"NÃO EXISTE NENHUM LUGAR DE CULTO FORA DO AMOR AO PRÓXIMO"

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sal demais = pressão alta


"Hoje levantei e, como sempre, caí de joelhos, numa prolongada oração. Nela, apresentei minha família, numa intercessão poderosa, falei em línguas e então, passados quarenta minutos, fui ao banheiro, escovar os dentes e tomar banho, sem expôr minha nudez. Em nenhum momento deixei de cantar louvores e entoar os hinos da harpa.

Tomei meu café, não antes de orar, e repreendi meus filhos – que tirei da cama bem cedo para me acompanhar em minhas orações e tomar o desjejum matinal – por não ter orado da forma correta, sem a reverência necessária para o ato.

Com ósculo santo, saudei minha família e saí, sempre com louvor em meus lábios, bendizendo o nome do Senhor.

Não demorou para que eu encontrasse um necessitado, um pobre moço que as drogas vinha destruindo, e com minha oração de poder e minha vida consagrada, pus minhas mãos sobre sua cabeça e o libertei das mãos do inimigo, instantaneamente. O rapaz levantou naquele momento e nunca mais tocaria em qualquer tipo de droga ou álcool. As dívidas contraídas com a droga foram instantaneamente esquecidas pelos traficantes, e a família esqueceu todo o prejuízo e decepção, confiando no milagre da oração(estranhamente, eles, os pais, também são crentes).

Continuei meu caminho, o hino de vitória estava em meus lábios, e ao me ver passar diante do bar, os bêbados e prostitutas desviaram o olhar, diante de um legítimo servo do Reino, portador da Verdade Celestial.

Um guincho alto, um baque seco, não percebi o enorme ônibus que me acertou.

Não sei quanto tempo estive apagado, mas despertei numa estranha realidade. Foi então que o vi. Ele resplandecia. Sabia que aquela forma humana era o jeito mais fácil para compreende-lo:
- Senhor, és tu?

- Pois não, Zé...

- Sou um de seus salvos, ó Jesus?

- Sim... vamos indo...

- Mas senhor... em teu nome vivi minha vida...

- Eu sei, Zé...eu vi...

- Por isso sou salvo, ó Filho de Deus?

- Não... Você está na eternidade porque Eu disse que te traria... - disse o Mestre, andando na frente. Parecia impaciente.

- Senhor! Tu pareces aborrecido com algo. Serei eu, ó t-o-d-o p-o-d-e-r-o-s-o?

- Sabe o que é? - disse Jesus, o encarando

- Falais, ó c-r-i-a-d-o-r d-o-s u-n-i-v-e-r-s-o-s...

- Tu é chato pra caramba... "Vamo" “bora” logo...

O excesso de sal é tão ruim quanto a falta, embora o problema do excesso seja a complicação de dessalinizar: As pessoas sabem que o contato com você, sal da terra, só serve para lembrar o quanto é ruim estar em contato com sua ladainha.

Tentar mostrar uma vida da forma relatada acima é tão ruim (e ilusória) quanto viver sendo um pecador ininterrupto. Não se consegue, por mais que se garanta o contrário".




Título original ----> Muito Sal - por Zé Luís

(Grifos meus-RF)




terça-feira, 27 de abril de 2010

O que você vai ser quando você crescer...



Não costumo radicalizar diante das sandices que vejo pela frente no meu cotidiano, mas tem certas coisas que não dá pra passar em branco e eu acabo caindo na rede do tema recorrente.

Na boa, eu não consigo entender esse lance de cartilha espiritual determinada pela “igreja”!

Está além - ou aquém rss - do meu entendimento, dos meus conhecimentos, da minha sensibilidade, enfim, da minha cabecinha livre, essa antipática listinha de advertências como receita infalível de doutrina da casa que certas denominações religiosas insistem em divulgar acreditando ingenuamente que seus colonizadores códigos funcionam e que assim vão conseguir monopolizar as mentes empurrando “ensinamentos” goela abaixo de seus jovens seguidores. Como se estes não fossem seres pensantes e não tivessem acesso às Escrituras livremente, e ainda como se não houvesse esse fácil acesso a outras literaturas excelentes que fazem coisas incríveis em nossas mentes, principalmente no que se refere ao estímulo de escolhas criteriosas e pessoais como acontece, por exemplo, com as facilidades oferecidas pelo ambiente virtual.

Reproduzindo o que falei ontem em outro blog sobre a inquietação tola que têm alguns dominadores religiosos com essa disseminação dos blogs apologéticos cristãos, eu vejo esse tipo de derramamento literário de forma extremamente otimista posto que benéfico com suas variedades, estilos literários próprios e abordagens bem intimistas, daí apresentar-se como uma excelente oportunidade para se desenvolver hábitos saudáveis de leitura que visem estimular cada vez mais o senso crítico levando a pessoa a filtrar aquilo que é de qualidade e que, de fato, vai ajudá-la de maneira saudável e criativa.

Cabe aqui o que eu pesquei dias atrás ali no blog de um amigo, a frase atribuída a Mário Quitana: “Eu não tenho paredes, só tenho horizontes”.

É simplesmente maravilhoso fazer parte dessa diversidade literária de alcance extremamente fácil. Acesso esse, que aproximando as mais diversas culturas, as mais diversas crenças e faixas etárias é realizado com simples toques de dedos que nos introduzem em mundos infindáveis que vão muito além dos muros religiosos botando qualquer cartilhazinha obsoleta no bolso. (Se é que um dia ela esteve atualizada).

Entretanto – e por outro lado - fazendo uma referência mais contundente a essa versão gospel de bula papal chumbada, eu não vou entender nunca essa história de que a igreja tem o papel de educar nossas crianças, nossos adolescentes. Ora, esse papel, essa BASE, pertence à família. Aliás, esse é o primeiro ministério que cabe unicamente à família. Esse é o LEGADO verdadeiro dos pais aos filhos. Os pais que transferem essa sua OBRIGAÇÃO para outro, seja quem for, estão sendo levianos, posto que essa transferência equivocada traz sérias consequências danosas à mente da criança.

E é claro que não há nada que entortamos que Deus não conserte, mas a base cabe a nós adultos, e foi Ele quem nos deu essa responsabilidade.

Muita confusão e crendice religiosa poderiam ser evitadas na cabecinha inocente de uma criança - arrastando-se desnecessária e pesadamente em sua alma até mesmo na sua vida adulta - se parássemos de delegar a outrem um papel exclusivo, INTRANSFERÍVEL.

É dentro de casa – E na prática! - que as crianças precisam aprender sobre o poder de Deus!

É em casa que acontece a autodisciplina diária e é ainda em casa que se conhece a obra de Deus, através da história do povo de Deus e da Palavra (O relato inspirado da vida de Jesus).

Para isso, faz-se necessário algo muito simples mas extremamente necessária e urgente: que os pais saiam dessa preguiça mental e assumam de volta essa função que é SUA.



“Ensina a criança no caminho em que deve andar,
e, ainda quando for velho, não se desviará dele.”
(Provérbios 22.6)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A FESTA DE BABETTE - Uma parábola da GRAÇA





Em ambiente triste, uma pobre aldeia de pescadores no litoral da Dinamarca, uma localidade de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha - um ministro da Palavra de Deus, já idoso e de barbas brancas - liderava um grupo de crentes de uma austera seita luterana.

Todos usavam roupas pretas e os poucos prazeres mundanos eram condenados.

Sua alimentação consistia em bacalhau cozido e uma papa feita de pão escaldado em água enriquecida com um borrifo de cerveja.

