relato de episódio de arrogância ou desfeita feita por ela a alguém, como primeira-dama do país. A dona de casa que cuida do jardim, planta horta, se preocupa com a dieta do maridão e protege a família formou e forma, com Lula, um verdadeiro casal. Daqueles que, infelizmente, cada vez mais escasseiam.    

Este é o meu reconhecimento ao papel muito bem desempenhado por Marisa Letícia Lula da Silva nesses oito anos.

Tivesse dito tudo isso antes, eu seria chamada de bajuladora.

Esperei-a deixar o poder para lhe fazer a justiça que merece.

Hildegard Angel.


(Grifos meus- RF - e assino embaixo de tudo)

sábado, 23 de outubro de 2010

Cyberbullying



Estive lendo por esses dias, em uma dessas revistas de fofoca de sala de espera de clínica, algo bem coerente dito pela Preta Gil. Em entrevista, ela considerou deplorável a atitude do Danilo Gentili, do CQC, ao chamar a Hebe Camargo de múmia em plena época em que esta vivia um drama pessoal ligado a sérios problemas de saúde. Adianto que não tenho predileção por nenhuma das duas, que não vejo seus programas e blá, blá, blá... Porém, admiro quem se posiciona com sinceridade, sem se importar se está sendo apenas agradável. (Eu falei sinceridade e não sincericídio...)

Por outro lado, certamente Hebe não sofreu nenhum abalo com isso e duvido que esse episódio extremamente lamentável tenha trazido qualquer dano à sua autoestima ou formação emocional/psicológica/moral.

Mas...

E o adolescente e a criança que têm acesso a um comentário assim perverso?! Com certeza vão achar engraçado e, como se encontram em formação, e ainda se estiverem experimentando alguma disfunção familiar, vão achar que é legal agir dessa forma, debochando das pessoas. Então eles vão trazer essa “ferramenta” para a sala de aula, para o clubinho, para a comunidade, enfim, para o meio ambiente em que vivem. E, sem qualquer noção das implicações advindas desse tipo de violência vão achar normal depreciar pessoas mais velhas... Pessoas mais velhas doentes... Pessoas, simplesmente.

Então, em efeito dominó, os valores vão sendo minados um a um, e unicamente porque um engraçadinho da TV resolveu espalhar sua acidez de coração. E eu me recuso a acreditar que alguém que assim age não saiba da sua própria responsabilidade ao assumir determinadas posturas; ele não venha dizer que não sabe que é formador de opinião e o quanto pesa, de maneira devastadora, o seu achismo leviano e irreverente travestido de humor casual.

Analogamente, em época de contagem regressiva de eleições, tenho observado que, de maneira assustadora, há uma enxurrada de mensagens depreciativas recheando os blogs diariamente e das mais variadas formas. Isso muito me entristece porque há uma distorção indiscriminada, uma confusão coletiva, na qual algumas pessoas confundem a transgressão com liberdade de expressão, depreciação com humor e provocação com irreverência; e, principalmente porque parte de gente dita cristã que, não sei se por uma exacerbação natural ou pelo afã da ocasião, perde o senso e passa a agir de forma por vezes até cruel, sem se ligar nos estragos que causa com tamanha perversidade. Ora, para mim, isso é uma das variáveis do cyberbullying.

E cyberbullying é muito mais do que mera brincadeira de mau gosto de colegiais e seu uso/abuso sutil de brinquedinhos tecnológicos. 

Cyberbullying é crime.

Cyberbullying é uma forma de violência virtual feita por meio de mensagens com IMAGENS e comentários depreciativos recheados de deboche, implicância, discriminação e agressões verbais, cuja principal intenção é humilhar e constranger PUBLICAMENTE.

Até bem pouco tempo, o bullying era considerado comportamento agressivo apenas no âmbito escolar e entre crianças e adolescentes. Hoje em dia, não importa o ambiente, pois sendo onde for e havendo interação entre pessoas que lancem mão desse instrumento de perversão, essa atitude é considerada bullying. E as motivações do agressor são as mais variadas, indo desde a falta de limites no contexto familiar, passando pela necessidade de adquirir poder e status e autorrealização social a qualquer custo. E a mais deplorável realidade: usando o retrato familiar como modelo. Sim, pois normalmente o agressor tem uma história de distorção de valores dentro da própria casa, onde pais e filhos disputam certas habilidades -geralmente físicas e de pseudo-valores - estendendo-se, inevitavelmente, ao convívio escolar e social em forma de raiva incontida que não o deixa transformar em diálogo, levando para a vida adulta e seus ambientes tais como, locais de trabalho, clubes e até mesmo nas igrejas.

