"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Marisa Letícia Lula da Silva - As palavras que precisavam ser ditas




Foram oito anos de bombardeio intenso, tiroteio de deboches, ofensas de todo jeito, ridicularia, referências mordazes, críticas cruéis, calúnias até. E sem o conforto das contrapartidas. Jamais foi chamada de "a Cara" por ninguém, nem teve a imprensa internacional a lhe tecer elogios, muito menos admiradores políticos e partidários fizeram sua defesa.

À "companheira" número 1 da República, muito osso, afagos poucos. Ah, dirão os de sempre, e as mordomias? As facilidades? O vidão? E eu rebaterei: E o fim da privacidade? A imprensa sempre de olho, botando lente de aumento pra encontrar defeito? E as hostilidades públicas? E as desfeitas? E a maneira desrespeitosa com que foi constantemente tratada, sem a menor cerimônia, por grande parte da mídia? Arremedando-a, desfeiteando-a, diminuindo-a? E as frequentes provas de desconfiança, daqui e dali? E - pior de tudo - os boatos infundados e maldosos, com o fim exclusivo e único de desagregar o casal, a família?

Ah, meus queridos, Marisa Letícia Lula da Silva precisou ter coragem e estômago para suportar esses oito anos de maledicências e ataques. E ela teve.  Começaram criticando-a por estar sempre ao lado do marido nas solenidades. Como se acompanhar o parceiro não fosse o papel tradicional da mulher mãe de família em nossa sociedade. Depois, implicaram com o silêncio dela, a "mudez", a maneira quieta de ser. Na verdade, uma prova mais do que evidente de sua sabedoria. Falar o quê, quando, todos sabem, primeira-dama não é cargo, não é emprego, não é profissão? Ah, mas tudo que "eles" queriam era ver dona Marisa Letícia se atrapalhar com as palavras para, mais uma vez, com aquela crueldade venenosa que lhes é peculiar, compará-la à antecessora, Ruth Cardoso, com seu colar pomposo de doutorados e mestrados. Agora, me digam, quantas mulheres neste grande e pujante país podem se vangloriar de ter um doutorado? Assim como, por outro lado, não são tantas as mulheres no Brasil que conseguem manter em harmonia uma família discreta e reservada, como tem Marisa Letícia. E não são também em grande número aquelas que contam, durante e depois de tantos anos de casamento, com o respeito implícito e explícito do marido, as boas ausências sempre feitas por Luís Inácio Lula da Silva a ela, o carinho frequentemente manifestado por ele. E isso não é um mérito? Não é um exemplo bom?  

Passemos agora às desfeitas ao que, no entanto, eu considero o mérito mais relevante de nossa ex-primeira-dama: a brasilidade. Foi um apedrejamento sem trégua, quando Marisa Letícia, ao lado do marido presidente, decidiu abrir a Granja do Torto para as festas juninas. A mais singela de nossas festas populares, aquela com Brasil nas veias, celebrando os santos de nossas preferências, nossa culinária, os jogos e brincadeiras. Prestigiando o povo brasileiro no que tem de melhor: a simplicidade sábia dos Jecas Tatus, a convivência fraterna, o riso solto, a ingenuidade bonita da vida rural. Fizeram chacota por Lula colar bandeirinhas com dona Marisa, como se a cumplicidade do casal lhes causasse desconforto.

Imprensa colonizada e tola, metida a chique. Fazem lembrar "emergentes" metidos a sebo que jamais poderiam entender a beleza de um pau de sebo "arrodeado" de fitinhas coloridas. Jornalistas mais criteriosos saberiam que a devoção de Marisa pelo Santo Antônio, levado pelo presidente em estandarte nas procissões, não é aprendida, nem inventada. É legitimidade pura. Filha de um Antônio (Antônio João Casa), de família de agricultores italianos imigrantes, lombardos lá de Bérgamo, Marisa até os cinco de idade viveu num sítio com os dez irmãos, onde o avô paterno, Giovanni Casa, devotíssimo, construiu uma capela de Santo Antônio. Até hoje ela existe, está lá pra quem quiser conferir, no bairro que leva o nome da família de Marisa, Bairro dos Casa, onde antes foi o sítio de suas raízes, na periferia de São Bernardo do Campo. Os Casa, de Marisa Letícia, meus amores, foram tão imigrantes quanto os Matarazzo e outros tantos, que ajudaram a construir o Brasil.    