Aos sábados, o grupo se reunia e cantava hinos a respeito da Nova Jerusalém, verdadeiro lar, indicando que a vida na terra era apenas tolerada como um meio de chegar lá.

O velho pastor, um viúvo, tinha duas filhas adolescentes: Martine, chamada assim por causa de Martinho Lutero, e Philippa, por causa do discípulo de Lutero, Philip Melanchton.

Os habitantes da vila costumavam ir à igreja apenas para se deliciar com a presença das duas, cuja radiante beleza não podia ser ocultada, por mais que elas se esforçassem nesse sentido.

Martine captou os olhares de um jovem e arrojado oficial da cavalaria.

Quando ela, obstinadamente, resistiu às suas investidas — afinal, quem cuidaria de seu velho pai? — ele foi embora para se casar com uma dama de companhia da rainha Sofia.

Philippa, além de bela, possuía a voz de um rouxinol.

Quando ela cantava a respeito de Jerusalém, visões reluzentes da cidade celestial pareciam surgir.

E aconteceu que Philippa conheceu o mais famoso cantor de ópera daquele tempo, o francês Achille Papin, que estava passando uns dias no litoral por causa da saúde.

Certo dia, durante uma de suas caminhadas matinais ouviu, para sua grande admiração, uma voz digna da Grand Opera de Paris.

"Deixe-me ensiná-la a cantar de maneira certa", ele insistiu com Philippa, "e toda a França vai cair a seus pés. A realeza vai fazer fila para conhecê-la, e você vai andar de carruagem puxada por cavalos para jantar no magnífico Café Anglais ".

Lisonjeada, Philippa consentiu em tomar algumas lições, mas apenas algumas.

Cantar a respeito do amor a deixava muito agitada e, culminou quando, ao som de uma ária de Don Giovani, Achille Papin a enlaçou em seus braços, roçando-lhe os lábios nos seus;foi então que ela angustiou-se com a certeza de que estes novos prazeres precisavam ser abandonados.

Seu pai escreveu um bilhete dispensando o jovem de todas as futuras lições, voltando este a Paris, com muita tristeza na alma.

Passaram-se quinze anos, e muita coisa mudou na vila.

As duas irmãs, então solteironas de meia-idade, tentaram continuar com a missão do falecido pai, mas, sem a sua séria liderança, a seita decaiu.

Um irmão tinha queixas de outro por causa de algum negócio.

Espalharam-se boatos de que havia um caso de sexo ilícito há trinta e dois anos envolvendo duas pessoas da comunidade. Duas velhas senhoras não se falavam há uma década.

Embora a seita ainda se reunisse aos domingos e cantasse velhos hinos, apenas um punhado de pessoas se davam ao trabalho de ir, e a música havia perdido o seu entusiasmo.

Apesar de todos esses problemas, as duas filhas do ministro continuaram fiéis, organizando os cultos e escaldando pão para os anciãos desdentados da vila.

Uma noite, chuvosa demais para que alguém se aventurasse pelas ruas lamacentas, as irmãs ouviram fortes batidas na porta.

Quando a abriram, uma mulher caiu desmaiada. Elas a reanimaram e descobriram que ela não falava dinamarquês. Ela lhes entregou uma carta de Achille Papin.

Ao ver aquele nome, Philippa enrubesceu, e sua mão tremia enquanto ela lia a carta de recomendação. Seu nome era Babette.

"Babette sabe cozinhar", dizia a carta.

Ela havia perdido o marido e filho durante a guerra civil na França. Com a vida em perigo, tivera de fugir e Papin lhe arranjara uma passagem em um navio com esperança de que essa aldeia lhe demonstrasse misericórdia.

As irmãs nunca tiveram uma empregada nem tinham dinheiro para pagar Babette .

Além do mais, desconfiaram de sua arte — os franceses não comiam cavalos e rãs?

Mas, por meio de gestos e súplicas, Babette amoleceu o coração delas.

Ela poderia fazer alguns serviços em troca de quarto e comida.

E assim, durante os doze anos seguintes Babette trabalhou para as irmãs.

A primeira vez que Martine mostrou-lhe como cortar um bacalhau e cozinhar a papa, as sobrancelhas de Babette se elevaram e o seu nariz enrugou um pouco, mas nunca questionou suas tarefas. Ela alimentava os pobres na cidade e assumiu todas as tarefas domésticas.

Até ajudava nos cultos de domingo.

Todos concordavam que Babette trouxe nova vida à estagnada comunidade.

Como Babette nunca se referia ao seu passado na França, foi uma grande surpresa para Martine e Philippa quando, um dia, depois de doze anos, ela recebeu a primeira carta.

Babette a leu, viu as irmãs de olhos arregalados e anunciou de maneira natural que uma coisa maravilhosa lhe havia acontecido.

Todos os anos um amigo em Paris renovava o número de Babette na loteria francesa. Nesse ano, o seu bilhete fora premiado. Dez mil francos!

As irmãs apertaram a mão de Babette, parabenizando-a, mas lá no fundo seus corações desfaleceram. Sabiam que logo ela iria embora.

A sorte grande de Babette na loteria coincidiu com o momento em que as irmãs estavam discutindo sobre a celebração de uma festa em homenagem ao centenário do nascimento de seu pai.

Então, considerando que em doze anos nunca lhes pedira nenhum favor, Babete lhes fez um pedido.

-“Quero cozinhar uma verdadeira refeição francesa para a comemoração de aniversário"

As irmãs tiveram que concordar embora tivessem sérias dúvidas a respeito do plano de Babette.

Quando o dinheiro chegou da França, Babette fez uma rápida viagem para providenciar os arranjos para o jantar. Nas semanas que se seguiram à sua volta, os habitantes daquela pequena vila foram surpreendidos com a visão de vários barcos ancorados descarregando provisões para a cozinha de Babette. Trabalhadores empurravam carrinhos de mão cheios de gaiolas com pequenas aves. Caixas de champanhe — champagne! — e vinho logo se seguiram.

A cabeça inteira de uma vaca, vegetais frescos, trufas, faisões, presunto, estranhas criaturas que viviam no mar, uma imensa tartaruga ainda viva mexendo a cabeça como a de uma cobra de um lado para o outro — tudo isso acabava na cozinha das irmãs agora firmemente dirigida por Babette.

Martine e Philippa, alarmadas com os preparativos que mais pareciam de bruxa, explicavam a embaraçosa situação aos membros da seita, agora apenas onze pessoas, velhas e grisalhas e como todos manifestavam simpatia por elas, acabaram concordando em comer a refeição francesa, fazendo o pacto de silenciar-se para não constranger a cozinheira com sua culinária exótica.

As irmãs ficaram satisfeitas ao saber que um hóspede inesperado se juntaria a elas: a senhora Loewenhielm, de noventa anos de idade, acompanhada de seu sobrinho, o oficial de cavalaria que havia cortejado Martine tempos atrás, e agora era general no palácio real.

Babette havia conseguido louças e cristais, e havia enfeitado o recinto com velas e coníferas deixando a mesa bastante ornamentada.

Quando a refeição começou os habitantes da aldeia se serviam mudos, lembrando-se do pacto.

Apenas o general comentou a comida e a bebida. "Amontillado!", ele exclamou quando levantou o primeiro copo. "É o mais fino Amontillado que já provei."

Quando experimentou a primeira colherada de sopa, o general poderia jurar que era sopa de tartaruga, mas como se acharia tal coisa no litoral da Jutlândia?

"Incrível!", disse o general quando experimentou o próximo prato. "É Blinis Demidoff!"

Todos os outros convidados, com faces franzidas por profundas rugas, estavam comendo as mesmas delicadezas raras sem nenhuma expressão ou comentário.