Mas o que impressiona é o que alimenta a alma do agressor: o espectador. Este é seu maior aliado. Afinal, sem a plateia ele não cresce. É o espectador quem vai definir sua popularidade e a continuidade do conflito. E ele consegue essa façanha porque, ainda que tenha senso de justiça, não consegue ficar indignado o suficiente para repelir esse tipo de atitude simplesmente porque foi na onda, achou engraçado, enfim, deu asas à perversidade escondida lá no mais íntimo do seu ser.

E, como se não bastasse, ainda na sua forma mais perversa existe também a plateia que age como verdadeira torcida organizada, aplaudindo e reforçando a agressão com palavras de incentivo, tornando-se coautores dessa ação nefasta.

Então, trazendo para o mundo virtual - dos blogs, particularmente- e, como comentei em texto anterior, reafirmo o meu repúdio a qualquer forma de comunicação onde a pessoa recebe uma informação e, só porque esta informação reforça sua antipatia e preconceito por aquele assunto, logo se arma com seu megafone levando adiante e até mesmo “aumentando um ponto” com suas considerações levianas, picantes, depreciativas.

Vivemos um momento único no qual a comunicação é mais rápida que o raio e a saraivada é giratória e extremamente agressiva. Então me vem uma frase de Churchil, em época que nem se sonhava ainda com internet, na qual ele dizia que "uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo de a verdade ter oportunidade de se vestir".

Neste momento extremamente delicado onde as pessoas estão estranhas, agindo de maneira ostensiva e avessas ao diálogo, precisamos ficar bem atentos antes de levantar qualquer bandeira e sair por aí soltando o verbo. Não faz mal nenhum ficar atento para o que se vai dizer/escrever procurando ser uma pessoa sensata sabendo que se pode perfeitamente usar argumentos variados sem que seja necessário apelar para overdose de adjetivos e imagens depreciativas.

Seja um sociólogo, antropólogo, cientista político ou um casual pensador sem formação acadêmica; um blogueiro mais intempestivo ou o blogueiro antenado; não importa quem o faça, mas faça uso de sua liberdade de expressão sem apelações gratuitas, de forma decente, respeitosa e consciente. Isso para mim é ser ÉTICO. E Jesus, foi acima de tudo, ético.

É assim que eu vejo pessoalmente. E é a minha dica.

Em amor e zelo.

Regina.



“Ser cristão não é FAZER CERTAS COISAS mas fazer tudo DE CERTA MANEIRA.”



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A mídia comercial contra Lula e Dilma


Leonardo Boff

Sou profundamente a favor da liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o “silêncio obsequioso”pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o “Brasil Nunca Mais” onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como “famiglia” mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e xulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) “a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence (p.16)”.

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de “fazedores de cabeça” do povo. Quando Lula afirmou que “a opinião pública somos nós”, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito da má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construído com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.


Extraído DAQUI

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A psicologia de massa do fascismo à brasileira








Há tempos alerto para a campanha de ódio que o pacto mídia-FHC estava plantando no jogo político brasileiro.

O momento é dos mais delicados. O país passa por profundos processos de transformação, com a entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo e político. Pela primeira vez na história, abre-se espaço para um mercado de consumo de massa capaz de lançar o país na primeira divisão da economia mundial.

Esses movimentos foram essenciais na construção de outras nações, mas sempre vieram acompanhados de tensões, conflitos, entre os que emergem buscando espaço, e os já estabelecidos impondo resistências.

Em outros países, essas tensões descambaram para guerras, como a da Secessão norte-americana, ou para movimentos totalitários, como o fascismo nos anos 20 na Europa.

Nos últimos anos, parecia que Lula completaria a travessia para o novo modelo reduzindo substancialmente os atritos. O reconhecimento do exterior ajudou a aplainar o pesado preconceito da classe média acuada. A estratégia política de juntar todas as peças – de multinacionais a pequenas empresas, do agronegócio à agricultura familiar, do mercado aos movimentos sociais – permitiu uma síntese admirável do novo país. O terrorismo midiático, levantando fantasmas com o MST, Bolívia, Venezuela, Cuba e outras bobagens, não passava de jogo de cena, no qual nem a própria mídia acreditava.

À falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou, FHC – seguido por seu discípulo José Serra – passou a apostar tudo na radicalização. Ajudou a referendar a idéia da república sindicalista, a espalhar rumores sobre tendências totalitárias de Lula, mesmo sabendo que tais temores eram infundados.

Em ambientes mais sérios do que nas entrevistas políticas aos jornais, o sociólogo FHC não endossava as afirmações irresponsáveis do político FHC.

Mas as sementes do ódio frutificaram. E agora explodem em sua plenitude, misturando a exploração dos preconceitos da classe média com o da religiosidade das classes mais simples de um candidato que, por muitos anos, parecia ser a encarnação do Brasil moderno e hoje representa o oportunismo mais deslavado da moderna história política brasileira.

O fascismo à brasileira
Se alguém pretende desenvolver alguma tese nova sobre a psicologia de massa do fascismo, no Brasil, aproveite. Nessas eleições, o clima que envolve algumas camadas da sociedade é o laboratório mais completo – e com acompanhamento online - de como é possível inculcar ódio, superstição e intolerância em classes sociais das mais variadas no Brasil urbano – supostamente o lado moderno da sociedade.

Dia desses, um pai relatou um caso de bullying com a filha, quando se declarou a favor de Dilma.
Em São Paulo esse clima está generalizado. Nos contatos com familiares, nesses feriados, recebi relatos de um sentimento difuso de ódio no ar como há muito tempo não se via, provavelmente nem na campanha do impeachment de Collor, talvez apenas em 1964, período em que amigos dedavam amigos e os piores sentimentos vinham à tona, da pequena cidade do interior à grande metrópole.

Agora, esse ódio não está poupando nenhum setor. É figadal, ostensivo, irracional, não se curvando a argumentos ou ponderações.

Minhas filhas menores frequentam uma escola liberal, que estimula a tolerância em todos os níveis. Os relatos que me trazem é que qualquer opinião que não seja contra Dilma provoca o isolamento da colega. Outro pai de aluna do Vera Cruz me diz que as coleguinhas afirmam no recreio que Dilma é assassina.

Na empresa em que trabalha outra filha, toda a média gerência é furiosamente anti-Dilma. No primeiro turno, ela anunciou seu voto em Marina e foi cercada por colegas indignados. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho de outra filha.

No domingo fui visitar uma tia na Vila Maria. O mesmo sentimento dos antidilmistas, virulento, agressivo, intimidador. Um amigo banqueiro ficou surpreso ao entrar no seu banco, na segunda, e captar as reações dos funcionários ao debate da Band.

A construção do ódio

Na base do ódio um trabalho da mídia de massa de martelar diariamente a história das duas caras, a guerrilha, o terrorismo, a ameaça de que sem Lula ela entregaria o país ao demonizado José Dirceu. Depois, o episódio da Erenice abrindo as comportas do que foi plantado.

Os desdobramentos são imprevisíveis e transcendem o processo eleitoral. A irresponsabilidade da mídia de massa e de um candidato de uma ambição sem limites conseguiu introjetar na sociedade brasileira uma intolerância que, em outros tempos, se resolvia com golpes de Estado. Agora, não, mas será um veneno violento que afetará o jogo político posterior, seja quem for o vencedor.

Que país sairá dessas eleições?, até desanima imaginar.

Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência história a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.

Seria interessante que o maior especialista da era da Internet, o espanhol Manuel Castells, em uma próxima vinda ao Brasil, convidado por seu amigo Fernando Henrique Cardoso, possa escapar da programação do Instituto FHC para entender um pouco melhor a irresponsabilidade, o egocentrismo absurdo que levou um ex-presidente a abrir mão da biografia por um último espasmo de poder. Sem se importar com o preço que o país poderia pagar.

Luís Nassif
 
(Grifos meus- RF)

O VOTO DO NORDESTE: para além do preconceito

Tânia Bacelar


A ampla vantagem da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno no Nordeste reacende o preconceito de parte de nossas elites e da grande mídia face às camadas mais pobres da sociedade brasileira e em especial face ao voto dos nordestinos. Como se a população mais pobre não fosse capaz de compreender a vida política e nela atuar em favor de seus interesses e em defesa de seus direitos. Não “soubesse” votar.