Outro traço brasileiro dela, que acho lindo, é o prestígio às cores nacionais, sempre reverenciadas em suas roupas no Dia da Pátria. Obras de costureiros nossos, nomes brasileiros, sem os abstracionismos fashion de quem gosta de copiar a moda estrangeira. Eram os coletes de crochê, os bordados artesanais, as rendas nossas de cada dia. Isso sim é ser chique, o resto é conversa fiada. No poder, ao lado do marido, ela claramente se empenhou em fazer bonito nas viagens, nas visitas oficiais, nas cerimônias protocolares. Qualquer olhar atento percebe que, a partir do momento em que se vestir bem passou a ser uma preocupação, Marisa Letícia evoluiu a cada dia, refinou-se, depurou o gosto, dando um olé geral em sua última aparição como primeira-dama do Brasil, na cerimônia de sábado passado, no Palácio do Planalto, quando, desculpem-me as demais, era seguramente a presença feminina mais elegante. Evoluiu no corte do cabelo, no penteado, na maquiagem e, até, nos tão criticados reparos estéticos, que a fizeram mais jovem e bonita. Atire a primeira pedra a mulher que, em posição de grande visibilidade, não fez uma plástica, não deu uma puxadinha leve, não aplicou uma injeçãozinha básica de botox, mesmo que light, ou não recorreu aos cremes noturnos. Ora essa, façam-me o favor!  

Cobraram de Marisa Letícia um "trabalho social nacional", um projeto amplo nos moldes do Comunidade Solidária de Ruth Cardoso. Pura malícia de quem queria vê-la cair na armadilha e se enrascar numa das mais difíceis, delicadas e técnicas esferas de atuação: a área social. Inteligente, Marisa Letícia dedicou-se ao que ela sempre melhor soube fazer: ser esteio do marido, ser seu regaço, seu sossego. Escutá-lo e, se necessário, opinar. Transmitir-lhe confiança e firmeza. E isso, segundo declarações dadas por ele, ela sempre fez. Foi quem saiu às ruas em passeata, mobilizando centenas de mulheres, quando os maridos delas, sindicalistas, estavam na prisão. Foi quem costurou a primeira bandeira do PT. E, corajosa, arriscou a pele, franqueando sua casa às reuniões dos metalúrgicos, quando a ditadura proibiu os sindicatos.

Foi companheira, foi amiga e leal ao marido o tempo todo. Foi amável e cordial com todos que dela se aproximaram. Não há um único relato de episódio de arrogância ou desfeita feita por ela a alguém, como primeira-dama do país. A dona de casa que cuida do jardim, planta horta, se preocupa com a dieta do maridão e protege a família formou e forma, com Lula, um verdadeiro casal. Daqueles que, infelizmente, cada vez mais escasseiam.    

Este é o meu reconhecimento ao papel muito bem desempenhado por Marisa Letícia Lula da Silva nesses oito anos.

Tivesse dito tudo isso antes, eu seria chamada de bajuladora.

Esperei-a deixar o poder para lhe fazer a justiça que merece.

Hildegard Angel.


(Grifos meus- RF - e assino embaixo de tudo)

sábado, 1 de janeiro de 2011

Sonhar é romper o limite do possível



Em meio a toda pompa típica de eventos formais, Dilma, essa incrível mulher eleita presidente do Brasil, dá clara demonstração de vitoriosa e significativa representante de um novo tempo. Uma mulher que não chegou ali simplesmente por ter um ombro forte pejorativo como sugere de forma aparente e superficial uma oposição mais imatura e emocionalista.

Seu discurso inicial enfatizando coragem ao citar poeta de sua terra, foi palavra de ordem ao reafirmar compromisso de campanha e de vitória em relação à imprensa, às mulheres e aos menos favorecidos, em vigoroso pronunciamento que não poderia deixar de ser mesclado pelo choro significativo de uma emoção incontida. Assim como ela também chora quando diz que é presidente de TODOS, estendendo as mãos aos políticos e camadas da sociedade que são e foram contrários.