Quando o general entusiasmado elogiou o champanhe, um Veuve Cliquot 1860, Babette ordenou ao seu ajudante de cozinha para manter o copo do general cheio o tempo todo. Apenas ele parecia apreciar o que estava diante dele.

Embora ninguém mais falasse a respeito da comida ou da bebida, gradualmente o banquete operou um efeito mágico sobre os habitantes da aldeia.

O seu sangue esquentou. Suas línguas se soltaram. E eles falaram dos velhos dias quando o pastor estava vivo e do Natal em que a baía congelou.

O irmão que havia enganado o outro nos negócios finalmente confessou, e as duas mulheres que tinham uma rixa acabaram conversando.

Uma mulher arrotou, e o irmão ao seu lado disse sem pensar: "Aleluia!".

O general, entretanto, não conseguia falar de nada além da comida.

Quando o ajudante da cozinha trouxe o coup de grâce, codornizes preparadas em Sarcophage, o general exclamou que vira tal prato apenas em um lugar na Europa, no famoso Café Anglais em Paris, o restaurante que já fora célebre por ter uma mulher como chefe-de-cozinha.

Cheio de vinho, o apetite satisfeito, incapaz de se conter, o general levantou-se para fazer um discurso, assim iniciando:

"A misericórdia e a verdade, meus amigos, se encontraram".

"A justiça e a bem-aventurança se beijaram."

Embora os irmãos e as irmãs da seita não compreendessem totalmente o discurso do general, naquele momento "as vãs ilusões desta terra se dissolveram diante de seus olhos como fumaça, e eles viram o universo como ele realmente era".

O pequeno grupo se desfez e saiu para uma cidade coberta de neve brilhante sob um céu recoberto de estrelas.

A "Festa de Babette" termina com duas cenas.

Lá fora, os velhos se dão as mãos ao redor da fonte e cantam entusiasmados os velhos hinos da fé.

É uma cena de comunhão: a festa de Babette abriu o portão e a graça entrou silenciosamente.

Eles sentiram, acrescenta a autora, "como se realmente tivessem os seus pecados lavados e tornados brancos como a lã, e nessas vestes inocentes recuperadas faziam brincadeiras como cordeirinhos travessos".

A cena final acontece lá dentro, na bagunça de uma cozinha cheia até o teto de louça para lavar, panelas engorduradas, conchas, carapaças, ossos cartilaginosos, engradados quebrados, cascas de vegetais e garrafas vazias. Babette senta-se no meio da bagunça, parecendo tão desgastada quanto na noite em que chegara doze anos antes. Subitamente, as irmãs percebem que, de acordo com o seu voto, ninguém havia falado com Babette a respeito do jantar.

— Foi um jantar e tanto, Babette — Martine diz para começar. Babette parece distante. Depois de um minuto ela responde: — Eu era a cozinheira do Café Anglais.

—Todos nós vamos nos lembrar desta noite quando você tiver voltado para Paris, Babette — Martine acrescenta, como se não a tivesse ouvido.

Babette lhes diz que não vai voltar para Paris. Todos os seus amigos e parentes ali foram mortos ou feitos prisioneiros. E, naturalmente, seria muito caro voltar para Paris.

— Mas e os dez mil francos? — as irmãs perguntam.

Então Babette deixa cair a bomba. Ela havia gasto tudo, cada franco dos dez mil que ganhara, na comida que haviam acabado de devorar. — Não se assustem — ela lhes diz. — É isso que um jantar adequado para doze custa no Café Anglais.

No discurso do general, Isak Dinesen não deixa dúvidas de que ela escreveu "A Festa de Babette" não apenas como uma história a respeito de uma excelente refeição, mas como uma parábola da graça: um presente que custa tudo para o doador e nada para o que recebeu. Isto é o que o General Loewenhielm disse aos carrancudos paroquianos reunidos ao redor da mesa de Babette:

Todos nós fomos informados de que a graça deve ser buscada no universo. Mas em nossa loucura humana e nossa visão reduzida imaginamos que a graça divina seja finita... Porém, chega o momento em que nossos olhos são abertos, e vemos e entendemos que a graça é infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós a não ser que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão.

Doze anos antes, Babette aparecera entre aquelas pessoas desprovidas de graça.

Discípulas de Lutero que ouviam sermões a respeito da graça quase todos os domingos e no restante da semana tentavam obter o favor de Deus com a sua piedade e renúncia, a graça veio até elas na forma de uma festa, a festa de Babette, por meio de uma refeição desperdiçando uma vida inteira sobre aqueles que não a haviam merecido, que mal possuíam a faculdade de recebê-la.

A graça veio àquela vila como sempre vem: livre de pagamento, sem cordas amarradas, como oferta da casa.

Fragmento extraído de "Maravilhosa Graça" de Philip Yancey, A FESTA DE BABETTE é uma história de Karen Blixen, que tornou-se um clássico respeitado depois de ser transformado em filme na década de 80. Com o psudônimo de Isak Dinesen, situou sua história na Noruega, mas os cineastas dinamarqueses mudaram o local para essa aldeia de pescadores.

domingo, 25 de abril de 2010

ADORAÇÃO




Já faz muito tempo que eu venho intrigada com uma expressão que algumas pessoas insistem em dizer que não se usa, a não ser com Deus. E nem precisa entrar na questão etimológica da palavra nem euzinha perder meu verbo rss pra traçar aqui o perfil religioso da pessoa que assim raciocina, atribuindo ao diabo suas próprias leviandades.

E falando em verbo, a palavra é... ADORO!

Tais pessoas pararam no tempo. Não percebem que os vocábulos não são algo fixo MAS dinâmicos e variáveis.

Existe um mecanismo chamado polissemia cuja função é “despertar essa possibilidade de aproveitamento expressivo de certos vocábulos, ao mesmo tempo em que pode provocar ambiguidade”, adquirindo nova roupagem à medida que as coisas acontecem e conforme o contexto e ambientação.

E olha só: isso não tem nada a ver com “a natureza imutável de Deus”, portanto eu já advirto numa boa aos xiitas de plantão que não me venham com essa. Pois me lembro de certa feita quando conversávamos em um ambiente virtual e alguém usou a expressão “sou fã de fulano de tal” e aí não deu outra. Entrou um desses fundamentalistas ferrenhos (redundância he he he) despejando sua verborragia a respeito de fanatismo que chegou a ser hilário. Ai, mas também cansa a beleza, bora combinar rss

Portanto, nessa nova roupagem devidamente permitida, de repente o termo ADORAR nada mais é do que uma ênfase para algo que se gosta muito, só isso. Proponho que saiamos dessa casca grossa, dessa neura espiritual, que raciocinemos e vejamos que não é nada ligado à idolatria e unicamente uma força de expressão.

Dá dó de ver crianças inocentes e já bitoladas por ensinamentos engessados sendo castradas em sua forma mais pura de expressar-se. Quantas vezes observo algumas delas conversando animadamente sobre algo próprio de suas idades e com a empolgação idem... Aí no meio da conversa pueril deixam escapar um “adoro” sem querer e imediatamente põem a mão na boca e, repreendendo-se, acrescentam inocentemente a REPETIÇÃO de meras palavras que lhe foram repassadas sem nenhuma explicação mais ampla, recitando algo do tipo:

-“Eita, adoro, não. Adorar só a Deus”.

E assim nossas crianças vão deixando de ser espontâneas, tornando-se um dia as adultas dissimuladas e equivocadas que acreditam no poder sobrenatural de meras palavras em detrimento do que se passa realmente no seu coração.

Por outro lado...