Desta vez, a correlação com os programas de proteção social, em especial o “Bolsa Família” serviu de lastro para essas análises parciais e eivadas de preconceito. E como a maior parte da população pobre do país está no Nordeste, no Norte e nas periferias das grandes cidades (vale lembrar que o Sudeste abriga 25% das famílias atendidas pelo “Bolsa Família”), os “grotões”- como nos tratam tais analistas – teriam avermelhado. Mas os beneficiários destes Programas no Nordeste não são suficientemente numerosos para responder pelos percentuais elevados obtidos por Dilma no primeiro turno : mais de 2/3 dos votos no MA, PI e CE, mais de 50% nos demais estados, e cerca de 60% no total ( contra 20% dados a Serra).

A visão simplista e preconceituosa não consegue dar conta do que se passou nesta região nos anos recentes e que explica a tendência do voto para Governadores, parlamentares e candidatos a Presidente no Nordeste.

A marca importante do Governo Lula foi a retomada gradual de políticas nacionais, valendo destacar que elas foram um dos principais focos do desmonte do Estado nos anos 90. Muitas tiveram como norte o combate às desigualdades sociais e regionais do Brasil. E isso é bom para o Nordeste.

Por outro lado, ao invés da opção estratégica pela “inserção competitiva” do Brasil na globalização - que concentra investimentos nas regiões já mais estruturadas e dinâmicas e que marcou os dois governos do PSDB -, os Governos de Lula optaram pela integração nacional ao fundar a estratégia de crescimento na produção e consumo de massa, o que favoreceu enormemente o Nordeste. Na inserção competitiva, o Nordeste era visto apenas por alguns “clusters” (turismo, fruticultura irrigada, agronegócio graneleiro...) enquanto nos anos recentes a maioria dos seus segmentos produtivos se dinamizou, fazendo a região ser revisitada pelos empreendedores nacionais e internacionais.

Por seu turno, a estratégia de atacar pelo lado da demanda, com políticas sociais, política de reajuste real elevado do salário mínimo e a de ampliação significativa do crédito, teve impacto muito positivo no Nordeste. A região liderou - junto com o Norte - as vendas no comercio varejista do país entre 2003 e 2009. E o dinamismo do consumo atraiu investimentos para a região. Redes de supermercados, grandes magazines, indústrias alimentares e de bebidas, entre outros, expandiram sua presença no Nordeste ao mesmo tempo em que as pequenas e medias empresas locais ampliavam sua produção.

Além disso, mudanças nas políticas da Petrobras influíram muito na dinâmica econômica regional como a decisão de investir em novas refinarias (uma em construção e mais duas previstas) e em patrocinar - via suas compras - a retomada da indústria naval brasileira, o que levou o Nordeste a captar vários estaleiros.

Igualmente importante foi a política de ampliação dos investimentos em infra-estrutura – foco principal do PAC – que beneficiou o Nordeste com recursos que somados tem peso no total dos investimentos previstos superior a participação do Nordeste na economia nacional. No seu rastro,a construção civil “bombou” na região.

A política de ampliação das Universidades Federais e de expansão da rede de ensino profissional também atingiu favoravelmente o Nordeste, em especial cidades médias de seu interior. Merece destaque ainda a ampliação dos investimentos em C&T que trouxe para Universidades do Nordeste a liderança de Institutos Nacionais – antes fortemente concentrados no Sudeste - dentre os quais se destaca o Instituto de Fármacos (na UFPE) e o Instituto de Neurociências instalado na região metropolitana de Natal sob a liderança do cientista brasileiro Miguel Nicolelis que organizará uma verdadeira “cidade da ciência” num dos municípios mais pobres do RN (Macaíba).

Igualmente importante foi quebrar o mito de que a agricultura familiar era inviável. O PRONAF mais que sextuplicou seus investimentos entre 2002 e 2010 e outros programas e instrumentos de política foram criados (seguro – safra, Programa de Compra de Alimentos, estimulo a compras locais pela Merenda Escolar, entre outros) e o recente Censo Agropecuário mostrou que a agropecuária de base familiar gera 3 em cada 4 empregos rurais do país e responde por quase 40% do valor da produção agrícola nacional. E o Nordeste se beneficiou muito desta política, pois abriga 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro.