O que me impressionou hoje diante da TV foi constatar, em plena solenidade de posse, uma série de simbolismos embutidos em cada uma das ações que aconteceram desde sua chegada até os incansáveis cumprimentos de dirigentes e representantes dos mais longínquos lugares, sempre carregados de emoção e de naturalidade. Simbolismos permeados pelo contraste entre a cerimônia formal e o toque feminino de informalidade e espontaneidade, em inconteste afirmação de marcas características da alma feminina.

Também não me deixou passar despercebida a sua singela descida rumo ao parlatório. Em momento de forte emoção ela caminha com passos firmes ao som do hino nacional, quebrando protocolo com leveza ao beijar a bandeira nacional. Fiquei ainda imaginando o que se passava em sua mente e seu coração no momento em que ela fazia a clássica revista da tropa, (certamente olhando com profunda tristeza para os que, ironicamente, representaram um dia uma repressão e que agora estão sujeitos às suas ordens), em meio a inevitáveis lembranças de época de forte resistência ao regime militar que culminou com perdas drásticas, brutais, irreversíveis. Perdas sobre as quais esta mulher forte e corajosa, discorre de forma visceral acerca de sua trajetória em tempo de escuridão e medo. Época tenebrosa onde alguns pagaram preço alto pela liberdade de muitos e aos quais faz homenagem reverenciando a eterna lembrança. E, aproveitando, reafirma seu perdão a cruéis algozes.

Outros simbolismos femininos muito fortes, e que eu não poderia deixar de observar, estão relacionados à indumentária, à postura, à performance feminina em geral. A impagável cena das duas - mãe e filha- impecáveis no rolls-royce, com a chuva dando uma trégua, o povo reverenciando com faixas garrafais de “eu te amo”, tudo isso dentro de um contexto extremamente significativo para a história.

Em seguida, três mulheres imponentes do alto do parlatório: a jovem Marcela na ponta esquerda, Dilma ao centro, e na ponta direita, a experiente Marisa.(Foto acima) Achei de um simbolismo tremendo a aparente fragilidade de três mulheres "protegendo" dois homens de seus próprios poderes e rigores!

E a interação perfeita com o público!  
Em cima, o choro de Marisa em meio ao discurso e o marido a confortando; embaixo, um povo atento em único coro do hino nacional. Em cima, o encontro inusitado, a mudança de faixa e a retirada sábia do ex; embaixo o sorriso no semblante de um povo sofrido mas esperançoso. Em cima, a mulher que versa sobre metas e objetivos sem esquecer que embaixo tem um povo que acredita em sonhos.

É quando ela inicia seu discurso, dizendo dos desafios, da coragem, do espírito de união e arremata com uma frase contundente; que as metas devem ser alcançadas, mas que junto com elas também existem grandes sonhos e que devemos persegui-los. Persegui-los é romper o limite do possível. Isso é dito quando Dilma se dirige ao povo em relação a quem acabara de retirar-se estrategicamente, reiterando sua admiração por este. E, em reconhecimento, diz-se consciente de um legado que carregará com responsabilidade. Cita o exemplo de parceria deste homem com seu ilustre vice e que se sente impulsionada a seguir o mesmo caminho.

E, ainda em seu discurso, devo dizer que mais uma vez me chama à atenção a forma visceral como ela se reporta sobre o cuidado para com os mais frágeis e necessitados e ainda quando repete sua disposição em ter um contato amigável com as oposições, citando a grande Indira Ghandi sobre não ser possível trocar um aperto de mão com punho fechado.

Percebo sinceridade quando ela diz, de forma respeitosa e solene, que o lugar mais sagrado de uma nação é o coração do povo. E não me envergonho em dizer que embarco na mesma onda, emociono-me e choro também.

Por fim, o roubo de breve cena feito por Hillary Clinton com sua simpatia e naturalidade em extremo contraste ao sorriso inox da linda Marcela...



RF.