De fato, não há dúvida: adorar só a Deus. De todo coração. De toda a alma. Todas as forças. Todo o entendimento.

Sim, está escrito! (Lucas 10.27)

Observar - e praticar! - o TODO, e não parcialmente. Mas aí as pessoas se permitem algumas parcialidades fugidias (Escapatórias bem escondidinhas aqui e ali longe do campo de visão do líder da igreja, claro! Como se ele não agisse assim também...), alguns subterfúgios... Enfim, pequenas idolatrias fragmentadas, alimentadas e realimentadas lá no fundinho do coração e praticadas no cotidiano de forma que as denunciam escancaradamente e que não há como esconder de todo mundo e ainda que elas não VERBALIZEM essa ADORAÇÃO.

Essa idolatria é muda e sutil, que mascarada e dispensando qualquer ênfase ou "superlativo" verbal,  vai substituindo o Deus verdadeiro e promovendo um auto-engano terrível no qual se diz da boca pra fora que é Ele quem comanda a vida PORÉM no coração/ação  honra a outros pequenos deuses.

Quantos de nós bate na boca para não expressar por meio de palavras o culto paralelo que rendemos todos os dias a nossos pequenos deuses interiores:

- “Adoro bolos e doces”

- “Adoro minhas coisas pessoais”

- “Adoro meu carro”

- “Adoro minha vidinha egoísta”

- “Adoro meu quadrado e que ninguém ousa pisar”

Adoro, adoro, adoro... E assim caladinho e alimentando essas pequenas idolatrias não confessadas oralmente, segue-se dizendo adorar só a Deus (Mas que deus é esse?!) pisoteando e provocando discórdia, tristeza e desentendimentos.

É só raciocinar um pouco e parar pra pensar, não precisa ser muito inteligente, não. Basta estar disposto a acertar. Afinal vivemos todos em constante processo de aprendizagem.

E refletir:

Se eu afasto as pessoas, se eu provoco decepção nos corações das pessoas, se eu as entristeço com o excessivo e constante uso mudo e gritante do pronome possessivo MEU, então que Deus é esse que eu tanto ADORO?

É disso que estou falando: desse sentimento de POSSE, desse apego exagerado (outra redundância rss) às coisas, e que provocam estragos bem maiores do que meras palavras. Essa é a ambiguidade perigosa e diabólica.

Ora, quem quiser falar da natureza imutável de Deus, fale do único culto que a Ele importa.

E fale que não existe nenhum altar de culto FORA DO AMOR AO PRÓXIMO!

Pois este é o segundo mandamento que, diga-se de passagem, engloba todos os outros referentes ao relacionamento com DEUS E COM O OUTRO.

Essa é a verdadeira adoração: em espírito e em verdade. (João 4.4)

O mais é acréscimo de homens que - para seguirmos sua pretensiosa e castradora cartilha religiosa - mascaram a verdadeira vontade de Deus para nós:

Que nos reconciliemos com Ele, com nós mesmos e com cada um de nós por meio do sacrifício definitivo feito na CRUZ.



E eis que certo homem, intérprete da Lei,
se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe:

Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

Então Jesus lhe perguntou:

Que está escrito na Lei? Como interpretas?

A isto ele respondeu:

Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração,
de toda a tua alma, de todas as tuas forças
e de todo o teu entendimento;

e:

Amarás o teu próximo como a ti mesmo”

(Cf Lucas 10: 25 a 27)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Justa Homenagem




No Dia Internacional do Livro eu gostaria de render uma justa homenagem a uma pessoa muito querida: minha irmã mais velha, Auri - como chamamos na intimidade.

Hoje, já no final do dia quando fui lembrada da importância dessa data, ela foi a primeira pessoa que me veio à mente. Não conheço uma pessoa que devore mais livro do que ela! Se alguém chegar à casa dela, seja em que horário for, verá que em seu quarto as mesinhas de cabeceira - e outras mais que estiverem ao redor – estão cheias de livros empilhados. E não pense que são livros velhos e empoeirados, pois o interessante é que são novinhos em folha e ela lê vários, simultaneamente. Isso com uma graciosidade e leveza incríveis sem qualquer ar de intelectualóide!

E esse hábito é antigo...

Vem lá da pré-adolescência. Pois não é que ela já lia de tudo quando ainda cheirava a leite? Se bem que todos nós fomos criados lendo por obrigação, já que nossos pais eram educadores/donos de escola primária, numa época em que o ato de ser professor não era apenas “ensinar” e sim educar de forma bastante ampla. Inclusive já falei um pouco a esse respeito quando postei um texto no dia do aniversário do meu pai.

Mas ela se destacava. Se bem que, em se falando desse tipo de recorde na precocidade, eu tenho outra irmã, a Duda, que aos nove anos de idade já tinha lido toda a literatura infanto-juvenil da biblioteca do meu pai, sendo que esse seu afã foi mais nessa fase da vida mesmo. O certo é que hoje em dia, uns em mais intensidade e outros em menos, todos nós ainda conservamos o velho hábito de uma boa leitura.

Lembro-me que quando minha mãe “alugava” a mim e às outras mais novas em alguma eventual tarefa doméstica, eu sempre questionava (Sempre fui questionadora he he he) porque ela nunca era solicitada e a resposta era sempre a mesma: deixa Auricélia em paz, ela está lendo. Eu, cá com os meus botões, achava que era porque ela era a mais velha. Essa suspeita rola até os dias de hoje... Mas eu já fiz terapia rss

À época, final dos anos 70, ainda morávamos no interior, mas os mais velhos (euzinha incluída, saí de casa aos 15!) estudávamos fora e sempre que voltávamos nas férias ou feriado mais prolongado, o prazer dela era fazer a busca por novos livros e eu me lembro de um episódio interessante em que meu pai não tinha um só que ela não tivesse lido e ele logo tratou de se empenhar para encontrar alguém que tivesse bilbioteca, já que naquele tempo poucas pessoas dispunham de biblioteca vasta em casa. Foram em alguns lugares, inclusive na bilbioteca pública, mas não havia um que ela não tivesse lido! Foi então que ele lembrou-se de levá-la à casa de um amigo também forasteiro, gerente do Banco do Brasil, ainda lembro o seu nome incomum, João de Deus. Lá, não tinha erro!  - Imagino que meu pai assim pensou.

Reza a lenda rs que, chegando lá, enquanto os dois trocavam figurinhas ela já foi adentrando naquele ambiente cheio de prateleiras enormes que lhe eram tão familiares, não pelo espaço físico, mas pelo que ele comportava: livros e mais livros. E pasme: não havia um só que ela não tivesse lido! Havia um tal de A.J.Cronin que ela já tinha passado tudo dele! Era uma coleção imensa, mas ela simplesmente a esnobou assim como o fez com tantas outras. Só fazia abaixar a cabeça e dizer: esse eu já li , esse eu já li, aquele também - à medida que discorria a vista e os dedos em cada uma daquelas luxuosas coleções. Ela tinha seus dezoito anos, se não me falha a memória, mas aos 14, 15, já se definia como leitora voraz, tanto que ninguém nem ousasse chamá-la para nada, como falei antes. Por isso, ainda hoje, ninguém conte com ela nem pra coar um café porque ela não sabe ( Ui, ela vai comer meu fígado, tô ferrada!) Ora, a espaçosa  dispõe de empregada doméstica até para o domingo! Pronto, falei! Vingança maligna! :)

Ultimamente até que tem sido menos frequente, mas quando ela vem de Maceió pra Recife (ela reside lá já tem uns vinte anos, creio eu) logo me telefona e eu já penso: Já sei, Livraria Cultura, bora rss

Minha irmã, amo você. Do fundo do meu coração!