Resultado: o Nordeste liderou o crescimento do emprego formal no país com 5,9% de crescimento ao ano entre 2003 e 2009, taxa superior a de 5,4% registrada para o Brasil como um todo, e aos 5,2% do Sudeste, segundo dados da RAIS.

Daí a ampla aprovação do Governo Lula em todos os Estados e nas diversas camadas da sociedade nordestina se refletir na acolhida a Dilma. Não é o voto da submissão - como antes - da desinformação, ou da ignorância. É o voto da auto- confiança recuperada, do reconhecimento do correto direcionamento de políticas estratégicas e da esperança na consolidação de avanços alcançados – alguns ainda insipientes e outros insuficientes. É o voto na aposta de que o Nordeste não é só miséria (e, portanto, “Bolsa Família”), mas uma região plena de potencialidades.
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Tânia Bacelar de Araújo é graduada em Ciências Sociais pela UFPE e em Ciências Econômicas pela UNICAMP. É Especialista em Planejamento Global pela CEPAL e possui Doutorado em Economia pela Universidade de Paris I – Panthéon-Sorbonne.

Atua como professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) no Departamento de Ciências Geográficas (Programa de Pós-Graduação em Geografia) desde 1989, e é Sócia Diretora da CEPLAN – Consultoria Econômica e Planejamento desde 1995.

Foi Consultora do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura – IICA, para apoio aos Planos de Desenvolvimento Sustentável dos Estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte (1995 a 1999); Diretora Nacional de Projeto do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)"Estratégia para apoio ao desenvolvimento de pequenas e médias empresas no Nordeste do Brasil"(1997) e Consultora do PNUD – IPEA para assessorar o PARARNACIDADE e as ASSOCIAÇÕES de PREFEITOS ( AMUSEP e AMOP) na elaboração de Planos Regionais de Desenvolvimento (1998).

Exerceu os seguintes cargos públicos:

• Economista da SUDENE (20 anos) tendo sido Diretora de Planejamento Global (1985/86)

• Secretária de Planejamento de Pernambuco – 1987/88

• Secretária da Fazenda de Pernambuco – 1988/1990

• Diretora do Departamento de Economia da FUNDAJ – 1990 /1995

• Secretária de Planejamento,Urbanismo e Meio Ambiente do Recife – 2001/2002

• Secretária Nacional de Políticas Regionais pelo Ministério da Integração Nacional – 2003

• Coordenadora do Grupo de Trabalho de Recriação da SUDENE e da SUDAM – 2003



(Recebi hoje por e-mail- RF)


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Marina Morena!





Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva, justificando: "Lula é analfabeto". Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva , que tem diploma universitário.

Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, "porque ela tem cara de quem está com fome".

Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.



Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da existência humana.
Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.

Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados.

De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política.

A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio."Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel.../ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!".

Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os Silva representam.

A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?

O mapa da fome

A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.

Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.

Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.

A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever.

Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.

Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT.

Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco , quando devolveu o dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta.

Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal.

Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais, desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.

"Tudo vira bosta"

Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee - a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir dos ovos, "o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta".

Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - 'Se Manca' - dizendo a ela: "Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca".

Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa de suas músicas - 'Você vem' - ela faz autocrítica antecipada, confessando: "Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem... e faz piada". Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: "Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você".

A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, "ela tem cara de professora de matemática e mete medo". Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.

Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem?

Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, "il péte de santé".

O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil...

Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de liderança em nosso país.

Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.

(Título original - A Fome de Marina - Por José Ribamar Bessa Freire - Grifos meus RF)

Vi lá no Blog da Rô onde dei o meu pitaco:

Pois é, minha amiga!

Taí um texto lúcido que bota no chinelo esses artistas que se acham acima do bem e do mal.
Aliás, fazia tempo que não lia um texto longo sem me cansar ou desistindo antes da metade, justamente porque prende, tem conteúdo, é sério, é corajoso e acima de tudo, pela VERDADE destituída de qualquer apelo emocional.
Ah, e vou aproveitar pra divulgar na minha lista de e-mail e nos meus blogs. É o mínimo que posso fazer e até sugiro a todos que o façam, não silenciemos diante dessa agressividade gratuita travestida de irreverência.
Parabéns ao autor- que já ganhou uma admiradora - a você e a cada um que repudia toda forma de preconceito!!!
bj
R.