RF

Como ensinar SOLIDARIEDADE?



“O menino me olhou com olhos suplicantes. 

E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes...”.

Há coisas que não podem ser ensinadas. Há coisas que estão além das palavras. Os cientistas, os filósofos e os professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas. Coisas que são ensinadas são aquelas que podem ser ditas.

Sobre a solidariedade muitas coisas até podem ser ditas...

Por exemplo: eu acho possível desenvolver uma psicologia da solidariedade. Acho também possível desenvolver uma sociologia da solidariedade. E, filosoficamente, uma ética da solidariedade... Mas os saberes científicos e filosóficos da solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como a crítica da música e da pintura não ensina às pessoas a beleza da música e da pintura.

A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.

Palavras que ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Os saberes, todos eles, são pássaros engaiolados. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Ela pertence a uma classe de pássaros que só existem em vôo. Engaiolados, esses pássaros morrem.

O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras. Mas há coisas que não estão do lado de fora. Coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera...

Imagine o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes – lembre-se da história da Bela Adormecida! Elas poderão acordar, brotar. Mas poderão também não brotar. Tudo depende... As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas... De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam. Nos jardins há pragas: tiriricas, picões...

Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora, poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente...

Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.

A solidariedade é como um ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!”. A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam... Da mesma forma como o poema é um transbordamento da alma do poeta e a canção, um transbordamento da alma do compositor...
A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. É um sentimento estranho, que perturba nossos próprios sentimentos

Acontece assim:

Eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho de suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável esse sentimento imaginado se aloja junto aos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são mais meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse é o sentido do dito de Jesus de que temos de amar o próximo como amamos a nós mesmos. A solidariedade é uma forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade, meu corpo passa a ser morada de outro.

É assim que acontece a bondade.

Adaptado de texto extraído de RECORTES 

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TATUAGEM



Fora os que me conhecem na intimidade, talvez muita gente estranhe e alguns até se escandalizem, outros mais preconceituosos e bitolados podem achar que é coisa de adolescente, enfim, como sempre dou a cara pra bater contando causos pessoais, deu na telha de falar sobre isso hoje: tatuagem.

Tem um programa de TV que eu assistia com bastante frequência, até bem poucos dias chamado Miami Ink e que era exibido por um canal pago. Achava legal, curtia assistir porque era um programa leve e divertido que se passava em um estúdio de tatuagem e à medida que a arte ia sendo executada, ficávamos sabendo um bocado da história daquelas pessoas, principalmente na parte em que as levam a escolher determinado desenho. Isso sem falar dos equipamentos utilizados e aquelas incríveis e variadas obras de arte em movimento que dali saiam a todo instante. É uma espécie de reality show que nem mesmo os tatuadores escapam dessa exposição de suas vidas.

Outra coisa que acho muito legal também e que muito me prendia a atenção é que cada um dos profissionais tem um estilo próprio e uma história de vida bem interessante, conservando a humildade e o profissionalismo, pois mesmo estando entre os melhores tatuadores, e até de muitas celebridades, fazem seu trabalho com a mesma dedicação em pessoas comuns.

E eu, pra variar vou confessar porque curto o programa: sou apreciadora dessa arte!

E vou além, pois não sou apenas apreciadora... Um dia ainda faço uma!

Bem, não estou fazendo nenhuma apologia à tatuagem rss, só falando de gostos pessoais. Tudo bem, quem não curte... Afinal, tem muito costume estranho por aí que eu não concordo, não sigo, acho esquisito, aliás, tem uns até "em nome de Deus". E quer saber? Eu não concordo mesmo é quando radicalizam sobre tatuagem e falam de coisas que não entendem. E o PREconceito surge exatamente daí, pois ao ser apresentada a uma situação assim, a pessoa já vem armada, de nariz torcido, porque foi formado um conceito antes, geralmente carregado de informação superficial e distorcida e sempre generalizada.

E a tatuagem não foge à regra. O que eu já ouvi por aí sobre os supostos malefícios da mesma que vão desde danos físicos a espirituais, chega a ser engraçado. Quantas vezes já ouvi: aquele cara fuma maconha, olha lá o tamanho da tatuagem dele. (Tanta gente que curte a erva e não tem uma tatuagenzinha sequer... )

Em outras situações a pessoa sofre eterna discriminação apenas pelo tipo de desenho escolhido; tem quem leva até nome de marginal talvez devido ao seu uso estar associado ao fato de, no final do século 19, a Inglaterra ter adotado esse procedimento para identificar criminosos; e ainda tem aquele que, só pra discordar, pergunta como vai ser quando o cara ficar velho rss.

Mas pra mim, uso de tatuagem está mais ligado a estilo pessoal, a comportamento, pois observe-se que numa mesma família onde os filhos são esclarecidos corretamente, sem neuras, sem religiosidade, sem proibições, tem os que curtem e os que não curtem tatuagem e essa é a grande sacada: a liberdade de escolha.

E esse lance de que Deus proíbe, é outra coisa que precisa ser revista no Código Divino, como comentamos dias atrás sobre isso lá no blog do Tiago.(Risos)

Ora, quando me vêm com passagem em Levítico 19.28 simplesmente digo que lá está bem claro: PELOS MORTOS não ferireis a vossa carne - em referência aos que faziam lacerações no corpo, imprimindo marcas em sacrifício aos ídolos mortos cultuados.

Outra coisa neurótica e extremista é dizer ainda que a tatuagem pode ser sinal de pacto sobrenatural, sinal de rebeldia e ainda que serve para identificar determinados grupos. Ora, pode até haver, eu não duvido de nada rss, mas isso é generalizar, pois há tatuagens e tatuagens, formas e formas, motivos e motivos. E da mesma maneira que existe esse tipo de tatuagem mal vista, existem outros sinais que não estão gravados e que também servem para esse tipo de identificação e nem têm marca visível e MESMO ASSIM, o pacto está ali, tatuado no coração, sabe Deus com o quê ou com quem.

A argumentação mais rasa é a do “templo do espírito”, que os religiosos usam em relação ao que diz Paulo ao povo de Corinto quando este lhes puxa a orelha ao falar sobre prostituição e atividade sexual fora do contexto conjugal. (Ver 1Co 6.19) O mesmo Paulo que, aos rigorosos, insensatos e inflexíveis gálatas - que defendiam a justificação pela lei insistindo em cortar um pedaço de pele - ele lhes diz que então cumpram rigorosamente a lei. (E é claro que há um quê de indignação, ironia e desafio, afinal quem é capaz de cumprir normas rigorosamente e todo o tempo?) E acrescenta: porque, em Cristo, nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, MAS A FÉ QUE ATUA PELO AMOR.(Ver Gálatas 5.6)

Enfim, as minhas restrições estão ligadas apenas aos cuidados com infecção da pele, portanto quando for fazer a minha, certamente vou procurar um profissional devidamente qualificado, pode até ser o Chris Garver (foto) que eu não me farei de rogada rss


RF.




terça-feira, 20 de abril de 2010

Vai e procede tu de igual modo


Um crente, daqueles de terno e gravata, em dia quente, bíblia surrada debaixo do braço, sujeito sincero em sua fé, temente a Deus, buscando cumprir a risca sua cartilha. Sempre na busca de não dar um mau testemunho, de não fazer tropeçar os que, por exemplo, tem sua vida reta como referencial de cristão.

O percurso de sua casa até a igreja passava por um prostíbulo, também conhecida como zona.

Se tem uma coisa que este crente não pode ser acusado era ser fraco nesta área. Jamais cedeu ao apelo sexual das meninas que expunham seus corpos para a prostituição de sua forma mais tradicional.

Tão firme era ele que, um dia, duas prostitutas o cercaram. Queriam a todo custo se aproximar do crente. Elas, não tão novas, estavam cobertas de maquiagem e um forte perfume. No interesse de detê-lo em seu caminho, tentaram até pegá-lo pelo braço, mas ele se esquivou. Faltou pouco para que ele voltasse de sua fuga, e com o dedo em riste, repreender aquela tentativa – desagradável, inapropriada, não condizente, inoportuna.

Mas ainda era sábado: Havia um domingo pela frente. O culto daquele sábado trouxe um crente orgulhoso em sua postura correta. O de domingo traria outra história.
Na ida do culto, o velho puteiro já estava em pleno funcionamento. O crente, como sempre, fez seu trajeto obrigatório, mas agora só uma das prostitutas do dia anterior estava ali. Vestida com o mesmo shorts curtíssimo, chorava sentada a calçada, o que chamou a atenção daquele cidadão tão devoto:

- O que acontece? Por que chora tanto?

- Minha amiga... - falou a puta, só então olhando no rosto de quem a questionava.

Os olhos inchados e vermelhos não iam ajudar a ter muitos clientes naquela noite. Após uma breve pausa, questionou:

- Não foi você que passou por aqui ontem?

- Sim... - recuou ele.

- Minha amiga estava desesperada, ela queria sair desta vida. Nessa vida de prostituta, só crente não põe o pé. Ela acreditava que os crentes poderiam ter a resposta...
O homem ouvia aquilo e um sentimento de vergonha e orgulho se confundiam.

- Onde está ela? - perguntou ele, se preparando para dar as respostas necessárias.

- Ela se matou...


História verídica - Texto original ---> O CRENTE E A ZONA
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Estabelecendo o paralelo entre as histórias de "passar ao largo" lamentavelmente o fato se repete e esses políticos espirituais de colarinho branco roubam o que há de mais precioso: a vida.


E a mesma história se repete ironicamente todos os dias e das mais diversas maneiras, na mesma proporção em que cresce o número de templos (dos mais suntuosos aos clubinhos particulares) porque somos vaidosos, pretensiosos, e, acima de tudo, resistentes em não obedecermos ao mandamento "Vai e procede tu de igual modo"(Lc 10:25.37) determinado pelo próprio Redentor.

Vai tu <- modo imperativo- A gente quer o Redentor 100% mas não quer o Senhor na íntegra, parafraseando meu amigo João Carlos.

Ora, Jesus não perguntou se a gente acha boa essa idéia de dar a mão ao necessitado, até porque ao propôr a parábola, Ele revigora a memória do intérprete da Lei, que tem o mandamento só no papel e NÃO APLICA na vida real. O mandamento que, no final das contas, engloba TODOS os outros:

"Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento;

e:

Amarás o teu próximo COMO A TI MESMO".

Simples assim!

Mas é justamente aí que o bicho pega, pois é simples mas não é fácil, já que ele teria que sair do mundinho pré-estabelecido, acomodado, egoista, perniciosamente religioso, e que gira em volta do próprio umbigo, digo, da própria "igreja".

Então, é mais fácil colocar um terno (e comprar uma bíblinha melhorzinha rss <--riso amarelo) pra poder sair bem na fita lá na igreja do meu pastor Sr fulano de tal, que me deu uma cartilha pra eu seguir. Seguir feito rolo compressor, passando por cima do irmãozinho.

Ou da irmãzinha... :(

E assim caminha a humanidade...

RF.


domingo, 18 de abril de 2010

QUERES SER CURADO?




De vez em quando – e conforme o que eu vivencio no cotidiano -  me vêm à lembrança, de maneira muito forte, certas passagens bíblicas. Hoje se trata de uma passagem que eu desconfio até que já escrevi algo relacionado a ela, mas esse é um assunto tão incrível, tão denso, tão rico, que eu insisto em repetir.

Conta-nos a história que em Jerusalém, havia uma das entradas cujo nome era Porta das Ovelhas, onde se localizavam imensos reservatórios de água escavados na rocha e coletados também da chuva para o consumo. Um deles - o tanque de Betesda - era conhecido por ter uma água milagrosa, curando aquele que ali estivesse no exato instante em que a água era chacoalhada por um anjo que surgia periodicamente justamente para esse fim. (João 5.4)

A história diz que qualquer doença era curada imediatamente e por isso ali se reuniam aos milhares não só os aleijados como todo tipo de doente que havia. E foi ali que um homem enfermo havia 38 anos (Eu disse trinta e oito!) travou um breve e contundente diálogo com alguém que ele jamais imaginaria quem fosse. Afinal, este não portava nenhum crachá nem plaquinha de nome de igreja nem chegou dizendo que pertencia a essa ou aquela denominação religiosa, primeiro porque ele não possuía tais “referenciais” e depois por estar/ser focado única e exclusivamente na necessidade do outro.

Impressiona-me porque ali mesmo, em poucas palavras, o homem foi curado. E, particularmente, essa história de cura simplesmente me fascina, porque ela se dá na alma, vai ao cerne da questão, na raiz do mal que consumia aquele homem que, de tão minadas as energias, já vivia em cima de uma cama há muito tempo.

E aí... É curado “milagrosamente”!

Então eu me lembro de que disse uma vez um psicólogo que quando estamos com uma tristeza muito grande, no limiar de uma depressão, o primeiro impulso é o de não sair mais da cama. As forças vão se esvaindo e a pessoa se deixa levar por um desânimo que gradativamente vai tomando posse do ser. E é nessa hora que o outro entra em cena. (Ou deveria...) Nesse momento percebemos como precisamos do outro.

“Melhor é serem dois do que um”. - diria o pregador de Eclesiastes.

Às vezes, munida de compaixão, uma única pessoa para dar injetada de ânimo é suficiente. Outras vezes somos mais sortudos e o grupo à nossa disposição é maior. E às vezes também esse grupo pode se colocar à disposição, MAS se não quisermos de nada adianta tanto empenho. Por isso eu vejo que mesmo tendo pessoas ao nosso redor, em alguns momentos na vida as mudanças só acontecem pela nossa própria decisão, nossa escolha, nossa vontade; que as pessoas são usadas como instrumento de Deus para nos encorajar, mas que precisamos ter vontade para mudar o rumo da situação em que nos encontramos.

E compaixão é justamente sentir com, ter a mesma paixão, o mesmo sentimento, tipo “tô contigo nessa parada”! Porém, tem hora que mesmo estando cercados por um staff  não conseguimos enxergar de tanto que estamos atolados em autopiedade, puxando o velho freio de mão que nos impede de aceitar de bom grado a ajuda que precisamos, simplesmente porque nos acostumamos a ter pena de nós mesmos. Ficamos calejados e então perdemos a sensibilidade, anestesiados pela força do hábito, muitas vezes traduzida como cinismo. Quantos conhecemos que no meio do processo de um novo aprendizado dizem ah eu vou voltar pra tal condição, vou voltar pra tal lugar, porque lá eu era livre... (Na ilusão de que aquele rei da Passárgada do seu passado era seu amigo fiel e verdadeiro).

A história daquele paralítico eu não sei qual era, mas sei que ele também não fazia nenhum esforço para alcançar (vontade -> ação) a água que curava, porque estava desesperançoso. Permanecia junto aos demais, sabia que a água curava, via os outros sendo curados por aquela água remexida ali tão próxima, mas sua letargia o impedia de alcançá-la, de tão paralizada que estava sua alma.

Até que um dia, esse Alguém que o observava aproximou-se e indagou-lhe:

- QUERES ser curado?

Ele perguntou em outras palavras:

- Você se importa com o seu problema o suficiente para fazer alguma coisa a respeito, ainda que isso exija certo esforço, alguma ação?

- “Levanta-te, toma o teu leito e anda"

E ele se foi...
E eu imagino que essa abordagem teve efeito imediato, tipo um tratamento de choque, por causa do AMOR como aquele homem falara com ele. E funcionou não por ser uma demonstração de “amor” pseudo-piedoso, complacente, lerdo, mas pela maneira bem especial de demonstrar real interesse pelo problema sem sentir aquela peninha inútil que certamente o doente capta e que, em círculo vicioso, só realimenta o mal.

Eu não tenho nenhuma dúvida: o paralítico foi curado pelo amor.

A fé e a esperança são importantes, mas o mais importante é o AMOR.

Ora, esperança ele não tinha: “-Não tenho ninguém...”

Em outras palavras:

- Ninguém me ama ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor, a vida passa e eu sem ninguém, ninguém me abraça nem me quer bem...

Fé... Menos ainda! O próprio tempo denuncia isso. E mais: para o paralítico ali estava certamente a única pessoa  que dele se compadeceu dando-lhe a atenção e as palavras que ele precisava.

E mais tarde quando Jesus se encontra com ele no templo, ainda o adverte, pois sabendo que seu pecado era a desesperança que o havia deixado preso na alma durante 38 anos, esse era seu cuidado: que ele não perdesse mais a esperança!

E sem qualquer plaquinha de identificação ou currículo religioso à mão, deu o toque:

- Olha que já estás curado; não peques mais para que não te suceda coisa pior. (E ainda tem gente que acha que isso era Jesus ameaçando). Aos que pensam assim, Jesus diz: - Eu vim para curar e não para julgar ou condenar.

Jesus sabe que o paralítico na alma racionaliza tudo, é teimoso e resiste em romper seus limites, e ainda tenta se justificar, tendo explicações na ponta da língua para o seu caso “sem solução”. Uns são reclamões, outros são mais sutis, e há ainda os silenciosos.

Em alguns, a autocomiseração é inteligente e a chantagem, explícita:

-Ninguém me entende... -

Mas Jesus ignora todas essas nossas emoções negativas porque conhece as nossas potencialidades e espera que as usemos, numa sequência que nos leva a atitudes práticas. A interação entre os aspectos mental, espiritual e físico é algo puramente bíblico e essa visão holística do homem não é creditada a nenhum outro psicoterapeuta senão ao maior psicólogo de todos os tempos cuja proposta é que tenhamos uma vida saudável em todos os aspectos de modo que possamos viver com plenitude, uma vida em constante transformação e que começa pela saúde da mente.

Daí quando Ele diz para termos bom ânimo perante as aflições que certamente enfrentaríamos, ele nos incentiva a superar as adversidades, sejam quais forem, para experimentarmos, aqui mesmo, as Suas bênçãos! Porque, afinal, somos peregrinos que almejamos felicidade eterna, mas também felicidade aqui e agora!

Portanto, paremos de choramingar, de nos lamentarmos, poupemo-nos de filosofias vãs, de tanto blá blá blá.

- Pega tua cama e segue em frente! Sem medo de ser feliz!




"Perguntaram-lhe eles:
Quem é o homem que te disse:
Toma o teu leito e anda?
Mas o que fora curado não sabia quem era."
(João 5: 12.13a)





RF

quinta-feira, 15 de abril de 2010

TEM PÃO VELHO?



Vou contar um fato corriqueiro que, inesperadamente, me trouxe uma grande lição de vida.

Era um fim de tarde de sábado.

Eu estava molhando o jardim da minha casa, quando fui interpelado por um garotinho com pouco mais de 9 anos, dizendo:

- Senhor, tem pão velho?

Essa coisa de pedir pão velho sempre me incomodou desde criança.

Olhei para aquele menino tão nostálgico e perguntei:

- Onde você mora?

- Depois do zoológico.

- Bem longe, hein?

- É… mas eu tenho que pedir as coisas para comer.

- Você está na escola?

- Não. Minha mãe não pode comprar material.

- Seu pai mora com vocês?

- Ele sumiu.

E o papo prosseguiu, até que eu disse:

- Vou buscar o pão. Serve pão novo?

- Não precisa, não. O senhor já conversou comigo, isso é suficiente.

Esta resposta caiu em mim como um raio. Tive a sensação de ter absorvido toda a solidão e a falta de amor daquela criança, daquele menino de apenas 9 anos, já sem sonhos, sem brinquedos, sem comida, sem escola e tão necessitado de um papo, de uma conversa amiga.

Caros amigos, quantas lições podemos tirar desta resposta:

"Não precisa, não. O senhor já conversou comigo, isso é suficiente!"

Que poder mágico tem o gesto de falar e ouvir com amor!

Alguns anos já se passaram e continuam pedindo "pão velho" na minha casa...

E eu dando "pão novo", mas procurando antes compartilhar o pão das pequenas conversas, o pão dos gestos que acolhem e promovem.

Este pão de amor não fica velho, porque é fabricado no coração de quem acredita Naquele que disse:

"Eu sou o pão da vida!"

Verifique quantas pessoas talvez estejam esperando uma só palavra sua.

- Tem pão velho?


(Texto recebido por e-mail)


RF

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Quem está no controle?




A fé em Jesus não se abrigou em nenhum 'templo' até o quarto século. E por mais de trezentos anos os cristãos não tiveram nenhum templo nem sentiram falta de nada.
 
E mais: foi o tempo mais feliz que a Igreja já experimentou na História, apesar das muitas perseguições.

Hoje, pelo menos 85% das 'igrejas' estão assim: umas, doentes de algo tão grotesco que não dá nem pra passar na porta. Outras sofrem desses males intervencionistas, fruto do desejo de poder e controle.

Algo corrompeu a alma pastoral da maioria e, por conseguinte, também da comunidade.


Tenho um amigo muito amado e muito cristão que disse outro dia, que não leva mais as filhas a nenhuma 'igreja',a fim de que as meninas, adolescentes e críticas, não percam a fé.

Meu dilema nos últimos 30 anos sempre foi esse.

Pregava para milhões na televisão, no rádio, nos estádios lotados, em teatros, por meio de meus livros, revista, fitas, vídeos etc.; milhares se convertiam, pediam recomendação de uma igreja, eu indicava, alguns poucos se davam bem, mas a maioria dizia:

- Quero saber onde é que pregam a Palavra, conforme ouço você pregar, porque onde estou, é 'outro evangelho'.

Naquele tempo — até cerca de dez anos — ainda havia igrejas recomendáveis.

Hoje está brabo, como nunca esteve antes.

Até muitas das igrejas históricas entraram no esquema de controle de almas humanas.

É um inferno.

O Diabo agradece!
Mas lembre-se:


 
Você não se converteu a uma 'igreja'.

 
Você conheceu Jesus, e, por esse simples fato, se tornou Igreja.

Portanto, crie sua própria comunhão de irmãos.

Reúna-os para lerem a Palavra e orar.

Faça como Jesus e Paulo: passavam pela sinagoga; se bem recebidos, ficavam; se não, passavam adiante.

Nosso negócio é com gente, e não com xerifes adoecidos e auto-intitulados de pastores.

Não desanime.

O amor de Cristo é maior que a doença da “igreja”.

          Pregue a Palavra da Graça de Deus.

          Igreja é quem crê no Evangelho da Graça.

Deles é o direito de primogenitura espiritual sobre essa Incomparável Confissão de Fé.

(Grifos e negritos meus - RF)


(De um pastor a certo jovem. Texto na íntegra AQUI)





domingo, 4 de abril de 2010

Semana Santa





"Perguntou-lhe Jesus:

Mulher, por que choras?

A quem procuras"?

(João 20.15)











Inevitavelmente me vêm lembranças estranhas nesse feriadão...

Nascida em lar católico e estudando em colégio de freiras, quando criança e adolescente esses eram os dias mais tristes da minha vida, enquanto coadjuvante de uma verdadeira comoção coletiva, vindo à tona de maneira muito deprimente a história do sofrimento pessoal e da perseguição política que Jesus sofreu em seus últimos dias terrenos.


A igreja que frequentávamos e a capela do colégio ficavam mais sinistras ainda do que os meus olhos costumavam ver, com todas aquelas imagens enormes vestidas de cima a baixo com mantos roxos que me davam medo. (Ainda hoje tenho certa reserva pela cor roxa tão na moda atualmente)


Para completar todo aquele ambiente baixo-astral, havia as tradicionais procissões que, em apelo contagiante, carregavam grande conteúdo dramático com uma tremenda carga emocional que nos imputava enorme sentimento de culpa e de pena. Eu me sentia muito mal e o coração apertado me silenciava. E me silenciou durante muito tempo. (Sem contar quantas vezes fui queimada com aquela vela que eu tinha que carregar.)

 
E assim fui crescendo e vivendo em meio a essa tradição que dentro do contexto histórico-cultural e religioso nos primeiros séculos era um recolhimento natural em rememoração aos últimos dias de Jesus e que, com o passar do tempo- inclusive para o catolicismo que adora um cerimonialismo - foi se tornando obrigatório, enfatizando-se até o que se deve e o que não se deve comer, recheado com suas famosas regras e religiosidades. Aliás, como de fato ocorre em todos os tradicionalismos adotados pelo homem e que findam por desvirtuar o real sentido das coisas através dos tempos.

 
Por outro lado, não sou contra festividades religiosas, principalmente como essas duas tão significativas: na passagem do AT, o povo de Deus foi liberto da escravidão egípcia; na passagem do NT, o povo de Deus é liberto pelo eterno sacrifício da Cruz. Essas duas Alianças de Deus com o seu povo marcaram mudanças radicais e assim como os judeus comemoravam a libertação do seu povo, a nossa libertação pelo sacrifício na Cruz também "merece" comemoração. E muito mais, já que se trata da Eterna Aliança. E todos os dias, posto que é a celebração pela Vida!

 
Para mim, entretanto, a grande questão é o tradicionalismo como obrigação constituindo-se um risco quando se preserva o que foi determinado pelo homem, tornando-se inevitável o fato da tradição ser utilizada como máscara de santidade. Esse é o risco. Bem enfatizou o autor de Hebreus que a experiência espiritual cristã é dinâmica, justamente ao povo escolhido que estava desistindo da fé na Graça de Deus, em Cristo, anulando o sacrifício da Cruz. Voltando a velhos ritos, práticas e crenças legalistas, devido a toda sorte de opressão, foram perdendo o sentido da palavra hebreu que é fruto da desinstalação, da capacidade de andar para adiante, de cruzar fronteiras. (A raiz semítica da palavra “hebreu” determina estado constante de progressão).

Quantos de nós, cristãos, anulamos hoje em dia o sacrifício da Cruz com práticas, crenças, normas e regras inúteis, desnecessárias e ineficazes!Quantos de nós, ainda não entenderam que a relação conflituosa de Deus com os homens nada tem a ver com regras! Inclusive, diga-se de passagem, que os únicos sacrifícios que a Ele importam são o louvor a Ele e a cooperação entre os homens.

 
Não sou teóloga nem falo em nome de nenhuma denominação, mas leio, pesquiso e particularmente, observo com certa curiosidade, mudanças de hábitos até mesmo em instituições religiosas que adotam a abstinência de carne, como por exemplo, quando um tempo atrás um sábio arcebispo em Porto Alegre, considerando os apegos modernos, surpreendeu os católicos afirmando que ingerir carne não se constituía em pecado, não havendo nenhuma proibição e sim uma tradição, sugerindo inclusive outros tipos de penitências, já que hoje em dia os excessos são outros e as pessoas não se regalam tanto em alimentos, principalmente a carne vermelha abastada, que era a tônica nas festas antigas, juntamente com a bebida. Hoje em dia a própria lei seca já reprime a prática dessa última, o que nos diz claramente que a tradição se perde conforme o contexto histórico em que se vive.

 
Não poderia, entretanto, deixar de citar a analogia da carne vermelha que, segundo os adeptos, estaria fortemente associada à Paixão, já que durante o Seu martírio, Jesus havia perdido todo o conteúdo de sangue em seu corpo; eu até entendo que, certamente é como se toda aquela forte lembrança associada impregnasse certa repugnância ao cardápio em questão. Porém, o que se percebe é que muitas pessoas comemoram toda essa passagem, seguindo rigorosamente as regras e cerimonialismos de forma mecânica e coletiva, deixando de lado o que mais importa: o exame diário dos nossos pensamentos, das nossas palavras e das nossas ações em relação ao próximo, sem perceber que o resto é prática inútil.

 
Ora, se eu morri com Cristo, sujeitar-me às ordenanças do mundo é um contra-senso, uma infantilidade espiritual; ou seja, por que renunciar comer ou beber isso ou aquilo em determinado dia, já que podemos comer isso ou aquilo em qualquer dia, desde que seja com bom senso e moderação? (Cf Cl 2: 20,23)

 
Enfim, nada disso tem a ver com pecado, rituais e muito menos com oferenda a deuses como sugerem desavisados denominacionais em extremo oposto, que associam erroneamente essa data a eventos pagãos, quando na verdade esse evento ocorreu justamente no Pessach, data em que os judeus comemoram a fuga e libertação de seu povo escravizado no Egito.

(O próprio Evangelho de João – este foi o evangelista que viveu mais próximo de Jesus - propõe uma cronologia que aponta a última ceia de Jesus para a data dessas festividades judaicas.)

 
E principalmente, porque a Paixão de Cristo nada tem a ver com tradições, paganismos, comida e bebida, e sim com o cumprimento das Escrituras de maneira que Deus se reconciliasse com a sua criação, tornando ineficaz qualquer sacrifício que tente aperfeiçoar ao que Lhe preste culto.

 
Por isso, no momento que Jesus morreu imediatamente o Véu do Santuário foi rasgado de cima a baixo numa clara demonstração do livre acesso a Deus, que nada tem a ver com questões morais e sim, relacionais.

 
O véu do templo era uma cortina pesada ficando entre o Lugar Santo e o Santo dos Santos e sua presença era uma lembrança constante da separação entre a humanidade e Deus. O fato de ter sido rasgado em duas partes, de cima a baixo significa a remoção de qualquer barreira que existia entre Deus e qualquer pessoa que aceite o sacrifício de Jesus na Cruz, que penetra além do véu.

 
Finalmente...

 
Nós não temos capacidade de expiar nossos próprios pecados, por isso Jesus o fez por nós.

 
Sacrifício pessoal e auto-flagelo não interessam a Deus, daí não concordar com essa história de penitências que para mim é algo contraditório e desnecessário, já que o sacrifício da Cruz é perfeitamente suficiente.

“Está tudo feito para que em mim possa ser feito”.

 
Ele ressuscitou e vive para sempre!

 
E o Seu Sangue purifica a todo aquele que crê... Independentemente do cardápio da Semana Santa.

E, claro, se escolher beber... Que o faça com moderação.

 
RF


"Eis que o véu do santuário
se rasgou em duas partes
de alto a baixo".
(Mt 27.51a)